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Se alguém me contasse, eu não acreditaria!!!!!

César Teixeira Castilho

Em 2007, como candidato único, o que poucos se recordam, o Brasil “ganhou”, de mão beijada, a Copa do Mundo de Futebol FIFA 2014. Naquela ocasião, a FIFA ainda aplicava o sistema de rodízio entre os continentes, o que viria a ser extinguido, e, para sorte do país, era a vez da América do Sul. Realizamos um acordo com a CONMEBOL, através do nosso carismático ex-presidente Lula e seu fiel escudeiro Sr. Ricardo Teixeira, e tiramos qualquer possibilidade de disputa da lista de pretendentes. Já na prorrogação, nossa querida Bolívia, tão bem tratada pelos vizinhos chilenos, argentinos e brasileiros, simulou uma candidatura. Como era de se esperar, articulações políticas miraculosas entre instituições esportivas mundiais foram acordadas e, para não gerar dúvidas, culparam os estádios acima dos 4.000 metros para a exclusão da candidatura do país governado pelo amante do futebol, Sr. Evo Morales. Dessa vez, mesmo que ele subisse o Everest para bater uma bolinha, a Bolívia não seria aceita.

Para dificultar um pouco as pretensões canarinhas, o então presidente da FIFA, Sr. Joseph Blatter, disse: “Mesmo que o Brasil seja candidato único, existe um risco que o país não seja escolhido caso as exigências dos organizadores não sejam cumpridas”. Não deu outra, Brasil sede do segundo Mundial da sua história, após 64 anos da Copa do Mundo de 1950, Copa esta que só veio para o Brasil “graças” à Segunda Guerra Mundial. Ademais, uma outra boa notícia era divulgada: “Pela primeira vez na história das Copas, um país vai dispor de sete anos de preparação para o maior evento futebolístico do mundo”. Maravilha!!! O país do “deixa para depois” vai finalmente mostrar para os europeus e americanos que eles estavam errados! “Não somente realizaremos uma Copa do Mundo à tempo, como não utilizaremos nenhum financiamento público na construção e na reformas dos estádios”, frase repetida diversas vezes pelo então presidente Lula e seu, ainda fiel escudeiro, Sr. Ricardo Teixeira. Não deu outra, dois anos se passaram, e nada de escolha das cidades-sede da competição. Tal decisão era muito complicada, visto o tamanho do Brasil e as tradições futebolísticas das regiões Central e Norte do país. E aí, sai ou não sai? Mesmo a FIFA tendo sugerido oito sedes, o Governo e nossa queridíssima CBF optaram por doze, número do torcedor que, certamente, iria se beneficiar com a Copa mais organizada da história das Copas. Ufa! Finalmente, em meados de 2009, conseguimos escolher Brasília, Cuiabá e Manaus para sediarem a Copa, junto de outras nove cidades, o que nos fazia sonhar com clássicos no Planalto, Pantanal e Amazônia, respectivamente.

Para além de seguir o calendário a risca, esperávamos também um diálogo aberto e produtivo entre os organizadores (Governo, CBF e FIFA) e a população local, bem como os clubes de futebol do país. Devido ao pequeno incidente na escolha das sedes, segundo alguns políticos, este diálogo foi abortado. Agora é tarde demais, temos que correr!!! Como se não bastasse, argumentando que nosso país padece de uma burocracia estilo Dorival Caymmi, nossos queridos governantes tiveram a brilhante ideia de mudar a legislação do país. Eureka!!! Como não havíamos pensando nisso antes??? Tal qual Hitler durante sua bela campanha na Alemanha Nazista, nossos belíssimos administradores públicos alteraram, rabiscaram, apagaram e reescreveram diversas leis nacionais para facilitar a contratação de empresas idôneas, sem nenhum histórico de corrupção, para a construção e reformas dos nossos estádios arcaicos cheio de espaço para pobres. En plus, visto que o Estado não sabe nada de futebol, seria uma outra bela ideia privatizar alguns estádios, tal qual nossos amigos americanos, e dar-lhes um novo nome, mais atrativo, tipo “arenas multiusos”. We got a deal! Já ia me esquecendo, podemos também criar um tipo novo de torcedor, mais branquinho e riquinho, que tal? Poderíamos chamá-los de sócio, assim ele passa o cartão mais facilmente! É só digitar o número e os três dígitos do verso do cartão… $$$$$

O presidente da Fifa, Joseph Blatter disse que a Copa no Brasil é "indiscutivelmente, um grande sucesso". Blatter participou do 3º Seminário de Gestão Esportiva da Fundação Getúlio Vargas (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Em julho de 2014, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter disse que a Copa no Brasil é “indiscutivelmente, um grande sucesso”. Blatter participou do 3º Seminário de Gestão Esportiva da Fundação Getúlio Vargas. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

Combinado, tá quase tudo certo! Para facilitar ainda mais as licitações, poderíamos contratar as mesmas empresas para realizarem diversas obras e, por que não, alguns projetos de infraestruturas das DOZE cidades-sede. Yes! Agora estamos falando a mesma língua! É isso, dos já citados DOZE estádios, dez ficaram sob a responsabilidade das empresas que nos orgulham tanto, Odebrecht e Andrade Gutierrez. Meu Deus, como eu tenho orgulho desses dois nomes, mal consigo me controlar! Outro detalhe, lembram-se que nossos representantes tinham dito alguma coisa sobre financiamento público no segundo parágrafo, pois é, eles esqueceram. Quando fomos pedir a conta em 2015, estranhamente, somente 7% dos gastos haviam sido gastos pelo setor privado. Nossa, quase que deu certo, não! Passou perto, me lembrou o pênalti do Baggio na Copa do Mundo de 1994.

Tá bom, vamos ser menos exigentes. A Copa deu certo, pelos menos para a FIFA, U$ 5 bilhões de lucro. Ademais, conseguiram vender duas Copas de uma só vez, que malandragem!!! Quem dá mais???? Fechado, Rússia 2018 e Qatar 2022! Consequência, suspeita de corrupção e venda/compra de votos. Destituições do nosso queridíssimo Sr. Joseph Blatter; nosso inesquecível, aquele do chute no traseiro, Sr. Jerôme Valcke e, não menos memorável, o nosso carrasco de 1986, Sr. Michel Platini. Que trio, não!

Voltemos ao Brasil, o país do futebol, mas qual futebol??? Legados da Copa 2014: nossa fauna aumentou substancialmente, temos três novos elefantes brancos, embora novos, já apresentam alguns sinais de depredação; um ex-maior estádio do mundo sem dono e com capacidade máxima de 75000 torcedores; um belíssimo estádio no Recife, ou melhor, na “primeira cidade inteligente (smart city) da América Latina”, conhecida por São Lourenço da Mata, há 15 Km de distância do centro antigo; um ex-segundo-maior estádio do mundo em Belo Horizonte, nosso Mineirão, cada vez mais inacessível e, assim como o Maracanã, sem geral, lugar inapropriado e inseguro… Basta!!!!! É melhor parar por aqui pois, afinal de contas, se alguém tivesse nos contado isso antes, jamais acreditaríamos. Ainda bem que todos estes dados não passam de inverdades e que nosso querido patrimônio mundial cultural anda muito bem, cheio de energia! Aproveito a oportunidade para agradecer todos os organizadores por este evento inesquecível, repleto de diálogo público e de legados sociais. Pena que boa parte da turma encontra-se em celas especiais em algum canto desse globo. Mas não se desesperem, logo logo vocês estarão livres e uma nova farra irá começar, podem ter certeza. Viva o Brasil, viva o neoliberalismo!