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Saudades de Lusa

Alexandre Fernandez Vaz

Há cerca de um ano, em uma tarde de domingo, eu me deslocava para o Aeroporto de Guarulhos quando, ao passarmos pelo Canindé, o motorista do Uber lembrou dos tempos em que tentou ser jogador profissional de futebol. Palmeirense de coração, mirando as torres que circundam o estádio relatou um pouco da experiência de ter frequentado as categorias de base da Associação Portuguesa de Desportos, a Lusinha, como ao clube carinhosamente se referiu. Pensei, de imediato, no que se tornara a outrora força do futebol paulista, hoje relegada à quarta divisão nacional. De lá para cá, a coisa só piorou e a Lusa está sob forte risco de ser rebaixada para a terceira divisão do Campeonato Paulista.

Vista externa do Canindé, em São Paulo-SP. Foto: Wikipedia.

Sempre simpatizei com a Portuguesa. Das minhas mais longínquas recordações de futebol, faz parte o uniforme em cores vivas do time da colônia lusitana em uma tarde no Pacaembu. Meu pai admirava o atacante que jogava com a camiseta 8, Enéas, que parecia dormir em campo, mas que surgia, repentino, matador. Eu também gostava de vê-lo jogar com habilidade e técnica, qualidades que o levaram mais tarde ao Bologna e ao Palestra Itália, além de a alguns momentos de seleção brasileira.

Ainda na infância, em um pequeno catálogo que acompanhava um time de botão do Santos, li que em 1973 o time vencera o Campeonato Paulista, mas que tivera de dividir o título com a Lusa porque, na disputa de pênaltis, o árbitro Armando Marques errara a contagem e dera por terminada a peleja antes que o time de Pelé consolidasse matematicamente a vitória. Ao se saber da confusão, o imbróglio não pôde ser desfeito, uma vez que a equipe da Portuguesa, espertamente, deixara o estádio. Foram os dois, então, dias depois, declarados campeões. No time do Canindé jogava, fiquei sabendo, o meio-campo Basílio, herói do título corintiano de quatro anos depois. Quem também atuara anos antes na Portuguesa, aliás, é Zé Maria, lateral capitão do Corinthians de 1977, que se transferira para o Parque São Jorge um pouco antes de sagrar-se tricampeão do mundo com a seleção, em 1970.

Fui acompanhando as batalhas geralmente infrutíferas da Portuguesa ao longo dos anos. Em 1996, vivendo na Alemanha, vim por uns dias ao Brasil e assisti às finas do Campeonato Brasileiro. O Grêmio vencera a Taça Libertadores da América do ano anterior, sendo derrotado nos pênaltis pelo Ajax Amsterdam na decisão da Copa Intercontinental. Era um time vigoroso, com as digitais de Luís Felipe Scolari: marcação pegada dos volantes, bolas alçadas à área adversária pelos laterais, ligações diretas. Algo que ele depois levaria para o Palmeiras de tantos títulos da segunda metade dos anos noventa quando, no entanto, tinha um elenco mais talentoso. Se o tricolor gaúcho não era o mesmo que vencera o torneio sul-americano em 1995, naqueles jogos decisivos ainda mostrava força e disposição. Pela frente tinha a surpreendente Portuguesa de Desportos. Nela se destacava Zé Roberto, o jovem e habilidoso canhoto que comporia a seleção nacional na Copa de 1998, na França, como suplente do lateral-esquerdo Roberto Carlos. Zé logo se transferiria para o exterior, onde principalmente na Alemanha veio a ter uma carreira de muito sucesso, em especial no Bayern de Munique. O treinador era Candinho e havia outros jogadores de destaque, como o ótimo atacante Rodrigo Fabri, o zagueiro César e o meio-campo Gallo. Este, aliás, foi o autor de um dos gols da primeira partida final, vencida pela Lusa por dois a zero, em São Paulo. Na segunda, no Olímpico, lembro de um jogo tenso, com o Grêmio saindo na frente logo no começo, com Paulo Nunes. A Lusa segurou o resultado quase até o final, quando uma rebatida do mesmo Gallo encontrou Aílton que, de fora da área, marcou um golaço. Faltavam pouco mais de cinco minutos e não deu mais tempo de mudar o placar que, igualado nos dois jogos, favorecia o time do Sul. No ano anterior, pelo Santos, Gallo também ficara com o vice-campeonato, em título que, igualmente por pouco, escapou.

Torcedor da Portuguesa, em partida contra o Santos, no Pacaembu, 22 fev. 2015. Foto: Futebol de Campo.

Em 2013, fui ao Estádio do Figueirense, o Orlando Scarpelli, em Florianópolis, para assistir ao maior goleiro brasileiro, junto com Leão, que vi atuar. Dida jogava pela Portuguesa no mesmo ano em que completava quarenta anos de idade. Ele ainda defenderia as metas de Grêmio e Internacional, somando mais alguns títulos ao extenso currículo que inclui duas Ligas dos Campeões da Europa, Copa Intercontinental, Mundial de Clubes, Libertadores e Copa do Mundo, a de 2002. O multicampeão também jogou pela Lusa.  

Em 1998, o cineasta Ugo Giorgetti apresentou um belo filme, um dos poucos ficcionais que têm o futebol como tema central, Boleiros: era uma vez o futebol. Em torno de uma mesa de bar, veteranos relembram experiências no mundo da bola, uma delas faz recordar Azul, o atacante destemido, irrequieto dentro e fora do campo. Mais um brasileiro fora do lugar, acossado e ameaçado pela polícia porque dirige um carro que, vai saber, deve ter sido roubado. Azul é negro e apenas ao ser reconhecido como astro da bola, passa a ser tratado com cortesia. O personagem é uma homenagem ao atacante Dener, nome de costureiro famoso, talento de sobra para costurar as defesas adversárias com tremenda habilidade e rapidez, como a película faz questão de destacar nas imagens que dão fundo aos créditos finais. Se Azul escapou da morte no interior do carro porque foi reconhecido, Dener não teve tempo. Viajando de São Paulo ao Rio de Janeiro, onde integrava outro esquadrão lusitano, o Vasco da Gama, o craque de futebol-moleque não chegou ao destino, potência de vida que virou tristeza, dor, inconformismo. Mais um brasileiro no lugar que lhe coube neste país desgraçado. Que pena.

Sul da Ilha de Santa Catarina, março de 2019.