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Saudades do velho normal: o barzinho de futebol

Clayton Denis Alino da Silva

Ah, que saudade de ir a um bar para assistir a uma partida futebol, sentar-me a uma mesa e cumprimentar com um largo sorriso aqueles que lá rodeiam: os clientes, os garçons, o dono do bar. Pedir uma cerveja, algo pra comer talvez, e esperar que em algum momento da partida a conversa com o vizinho de mesa se apresente, como algo natural e sincero, entre aqueles que não precisam se conhecer para que possam se entender.

O ambiente de cada bar se diferencia por algumas categorias, principalmente pela influência de seu ethos e de seu público, mas aqui eu quero falar sobre o bar de futebol. Porque o bar de futebol possui características próprias que o difere de outros bares. No bar de futebol, as mesas e cadeiras se voltam sempre ao televisor, priorizando a visão e a atenção dos clientes à tela em que as partidas são exibidas.

Nem sempre é o “seu” time que está disputando a partida, óbvio, mas isso não chega a ser um problema. O apreciador de futebol é um palpiteiro nato e gosta de mostrar que, mesmo quando não sabe como andam as escalações dos times, ainda ousa, no mínimo, a arriscar um placar sem dar o braço a torcer.

Pessoas assistem a jogo de futebol em bar na cidade de São Paulo. Foto: Divulgação.

Ruim com a bola nos pés, sempre gostei de jogar com os olhos. Sempre fui bom de dar instruções para o televisor e de gritar com os jogadores do meu time. No bar, exerço minha forma de torcer dialogando com a televisão, indicando aos jogadores os caminhos que a bola deve percorrer e por onde eles, os atletas, devem se locomover. Normalmente não estou sozinho. O falar para todos (GASTALDO, 2006) e para a televisão é uma forma de gerar um conversa curta com outros torcedores que estão próximos e é uma das diversas formas de torcer que encontramos dentro do bar.

A ritualização dos gritos e gestos dos torcedores muda o ambiente do bar e dá mais emoções não só ao ato de assistir às partidas, mas também às experiências de estar no bar. E esses são rituais de performances realizados entre as mesas e clientes do bar, que gera a interação de conhecidos e de desconhecidos e representações de suas formas de torcer. Assim, o torcer de futebol se apresenta como um meta-jogo dentro do bar, pelos desafios que são estipulados entre os torcedores, seja por conversas técnico-históricas, expressões jocosas ou por formas de motivar as equipes.

Futebol no bar. Foto: Elevate/Unsplash.

E, a partir de um sistema coletivo de crenças (LEVI-STRAUSS, 1978), não há razão de duvidar da magia gerada pelo torcer. Principalmente pela importância da eficácia e pela forma como tal magia se apresenta na cultura e no imaginário dos torcedores. Algo que atua como uma força, fora da razão, unindo-se à comunicação e concretizando-se em magia (TAMBIAH, 1973).

O bar se apresenta como um espaço urbano de sociabilidade e encontro, de casualidade, em que nas grandes cidades se apresenta como um lugar de anonimato e que nas cidades menores aproxima as relações; um local em que as relações são transversalizadas e que minimiza as hierarquias da vida cotidiana. Junto ao processo de utilização do espaço e das interações sociais, as bebidas alcoólicas se apresentam como um fator atrativo e tradicional do bar, institucionalizadas como forma de expressão da euforia e da celebração e que tem justo nos bares o principal espaço para ingestão destas substâncias.

No bar de futebol, as emoções do torcer são aumentadas por ser feito de forma coletiva, por ter as identidades dos torcedores em constante disputa com outros torcedores, inclusive os de seu time. O torcer, no bar e fora dele, é sentimento, é ação simbólica de união do torcedor a um escudo, a cores, a camisas e a escretes de clubes. Excede-se para além do esporte, incluindo aí as relações e interações que são dadas no cotidiano. Cada forma de torcer possui características próprias do torcedor, são rituais individuais que coletivizam-se dentro dos estádios e dos bares.

O apito final encerra, dentro do bar, tensões competitivas que se exaltam na partida. É o momento em que os torcedores sentem que, com o dia seguinte, regressam as obrigações da vida cotidiana, o que faz com que alguns, prontamente, paguem a conta e se retirem. A despedida do bar é breve, pois é sabido que o local do encontro e do torcer permanecerá ali, à espera das próximas partidas e do próximo momento de lazer e diversão que dele provem.

Eu sinto falta do bar como evento e como cotidiano. Sinto falta do bar e do futebol, dos papos e dos encontros; da confirmação de sua importância na cultura. No bar, afinal, o futebol é visto de forma diferente. Ao contrário daqueles que assistem dos estádios e da televisão de casa, no bar a alegria do gol e a tristeza da derrota possuem o mesmo remédio.

Referências Bibliográficas

ALINO-SILVA, Clayton. Futebol em mesa de bar: o torcer na cidade de Londrina. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual de Londrina, 2019.

GASTALDO, Edison. Futebol e sociabilidade: apontamentos sobre as relações jocosas futebolísticas. Esporte e Sociedade, vol. 1, p. 1-16, 2006.

LÉVI-STRAUSS, Claude. “O feiticeiro e sua magia”. In: LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p. 193-213.

TAMBIAH, Stanley J. “A performative approach to ritual” In: ______. Culture, thought, and social action. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 123-166, 1985.


Sobre o LELuS

Aqui é o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade. Mas pode nos chamar só de LELuS mesmo. Neste espaço, vamos refletir sobre torcidas, corporalidades, danças, performances, esportes. Sobre múltiplas formas de se torSER, porque olhar é também jogar.


Como citar

SILVA, Clayton Denis Alino da. Saudades do velho normal: o barzinho de futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 11, 2020.