133.24

A morte matada da dança dos austeros: o sequestro da camisa da seleção brasileira e do verde-amarelo

Leda Costa

E foi morrida essa morte,

irmãos das almas,

essa foi morte morrida

ou foi matada?

— Até que não foi morrida,

irmão das almas,

esta foi morte matada,

numa emboscada. (João Cabral de Melo Neto. Trecho Morte e vida Severina.)

Soube da capa da revista Piauí do mês de junho, graças ao querido colega de pesquisa, Matheus Reis. Confesso que essa capa me instigou bastante. Nela faz-se uma relação direta entre a camisa verde-amarelo da seleção de futebol e a morte.

Essa associação não é tão incomum, muitas vezes, as derrotas da seleção foram tomadas como uma espécie de morte, sendo cercada por vários signos fúnebres. Em 1950, por exemplo, a tristeza dos torcedores em sua marcha lenta pelas ruas do Rio de Janeiro foi constantemente comparada a um cortejo mortuário. E não é sem motivos que a partida realizada uma semana após o jogo entre Brasil e Uruguai foi batizada como “a missa de sétimo dia do futebol brasileiro”. Essa denominação é carregada de ironia, mas demonstra o quanto na época aquele fracasso em campo foi visto como uma espécie de morte para o futebol nacional.[1]

A morte tem mana como pontua José Carlos Rodrigues, ou seja, ela é um fenômeno com intensa capacidade de repercussão sobre a sociedade e sua organização simbólica. O mana que a morte possui pode nos fazer temê-la ou ficarmos atordoados a ponto de sequer falarmos seu nome. Por isso, é difícil imaginarmos uma comunidade – ou uma parte dela – que desdenhe do momento derradeiro pelo qual todos nós passaremos um dia.

Um grupo de brasileiros e brasileiras tomaram esse rumo, ao defenderem – muitas vezes nas ruas – o afrouxamento do isolamento social, ao minimizarem os perigos da pandemia de Covid-19, ao defenderem políticas para as quais a “morte de CNPJ” deve ser mais temida que a perda de milhares de vidas humanas.

Esse grupo composto – em sua maioria pela direita e extrema direita, assim como neoliberais ferrenhos – há algum tempo promoveu “o segundo sequestro do verde amarelo”, ao adotar essas cores e a camisa canarinho da seleção brasileira como uma espécie de uniforme que os identifica.

Esse sequestro que já foi apontado pela querida antropóloga, Simoni Guedes, em artigo publicado em 2019, atingiu um momento perigoso, em que se torna urgente o resgate daquelas cores. A camisa da seleção foi fartamente vista na cobertura da mídia tradicional, sobretudo, nas manifestações de 2015 e 2019, que comportaram desde apoiadores do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff até os apoiadores da candidatura à presidência de Jair Bolsonaro [2] .

Nos últimos anos, o verde-amarelo, especialmente por intermédio do uniforme da seleção, está sendo cada vez mais colado aos discursos de ódio e indiferença em relação à vida alheia. O verde-amarelo tem sido anexado a mortes matadas.

A ótima capa da revista Piauí me parece encenar esse momento grave e ela é a inspiração desta arriscada tentativa de interpretação.

Capa Piauí, junho de 2020. Foto: Reprodução.

Capa da revista Piauí e a dança dos austeros de verde e amarelo

 A capa da revista Piauí é composta por uma releitura da obra Dança de Matisse, uma das mais importantes da história da arte contemporânea. Embora Matisse, não tenha abordado diretamente o esporte, tema que pode ser notado em algumas produções da vanguarda europeia, a representação do corpo em movimento teve lugar de destaque na sua produção e Dança é exemplar nesse aspecto. Nesse quadro a simulação do movimento se constrói a partir do arranjo dos corpos nus que de mãos dadas parecem flutuar sob um fundo azul e verde com tonalidades fortes. Corpos cuja anatomia se delineia de modo simplificado, o que amplia a sensação da existência de uma integração entre o céu, a terra e as figuras que dançam.

Henri Matisse concluiu essa pintura em 1910 e sua inspiração veio de uma dança por ele presenciada durante uma visita ao Moulin de la Galette, segundo conta o próprio artista:

Observei em particular a farândola. Com frequência, no meio ou no final da dança, havia uma farândola. Essa farândola era muito alegre. Os dançarinos se agarram pela mão, correm pelo salão, envolvem as pessoas que estão um pouco afastadas… é algo extremamente alegre […] Ela estava em mim, essa dança. Não tive necessidade de me aquecer: trabalhei sobre elementos vivos[3].

A dança de roda é elemento fundamental na configuração desse ambiente de exaltação à vida na pintura de Matisse. Esse tipo de dança está presente em culturas diversas e de modo bastante incisivo na cultura popular brasileira se fazendo notar nas cirandas, nas festas juninas, nos sambas de roda, na capoeira, no jongo, no Candomblé e na Umbanda dentre tantos outros exemplos que seria exaustivo mencionar.

Em muitas danças de roda é comum que o espaço central conceda para quem a ocupa, a condição de protagonismo mesmo que momentaneamente. É o que vemos no caso das umbigadas no samba do recôncavo baiano, por exemplo, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Essa proximidade entre Brasil e dança circular torna a capa da Piauí ainda mais pertinente e significativa, pois a releitura da obra de Matisse que estampa a revista pode ser interpretada como um Brasil em tempos de pandemia, um país cuja representação cabe bem em uma ciranda que não mais celebra a vida, mas o ato de matar.

Não se trata somente de deixar morrer, mas de provocar a morte sob a justificativa principal da austeridade financeira, o que implica a manutenção dos lucros para uma pequena parcela de pessoas, às custas de cortes em importantes áreas como educação, saúde e trabalho.

A capa da Piauí mostra a dança dos austeros de verde-amarelo condutores da necropolítica e da celebração das mortes causadas não somente pelo vírus, mas pelo pouco interesse em fornecer condições para que as pessoas não precisem arriscar suas vidas sendo obrigadas a voltar a frequentar as ruas por medo de perder a renda que lhes garante – mesmo que precariamente – casa e alimentação.

A releitura de Dança – da capa da revista Piauí – insere o uniforme verde amarelo da seleção como vestimenta dos corpos da ciranda – que na obra original aparecem nus -, e no centro da roda, a presença de um caixão nos salta aos olhos. É uma imagem que nos mostra o mundo às avessas de um país em que a morte de mais de 65 mil pessoas, em poucos meses, ao que parece causa pouco espanto. Muitas dessas mortes poderiam ser evitadas e ainda há aquelas que virão como consequência da permissão da reabertura de comércio, shoppings, bares e o retorno de campeonatos de futebol.

A dança dos austeros de verde-amarelo também me chamou a atenção por fazer lembrar as ars moriendi e as danças macabras (ou dança da morte), que marcam a história da morte no Ocidente. A primeira diz respeito a escrituras ou iconografias que buscavam orientar os vivos sobre a “arte de bem morrer”. Geralmente eram representações do momento da morte que tinham como cenário o quarto do moribundo e sua busca por piedade e arrependimento de atos cometidos em vida, de modo a que seja conduzido pelo caminho que o leve ao descanso em paz.

Já no caso das chamadas danças macabras, vivos e mortos são colocados lado a lado, em fila ou ciranda. A dança é guiada por uma representação da morte que geralmente pode ser um conjunto de esqueletos ou cadáveres. Esse tipo de pintura tem como fundamento a ideia de que os vivos – independentemente de sua condição social – serão levados pela morte.

Quem rege a dança são os mortos que estão sempre em movimento e, muitas vezes, aparecem tocando instrumentos, podendo mesmo convidar os vivos para participarem do ritual. Essas imagens, muitas vezes, objetivavam provocar temor, porém também reflexão sobre a importância de guiarmos nossas vidas não por sentimentos como vaidade e outros afins, pois que de que nada valerão diante de um destino que nos é comum.

Tanto as ars moriendi como as danças macabras foram muito comuns no decorrer de séculos nos quais grande parte da Europa se viu assolada pela peste e outras epidemias.

A dança dos austeros de verde-amarelo inverte o sentido dessas danças macabras ao representar os vivos bailando em torno da morte. A impressão que nos passa é a de que os vivos – e vivos muito específicos – detém o poder sobre a morte. Sobre a morte alheia, diga-se de passagem.

Os sequestros do verde amarelo e a importância do seu resgate 

A antropóloga Simoni Guedes em parceria com Edilson da Silva[4] faz um percurso pelas disputas em torno dos símbolos pátrios ancorados nas cores verde e amarelo, trajeto pontuado pela Proclamação da República e o período da Ditadura Militar. No primeiro, destaca-se a bandeira nacional – um elemento que é produto e que também produz a comunidade imaginada – e seu processo de recriação fundamentada no destaque dado às cores verde amarelo tomadas como símbolos da nação.

O segundo momento, enfocado no artigo, são os “anos de chumbo” do governo militar que por meio de uma forte máquina de propaganda fez do verde-amarelo uma expressão obrigatória de otimismo e patriotismo. É também nesse período que algumas leis são criadas visando o controle das formas de uso e reprodução dos símbolos pátrios.[5]  Esse é, de acordo com Simoni Guedes, o primeiro sequestro do verde e amarelo que ocorre quando essas cores são alvo de manipulação, sendo usados como forma de legitimação do governo militar. O que inclui o uniforme da seleção brasileira.

Em 2018, a camisa da seleção era o uniforme da manifestação a favor de Bolsonaro e contra o PT. Foto: José Cruz/Agência Brasil.

Porém, é nessa mesma época que o povo consolida sua reapropriação dos símbolos pátrios verde e amarelo por intermédio do futebol. Essas cores são levadas para as ruas, a bandeira nacional passa a ser usada para cobrir o corpo da população nas comemorações ou é reproduzida em roupas de banho e diversos outros artefatos produzidos em escala industrial. A equação “seleção =  povo = nação” já havia se construída, mas é na década de 1970 que a “a participação da seleção brasileira nas copas do mundo FIFA havia se transformado nas cores nacionais”[6].

Essa equação, em que o povo ocupa o protagonismo, se enfraquece com o tempo, devido a uma série de fatores entre os quais podemos destacar a gradativa mercantilização e globalização do futebol que fez com que a seleção masculina brasileira passasse a ser associada a lucros financeiros, a jogadores considerados “europeus” ou “estrangeiros”, ricos e considerados distantes da realidade do país[7].

O segundo sequestro se dá nesse contexto de enfraquecimento dos laços metonímicos entre seleção e povo, sequestro que ganha contorno decisivos com o processo de polarização política cujo ponto de partida foram as chamadas jornadas de junho de 2013 [8]. Com o passar do tempo, gradativamente o verde-amarelo tem passado por um processo de monopolização pelos setores vinculados à direita e extrema-direita que tentam fazer dessas cores como “a única portadora de uma narrativa legítima de nação”.

A capa da revista Piauí é, também, uma ilustração desse segundo sequestro em sua dimensão mais aguda, já que encena a vinculação do verde e amarelo – e do uniforme da seleção – com a celebração do matar, ou seja do projeto político que de modo deliberado se constrói como uma máquina de assassinatos.

Creio que se torna necessário o resgate do verde amarelo, o que tem sido visto em recentes manifestações pró-democracia cujas lideranças têm solicitado que essas cores sejam usadas, o que inclui recorrer ao se uniforme canarinho da seleção.

Evitando polaridades  

Vivemos num país que frequenta as estatísticas mundiais em assassinatos dolosos, em feminicídio, em mortes provocadas por acidentes de trânsito. A perda da vida faz parte do cotidiano das pessoas, sobretudo, nas regiões mais pobres. O mapa da violência de 2019 mostra que no Brasil.:

De 2007 a 2017, a desigualdade de raça/cor nas mortes violentas acentuou-se no Brasil. A taxa de negros vítimas de homicídio cresceu 33,1%, enquanto a de não negros apresentou um aumento de 3,3%. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídio eram pretas ou pardas. Mais uma vez, o Rio Grande do Norte está no topo do ranking, com 87 mortos a cada 100 mil habitantes negros, mais que o dobro da taxa nacional. Os cinco estados com maiores taxas de homicídios negros estão localizados na região Nordeste [9]

Em parte, o pouco alarde que se faz e se sente em relação às mais de 60 mil mortes por Covid-19, se explica porque para muitas pessoas a morte já rondava seus cotidianos, sendo um risco iminente presente no simples ato de estar em casa. Assim aconteceu com o adolescente João Pedro, no Rio de Janeiro.

Esse mesmo tipo de compreensão é difícil de se ter em relação aquele austeros de verde-amarelo que dançam festivamente ao redor de um caixão. Aliás, nessa imagem muito provavelmente há uma referência a “dança do caixão” que foi parodiada e virou performance em manifestações de rua favoráveis ao governo atual. Manifestações em que pessoas – muitas delas também vestidas com o uniforme da seleção brasileira – debocham da pandemia de Covid-19 e pedem o fim do isolamento social.

A associação entre o verde amarelo, uniforme da seleção e o descaso com a vida e a morte alheias, torna necessário pensarmos como é possível que essas cores sejam resgatadas desse sequestro. Esse processo provavelmente será lento, sobretudo, porque o próprio futebol – ou melhor, alguns de seus representantes – se tornou personagem importante da dança dos austeros com o retorno dos campeonatos – como é o caso do carioca.

Até o momento a interpretação que propus da releitura da obra de Matisse que compõe a capa da revista Piauí de junho, volta suas atenções para os dançarinos protagonistas da necropolítica da Covid-19, no Brasil.

Porém, é importante que não caiamos no risco de tornar dicotômico e, portanto, superficial a tentativa de compreensão do momento pelo qual passamos.

Se existem os dançarinos austeros de verde e amarelo é válido não esquecermos que há, também, uma camada importante da sociedade que não celebra, mas parece mostrar uma violenta indiferença à pandemia.

Essa parcela tem uma composição complexa, que não deve ser delimitada de modo fácil e esquemático. Ela está espalhada nos shoppings cheios de gente fazendo fila em lojas de departamento, de roupas ou celulares. Está espalhada nos centros comerciais de áreas diversas das cidades, das zonas ricas até as periféricas. Pessoas que ali transitam – muitas sem máscara – mesmo sem ter a necessidade de assim agir.

É válido considerarmos a banalidade do mal apontado por Hannah Arendt. Os seres humanos, mesmo sem motivação maligna, são capazes de incríveis ações que podem provocar destruição e morte. Esse mal não deve ser pensado a partir de um prisma religioso, mas sim como derivado de contextos sociais em que nossas perspectivas de mundo e tomadas de decisão são orientadas pela tecnificação.

O regaste do verde amarelo o que inclui a camisa da seleção brasileira precisa ser parte de um processo longo de reinvenção de um país rumo à democracia e à valorização da vida. Afinal, uma sociedade em que mais de 60 mil pessoas morrem em poucos meses é preciso que passe por um processo de reavaliação.


[1] Costa, Leda. A trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo. Tese de Doutorado. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

[2] Sobre a cobertura jornalística e o processo de mudança simbólica ocorrido com a camisa da seleção nas manifestações de 2015 a 2018, ver o recente trabalho de REIS, Matheus. As narrativas jornalísticas do programa “fantástico” e as mudanças simbólicas sobre a camisa amarela da seleção brasileira de futebol entre 2015 e 2019. Trabalho de conclusão de curso de graduação em Comunicação Social. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2019.

[3]  Pleynet, Marcelin. Matasse: luxo, calma e volúpia

[4] Guedes, Simoni. Da Silva, Edilson Márcio. O segundo sequestro do verde e amarelo: futebol, política e símbolos nacionais. O segundo sequestro do verde e amarelo: futebol, política e símbolos nacionais. Cuadernos de Aletheia. 2019, n. 3, p. 73-89.

[5] É o que ocorre com a “a imposição da Lei 5.700, de setembro de 1971, que trata sobre a forma e a apresentação dos símbolos nacionais brasileiros. Dentre as inúmeras determinações, a lei prevê, em seu artigo 39, ‘a obrigatoriedade do ensino do desenho e do significado da Bandeira Nacional, bem como do canto e da interpretação da letra do Hino Nacional em todos os estabelecimentos de ensino, públicos ou particulares, do primeiro e segundo graus’” (GUEDES; DA SILVA, 2019)

[6] op cit. Guedes; Da Silva (2019)

[7] Disponível em.: IPEA

[8] É válido o diálogo com Ronaldo Helal e Antonio Jorge Soares. O declínio da pátria de chuteiras: futebol e identidade nacional na Copa do mundo de 2002. In: Reunião anual da Associação Nacional de Programas De Pós-Graduação em Comunicação, 12. Recife, 2003. Anais… Recife: Compós, 2003.

[9] Disponível em IPEA