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Sob o espectro do medo: homossexualidade e AIDS no esporte nas décadas de 1980-90

Wagner Xavier de Camargo

Talvez o vírus da imunodeficiência humana (o HIV) não cause tanto medo nas pessoas nos dias de hoje como no passado. Em que pese dar mostras de que está francamente ativo e se metamorfoseando (afinal, é um vírus mutante), sua presença no corpo foi minimizada com as potentes e eficazes drogas descobertas ao longo das últimas décadas. Porém, nem sempre foi assim. Responsável por desenvolver a Síndrome da Inumodeficiência Adquirida (ou AIDS), uma doença que compromete o sistema de defesa do organismo humano, o vírus matou muitas pessoas nas décadas de 1980-90 e colocou o mundo sob o espectro do medo.

A AIDS foi lamentavelmente associada a uma “peste gay”, uma vez que se desenvolveu nos Estados Unidos em grupos que mantinham relações homossexuais. Tal preconceito, no entanto, não durou uma década, pois logo se descobriu que o vírus e suas consequências também atingiam pessoas heterossexuais que viviam supostas relações monogâmicas baseadas em fidelidade. Pesquisas científicas que então foram intensamente desenvolvidas isolaram o vírus, levantaram hipóteses sobre suas origens e mesmo descobriram drogas que o combateram. Atualmente, a série POSE, de uma conhecida rede de streaming, reconta os dilemas destes tempos sombrios que atingiram a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros) nos Estados Unidos.

Greg Louganis em um de seus saltos. Foto: International Swimming Hall of Fame/Divulgação.

Apesar dos anos revolucionários de liberação sexual a partir do fim dos anos 1960, a homossexualidade e o homoerotismo enquanto práticas sexuais e afetivas continuavam sendo muito discriminadas, particularmente entre homens. A persecutoriedade atingia a todos, de ricos a pobres, de executivos a esportistas, de brancos a negros, de idosos a jovens, isto é, o preconceito social contra práticas que se colocavam fora do esquema heterossexual atravessava marcadores de classe social, de gênero, origem étnica, geracional e profissional.

Como se pode imaginar, no esporte não era diferente. David Kopay, o primeiro jogador de futebol americano que se autodeclarou homossexual ainda no fim dos anos 1970, teve logo que se aposentar[1]. Tom Waddell, um decatleta que participou dos Jogos Olímpicos do México-68, posicionou-se junto a Tommie Smith e John Carlos a favor do poder negro (black power) e contra a segregação racial nos EUA, porém naquele momento ainda não levantou a bandeira da sexualidade no esporte[2]. No futebol, Justin Fashanu, um exímio e supervalorizado jogador inglês, declarou-se homossexual em 1990 e sofreu uma pressão tão grande que o levou ao suicídio[3]. Durante a década de 1980, apareciam casos de homossexualidade aqui e acolá em arenas esportivas, mas esses eram sempre envoltos em cortinas de fumaça. Afinal, ser homossexual e esportista eram características incompatíveis no julgamento social.

O caso mais emblemático neste contexto é o de Greg Louganis, saltador estadunidense de plataformas e trampolins. Ele teria sido diagnosticado com HIV poucos meses antes dos Jogos Olímpicos de Seul-88 e manteve tal fato em segredo. Apesar disso, teve que começar a tomar o AZT, uma droga disponível na época para combater tal enfermidade.

Durante as competições classificatórias de saltos ornamentais daqueles Jogos Olímpicos, Louganis bateu forte com a cabeça na borda do trampolim. Com a queda na piscina, uma mancha de sangue tingiu o azul da água e o deixou apavorado. A imagem da queda foi eternizada pelas redes televisivas de transmissão esportiva. O atleta sofreu uma concussão e mesmo assim se manteve na competição. Em meio a lágrimas e ao desespero, não conseguiu contar que era portador do HIV, nem para o médico que suturou o corte em sua cabeça, nem para o comitê organizador dos jogos. O estigma relacionado à AIDS enquanto doença, que pouco era conhecida naqueles tempos, aterrorizava o atleta.

O saltador possuía marcas expressivas em Jogos Olímpicos, Campeonatos Mundiais e Pan-americanos. Excetuando-se a medalha de prata que ganhou em Montreal-76 na plataforma de 10 metros, seus demais resultados foram sempre medalhas de ouro, tanto no trampolim de 3 metros, quanto na plataforma de 10 metros. Ele foi o único saltador ornamental a ganhar ouro nessas provas em dois Jogos Olímpicos consecutivos (Los Angeles-84 e Seul-88). Apesar do sucesso esportivo, o atleta vivia com uma culpa interna por ser homossexual e viver seu segredo no armário da sexualidade.

Magic Johnson com a camisa dos Los Angeles Lakers em 1987. Foto: Wikipedia.

O coming out (saída do armário) público veio nos anos 1990. Apesar de já viver um “estilo de vida gay”, oficialmente gravou uma mensagem para a abertura dos Gay Games, em Nova Iorque-1994, na qual se declarou pela primeira vez que mantinha relações homossexuais. No ano seguinte a tais jogos, lançou seu livro Breaking the Surface (disponível na internet), que reconta todos os dramas de sua trajetória pessoal de atleta, inclusive dos abusos que sofreu, da contaminação pelo HIV e da soropositividade. Segundo reportagem da Neesweek, de 1995, o livro também “renovou o debate sobre se os atletas devem se pronunciar se tiverem a doença ou mesmo se seriam permitidos competir. E o debate invocou os casos de duas figuras míticas do esporte: Magic Johnson, que se aposentou do Los Angeles Lakers em 1991 por causa do HIV, e Arthur Ashe, a estrela do tênis que morreu de doença relacionada à AIDS em 1993” (tradução minha)[4].

No último dia 01 de dezembro, celebrou-se, no mundo todo, o dia mundial de luta contra à AIDS. Apesar das condições mais favoráveis em termos de combate à infecção e ao desenvolvimento de doenças oportunistas que atacam o sistema imunológico humano, das drogas pré e pós-exposição (as nominadas PrEP e PEP) disponíveis contra o vírus, e da quantidade de informações em circulação, ainda jovens na casa dos 20 anos estão se infectando. Se hoje em dia a AIDS não é mais um tabu e a informação se encarregou de minimizar as tragédias, que fiquemos alertas e seguros quanto a tudo isso. Pois, sobretudo, o que vale para a vida também vale para o esporte!


Notas de rodapé

[1] Ler mais em: “David Kopay: o ‘ícone’ gay do futebol americano”. Disponível no site do Ludopédio: <https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/david-kopay-o-icone-gay-do-futebol-americano/>.

[2] Waddell viria a elaborar uma proposta de uma competição para atletas LGBT e simpatizantes que, no ano de 1982, deu origem ao Gay Games, uma olimpíada quadrienal que vem sendo desenvolvida até hoje. Ler mais em: “Tom Waddell e a diversidade sexual no esporte”. Disponível no site do Ludopédio: <https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/tom-waddell/>.

[3] Sobre a vida de Fashanu, no Ludopédio: “Justin Fashanu: jogador profissional de futebol, negro e gay!” (https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/justin-fashanu-jogador-profissional-de-futebol-negro-e-gay/) e “Futebol e homofobia: a triste história de Justin Fashanu” (https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/futebol-e-homofobia-a-triste-historia-de-justin-fashanu/).

[4] “Public Glory, Secret Agony”. Newsweek. Disponível em: <https://www.newsweek.com/public-glory-secret-agony-180724>.