08.7

Sobre a popularidade do futebol

Diana Mendes Machado da Silva

Por que o futebol recebe tanto apoio na sociedade contemporânea?

Em que propriedades de sentido se baseia a paixão por esse esporte?

É o que o livro do antropólogo francês Christian Bromberger, “Significações da paixão popular pelos clubes de futebol”, procura responder e o que buscarei sucintamente apresentar. A obra é fruto de uma conferência realizada pelo autor na Universidade de Buenos Aires, em 2001, a convite dos membros da área interdisciplinar de estudos do esporte da Faculdade de Filosofia e Letras.

Não há novidade nas questões do autor, elas têm sido recorrentes nas pesquisas sobre o futebol. O interessante de seu trabalho reside na maneira como constrói sua estrutura explicativa. Procurando evitar abstrações que tendem a naturalizar o entusiasmo que envolve o futebol, como as explicações puramente estéticas, ele volta-se para os fatores sociais que moldaram sua difusão e popularidade.

Antes de apresentar sua tese, o autor problematiza o que chama de “os quatro discursos da moda” acerca da popularidade do futebol, os quais considera muito reducionistas. O primeiro deles trata o futebol como o ópio do povo. Seria, portanto, um esporte a “serviço” dos poderes hegemônicos, dos interesses nacionalistas e/ou capitalistas. A massa da população teria sua atenção desviada das questões ditas importantes, como a política, para o futebol. Para Bromberger, tal explicação descarta o fato de que em inúmeros momentos da história o futebol foi o catalisador da consciência popular. Entre outros exemplos, o autor resgata a força do time Revolucionário XI, representante da Frente de Libertação Nacional da Argélia, que em fins da década de 50 do século passado lutou, por meio do futebol, pela descolonização da África.

O segundo discurso afirma que o futebol é popular porque produz a chamada catarse de massas, movimento que uniria todos os participantes do evento num espaço/tempo que romperia com a ordem cotidiana, com hierarquias, etc. Explicação que, por exemplo, despreza o fato de que a hierarquia social é reafirmada no próprio espetáculo, algo que se nota na distribuição dos espectadores nos estádios entre arquibancadas, camarotes e tribunas.

A terceira tese recorrente afirma que o futebol faz ressurgir comportamentos arcaicos, pois tem componentes de tribalização, expressos principalmente no conteúdo de violência existente nas torcidas organizadas. Para Bromberger, é preciso notar o caráter moderno das torcidas que se organizam mais como empresas do que como tribos, “com seus dirigentes assalariados, seu secretariado e responsáveis pela comunicação, além do arquivista e documentarista que se encarregam de valorizar o patrimônio do clube” (p.31). Além disso, as torcidas são fortemente mobilizadas pela mídia. Pela veiculação e repetição incessante de certas imagens ela cria e sustenta vínculos identitários sendo, portanto, também responsável pelos excessos cometidos em nome dos antagonismos entre os clubes.

A quarta afirmação estabelece uma relação direta entre gostos esportivos e classes sociais. Haveria uma correspondência entre “as tipologias que ressaltam afinidades entre as propriedades dos esportes e os estilos de vida ou hábitos daqueles que os desfrutam” (p.32). O futebol, por exemplo, concentraria características (corporais, estéticas) desprezadas pela classe dominante, ao contrário do golfe, que seria altamente apreciado por ela. Tal tese – que Bromberger atribui a Pierre Bourdieu – desconsidera o fato de que há inúmeras maneiras de se apropriar do esporte. Para ele, mais interessante seria se perguntar de que maneira “grupos sociais distintos se apropriam de um mesmo objeto, interpretam a mesma prática, recebem a mesma mensagem” (p.33).

Em seguida, Bromberger passa a discutir quais seriam as duas principais fontes da popularidade do futebol: ele teatraliza a vida social “sob a ilusão realista dos valores que constituem o mundo contemporâneo” (p.34) e encarna um leque de “possibilidades identificatórias, que classifica, exalta, diz e torna visível o pertencimento” (p.34).

O futebol como teatralização da vida social

Para Bromberger, o futebol apresenta simbolicamente os principais eixos da vida contemporânea. Exalta o mérito e a performance ao mesmo tempo em que revela a incerteza e a mobilidade dos status individual e coletivo. Tem a capacidade para encarnar o ideal de uma sociedade democrática em que se vence por mérito e não por nascimento, representado em figuras como Pelé, Zidane, Maradona, Ronaldo.

Ao mérito individual acrescenta-se a força do trabalho em equipe, “da solidariedade, da divisão de tarefas…, a imagem do mundo industrial da qual é um produto histórico” (p.36). E tal como na vida ordinária, não bastam o mérito individual e coletivo, é preciso contar também com a força do acaso, com o azar ou sorte. O futebol também “teatraliza” os laços sociais, o reconhecimento da interdependência entre os indivíduos como forma de alcançar a felicidade, a aceitação da falibilidade humana, que muitas vezes gera injustiças, entre outros aspectos.

O futebol como terreno das identidades coletivas

A capacidade do futebol de mobilizar e demonstrar pertencimento é também responsável por sua popularidade. Divisões regionais e nacionais de equipes que se enfrentam regularmente em torneios e campeonatos permitem uma gama de possibilidades de simbolização de pertencimento. Os estilos de jogos das equipes também são emblemas da identidade, embora nem sempre correspondam às práticas reais dentro do campo, estando mais relacionados “à forma que eles (os homens) preferem descrever o jogo de suas equipes e sua existência”. O futebol classifica o pertencimento, ainda que atualmente os critérios identitários estejam em franca transformação.

Por último, Bromberger tece alguns comentários a respeito das conseqüências da globalização para o futebol, principalmente no que se refere às questões identitárias, além de reivindicar um lugar não mercantil para o esporte, como um bem cultural a que toda a coletividade tenha direito de usufruir.

O livro de Bromberger merece ser lido, principalmente por apresentar a interessante perspectiva de inscrever o futebol na história, ou seja, como “objeto” concreto, passível de transformação pelos homens e sobre o qual se depositam representações e significados, e não o contrário.

Bibliografia
Bromberger, Christian. Significaciones de la pasión popular por los clubes de futbol. Libros del Rojas. Universidad de Buenos Aires, 2001.