31.2

Só um jogo?

Joaquim Tavares Júnior

Uma das frases que mais me chamaram a atenção na última rodada deste “Brasileirão”, que acaba de nos deixar “órfãos” por um tempo, foi dita pelo treinador do Flamengo e meu conterrâneo iguaçuano, Vanderlei Luxemburgo: “Isso é só um jogo!”. Em primeiro lugar, era um Vasco x Flamengo e estava em disputa o título do campeonato e uma vaga na Libertadores, respectivamente. Sendo assim, a meu ver, tal menção já seria alvo de questionamentos.

Deve-se salientar ainda a situação em que essa frase foi empregada para que haja um entendimento claro da intenção do treinador. “Luxa” utilizou-se dessas palavras para ressaltar a violência que ocorre nos entornos dos estádios, mais especificamente ao redor do “Engenhão” antes do início do jogo entre Vasco e Flamengo na última partida do certame.

Vanderlei Luxemburgo, técnico do Flamengo. Foto: Maurício Val/VIPCOMM.

A intenção dele com esta fala era tentar repreender os atos de violência entre as torcidas, explicitando o lado esportivo do que vem a ser o jogo de futebol. E, de fato, atitudes como essas, que se mostram tão naturalizadas em nosso país, devem acabar, tendo em vista a inutilidade delas perante o esporte e todas as questões que o englobam.

Não obstante, não é algo tão simples assim que possa ser explicado apenas através de uma frase, muito menos daquela utilizada pelo nosso querido (ou nem tanto) Luxemburgo. O futebol não é só um jogo. Nenhum esporte, de certa forma, é apenas um jogo.

Questões políticas sempre estiveram (e estarão) envolvidas nas entranhas do futebol, assim como em toda atividade social. O campo representa uma parte da sociedade e, tão logo, reproduz as suas particularidades; a violência entre as torcidas é uma amostra disso. O panorama social ajuda a criar a violência e permite a sua disseminação.

Não por acaso que é na posição de torcedor que muitos fazem o que fazem, principalmente os jovens. É exatamente dessa forma que eles mais afirmam a sua identidade e, sendo assim, sentem-se parte “ativa” da sociedade. Paradoxalmente, é exatamente nesse momento que a consciência social menos é levada em consideração.

Resumidamente, as brigas são um reflexo do “todo social”. O Estado, o governo, a sociedade, a cultura, a educação, a saúde, o patrão, a família: todos esses e muitos outros “batem” cotidianamente no torcedor, que encontra nos jogos de futebol um momento propício e oportuno para o revide.

Gostaria de ressaltar que não sou a favor, nem defendo esse tipo de conduta. Mas não é o simples fato de se arrumar uma nomenclatura para os adeptos dessa prática (vândalos, criminosos, etc.) e repetir inúmeras vezes na mídia o quanto isso é errado, que irá fazer este problema ser erradicado.

Policial observa a torcida no estádio do Pacaembu. Foto: Alessandra A.

A violência no âmbito futebolístico envolve muito mais que rivalidade e a vontade de vencer. Na verdade, trata-se também de fatores sociais aparentemente externos ao futebol. Nessa linha, às vezes, esquece-se que o futebol não é uma “ilha” no meio social; ele modifica e é modificado por ele, como um todo.

Não é somente aumentando a segurança dentro e fora dos estádios que a violência irá se extinguir. Pelo contrário, dessa forma ela só ganhará o reconhecimento neste cenário. O que deve ser feito é acabar com a necessidade de “segurança”. A grande questão é como fazer e por onde começar. Com certeza, não é algo simples e nem fácil; se fosse, já teria sido feito.