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Saudosismo no rádio: a poesia narrada entre nomes, alcunhas e bordões: “Tem gol onde, Mané?”

Daniel Leal

A primeira lembrança da infância de um adulto apaixonado por futebol pode ser a ida a um estádio acompanhado do pai, da mãe ou, quem sabe, dos tios, avós. Pode ser a comemoração de um gol com um abraço em um desconhecido. A frustração de uma derrota nos últimos minutos de jogo ou a explosão da comemoração de um título sobre o rival. Pode ser um presente: a camisa do seu time de futebol do coração – hoje, velhinha, antiga, mas que jamais será desfeita. O saudosismo dói no peito, mas as memórias simbólicas de um tempo anterior à pandemia ajudam a alimentar a alma.

Radinho pilha

Foto: Max Rocha.

Ao lado de todos os cenários de um passado recente, a paixão do torcedor fanático quase sempre teve como companheiro fiel um instrumento indispensável: o rádio. Na época em que as transmissões de jogos na televisão eram pouco comuns (sobretudo para os clubes do Nordeste, região que recebia basicamente jogos dos clubes de fora até o final da década de 1990), foram por décadas os radialistas os principais responsáveis pela imagética áurea criada acerca do futebol. 

Várias gerações inteiras foram e são construídas a partir de narrações esportivas e seu conjunto permeado essencialmente pelo misto de informação e emoção. Ao passar dos anos, aquelas vozes, de tão presentes no nosso dia a dia, tornam-se familiares a ponto de fazer de alguém que sequer a imagem você nunca viu, uma companhia íntima. E quando essas vozes simplesmente somem do ar?

Nos últimos anos, uma saudade que não passa acompanha os aficionados por rádio em Pernambuco. Neste texto, vou me restringir a três figuras históricas: o locutor Adilson Couto, o plantonista esportivo Mané Queiroz e o comentarista Luis Cavalcante, falecidos em 2009, 2014 e 2017, respectivamente. O objetivo deste artigo é fazer um paralelo da importância de cada um desses três personagens (os quais nunca tive contato, mas considero-me próximo graças ao efeito narcotizante das ondas do rádio) com a história da radiodifusão esportiva nacional e suas simbologias.

 

 
 
 
 
 
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Entre bordões e acunhas: a figura do narrador

Natural de Petrópolis, Adilson Couto começou a carreira na Rádio Continental, do Rio de Janeiro, em 1967. Mas foi na Rádio Jornal, no Recife, que fez história. Com bordões como o “tem gente mexendo no placar”, “que vergoooonha fulaninho, que vergonha!” e “o coração faz tum, tum, tum de alegria” marcou gerações. Na voz dele, o jogador não conduzia a bola, mas era por ela conduzido. “A bola vai, vai, vai, vai…” – quem já ouviu, reproduz na memória o jeito único do locutor, o conhecido “Grau 10 Internacional”.

As alcunhas dos radialistas são um clássico. De tão disseminadas no meio esportivo, não pode deixar de se pontuar que esta, certamente, é uma das características que mais ajudam a aproximar esses comunicadores do grande público. Note, por exemplo, que os narradores de televisão não têm alcunhas. Em Pernambuco, o narrador Roberto Queiroz, em plena atividade na Rádio Jornal, é “O Garganta de Aço”; Aroldo Costa, da mesma rádio, é “O maior gol do mundo” – as alcunhas também são usadas para repórteres e comentaristas, quase sempre especificamente do rádio.

Voltando a Adilson Couto, outra marca registrada do narrador era um artifício impensável a gerações passadas: a pausa na narração. Mas um hiato em um momento muito peculiar do jogo: o gol. Era praxe do locutor narrar o nome do jogador que terminava o lance e fazer uma pausa: “Kuki!”, silêncio; “Carlinhos Bala e o goleiro, vai bater, bateu…”, micropausa; “Lá vai Grafite…”, a expectativa quem respondia era o público. Com o microfone aberto do repórter era captado o som ambiente do estádio e o barulho da torcida: “Uuuuuuuuuuuuh!”, o som reportava um quase gol. Mas se o barulho fosse de um potente “Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!”, a emoção era inigualável. Em seguida, entrava a voz pulsante de Adilson com um fôlego invejável a gritar: “Gooooooooooooool”. Era de arrepiar.

Mas nem sempre foi assim. Aqui, um breve parêntese aos primórdios do rádio esportivo no Brasil. O primeiro speaker que se tem notícia no país nasceu em São Paulo. Nicolau Tuma narrou o primeiro jogo na íntegra em 19 de julho de 1931, pela Rádio Rádio Educadora (SOARES, 1994). Vitória do São Paulo sobre o Paraná: 6 a 4. Naquela época, não havia cabines de rádio e a transmissão era realizada no meio da torcida, na arquibancada mesmo.

Outra coisa impensável para os dias atuais: não existiam camisas numeradas. Então, o jeito era memorizar todos os detalhes possíveis dos jogadores para fazer a narração: cabelos, trejeitos, bigodes, altura, chuteiras. O locutor tinha que se virar. Aos desconhecidos, salienta Ortriwano (2000, p.3), “haja imaginação!”. No início das transmissões, também não havia vinhetas, efeitos sonoros, comentaristas e tampouco repórteres de campo. Cabia ao narrador, ocupar todos os espaços. Não à toa, Tuma era conhecido como o “speaker metralhadora”, apelido dado pela surpreendente marca de 250 palavras faladas por minuto (ORTRIWANO, 2000; RIBEIRO, 2007).

Se Tuma falava muito e rápido, por outro lado era econômico para narrar o principal lance do jogo: o gol era curto e seco. O speaker não gostava de gritá-lo demoradamente e explica a Soares (1994, p.30) por quê. “Eu acho que o gol anunciado de forma demorada é uma perda de tempo. Quando um locutor diz ‘gooooooooool’ e fica assim 20 segundos, o ouvinte quer saber logo quem foi que marcou”. O certo é que o grito estrondoso que estamos acostumados a ouvir no rádio ou televisão brasileiras só viria a nascer no início da década de 1940 com o radialista Rebelo Júnior, Rádio Difusora Paulistana.

Nenhum gol, na opinião repleta de saudosismo e memória afetiva do autor deste texto, era tão bonito, limpo e sonoro como o do locutor que faleceu aos 62 anos. Em 24 de maio de 2009, Adilson Couto narrou a sua última partida, Sport e Atlético-MG, na Ilha do Retiro. Estava bem. Dia 28, teve uma parada cardíaca. Fez-se o silêncio, calou-se a voz, para muitos, a mais marcante do rádio pernambucano. Ele trabalhou durante 17 anos na Rádio Jornal, narrando inúmeros campeonatos estaduais, regionais, nacionais, além de Copas do Mundo.

Mané Queiroz

Mané Queiroz. Foto: Reprodução

Informação atualizada: o plantonista esportivo

Na mesma estação que Adilson, AM 780 kHz e FM 90.3 MHz, trabalhou mais um icônico plantão esportivo da história do rádio esportivo pernambucano. Figura extremamente carismática, de sorriso fácil e gargalhada alta, Mané Queiroz era natural de Caruaru, no Agreste pernambucano. Com mais de 40 anos de carreira, passou por diversas emissoras, como as Rádio Olinda e Clube, até ser o plantão esportivo do “Escrete de Ouro”, equipe esportiva criada há mais de 50 anos pelo radialista Ivan Lima, no Sistema Jornal do Commercio de Comunicação. Durante décadas, muito antes de imaginar a possibilidade de ter todas as informações condensadas em um smartphone, a única forma de ficar atualizado “em tempo real” aos resultados da rodada era através dos plantonistas de rádio.

Com a voz rouca, Mané interrompia as narrações e soltava uma flechada seca: “Tem gol!” e saía rapidamente. Se o torcedor estava à espera de algum gol que pudesse beneficiar seu time, o frio na barriga era certo. “Tem gol onde, Mané?”, respondia com a pergunta clássica o locutor do jogo principal. Era a senha para a entrada de Mané com o autor do gol e a atualização do placar.

“E havia o tom certo para o gol certo. Afinal, um gol de honra numa goleada de 6 x 1 não pode ser dito da mesma forma que um golaço aos 44 minutos do segundo tempo em um clássico diante de 50 mil pessoas. Mané não só sabia dessa óbvia diferença como completava as narrações. Sobretudo na Rádio Jornal, no escrete de ouro, onde a sua voz chegou a todos os cantos do estado. Mané redefiniu o plantão esportivo” (ZIRPOLI, 2014).

Zirpoli (2014) complementa afirmando que quem nunca ouviu Mané, provavelmente nunca ouviu rádio em Pernambuco. Era verdade. Mané marcou gerações e influenciou inúmeros profissionais com a sua forma única de fazer plantão na rádio pernambucana. Em uma passagem memorável, chegou a narrar um gol de Bruno Rangel, da Chapecoense, sobre o Icasa (o que beneficiava o Sport na Série B 2013), ao vivo, cortando o locutor, tamanha era a ânsia de passar o resultado esperado pelos torcedores-ouvintes. Aos 66 anos, Mané morreu em 5 de janeiro de 2014, por uma fatalidade, dias após ser atropelado por uma motocicleta na sua cidade natal.

Certamente, deixou orgulhoso por seu legado o pioneiro na função, José Augusto Siqueira. Foi esse técnico das transmissões da Rádio Record, de São Paulo, quem primeiro foi plantão esportivo no país, ainda na década de 1930. Soares (1994, p.32) traz um depoimento do dono da Record na época, o poderoso empresário Paulo Machado de Carvalho, sobre o início da função. “Não era nada mais do que uma série de telefones, daqueles telefones de manivela em que se falava do campo. Do campo, se dava a notícia: ‘Fulano de tal marcou um gol’”. Difícil era conseguir uma linha telefônica para passar os resultados, mas isso já é outra história…

Luis Cavalcante

Foto: Reprodução TV Globo

Comentarista, o tradutor da magia

Por fim, outra figura essencial para qualquer transmissão esportiva no mundo moderno: o comentarista. No início da década de 1930, os comentaristas eram jornalistas de mídia impressa. “Thomaz Mazzoni, por exemplo, comentava para a Rádio Cruzeiro do Sul. No intervalo, fazia uma espécie de resumo da partida, informando o placar, os autores dos gols e alguns dados estatísticos do jogo” (RIBEIRO, 2007,p.85). Em Pernambuco, sinônimo de comentarista esportivo era Luis Cavalcante.

“O comentarista da palavra abalizada” tinha o típico vozeirão de radialista clássico. Era daqueles que impunham respeito. Quando falava, os demais silenciavam-se. Baiano, Seu Luis começou a carreira em 1952, na Rádio Cultura de Ilhéus, na Bahia. Chegou no Recife três anos depois e começou a trabalhar como narrador na Rádio Olinda. Na década de 1960, tornou-se comentarista. Trabalhou também nas rádios Clube, Tamandaré, Transamérica e passou também pela TV Globo no início da década de 1970. Ainda passou pelas rádios Sociedade, da Bahia, e Panamericana de São Paulo (atual Jovem Pan).

Foi, entretanto, na Rádio Jornal onde fez história: lá, esteve por 34 anos (em cinco passagens) dos 60 anos de rádio (18 como narrador, 42 como comentarista). Cobriu seis Copas do Mundo. Por muitos anos, esteve ao lado de Adilson Couto. Carregava consigo a vinheta que prenunciava o comentário abalizado. “Luiiiiiis Cavalcaaaaante”. Era hora de fazer silêncio e ouvir o melhor relato do jogo da rádio pernambucana, respeitado igualmente por torcedores do Náutico, Santa Cruz e Sport. Não em vão, a história do cronista esportivo transformou-se um documentário no Recife.

Luis Cavalcante morreu no dia 3 de novembro de 2017, aos 87 anos, devido a problemas respiratórios. Ele, Adilson e Mané deixam como legado minha eterna mania de ir aos estádios acompanhado de fones para ouvir os jogos. Os radinhos de pilha ainda resistem na tradição dos mais velho, mas hoje os celulares não deixam de fazer a função idêntica e, mesmo à concorrência dos aplicativos super tecnológicos, mantêm vivíssimo um veículo que nunca vai deixar de ser essencial no dia a dia de qualquer torcedor apaixonado por futebol. Paixão esta que muito se deve ao alimento proporcionado pelo rádio. Obrigado, Manézinho, Seu Adilson e Seu Luis.

 

Referências

ORTRIWANO, Gisela Swetlana. França 1938, III Copa do Mundo: O Rádio Brasileiro estava lá. São Paulo: BOCC, 2000.

RIBEIRO, André. Os donos do espetáculo: histórias da imprensa esportiva do Brasil. São Paulo: Terceiro Nome, 2007.

SOARES, Edileuza. A bola no ar – o rádio esportivo em São Paulo. Sammus Editorial, 1994.

ZIRPOLI, Cassio. Tem gol! Tem gol onde, Mané?. Recife, 2014.

Como citar

LEAL, Daniel. Saudosismo no rádio: a poesia narrada entre nomes, alcunhas e bordões: “Tem gol onde, Mané?”. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 11, 2021.