12.4

Sobre as boas e velhas crônicas de futebol

Diana Mendes Machado da Silva
“Houve um tempo, no passado do homem, em que o fato tinha, sempre, um Camões, um Homero, um Dante à mão. Por outras palavras: o poeta era o repórter que dava ao fato o seu encanto específico. Hoje, nós temos tudo: jornal, rádio e tevê. O que nos falta é, justamente, a capacidade de admirar, de cobrir o acontecimento com o nosso espanto
Nelson Rodrigues- Manchete Esportiva 12/05/19561

Na opinião de muitos especialistas, as crônicas esportivas têm sofrido de maus tratos e certo saudosismo dos “tempos áureos” acompanha aqueles que as leem. Se considerarmos as palavras de Nelson Rodrigues, veremos que essa queixa existe há, pelo menos, 50 anos. Embora ele não trate especificamente do jornalista esportivo, sua afirmação não deixa de incluí-lo, principalmente se levarmos em conta os anos que dedicou à crônica esportiva. Desse modo, sua queixa nos apresenta um dilema. Estaríamos apenas diante do típico comentário “antigamente é que era bom”? Ou então, atribuindo o devido valor a uma observação do grande jornalista e dramaturgo, estaríamos diante de uma reação aos primeiros sinais de transformação no modo de fazer jornalismo?

A segunda alternativa nos parece mais adequada e nos coloca novas questões: houve, de fato, um período áureo das crônicas esportivas no Brasil? E se houve, como eram as boas e velhas crônicas de futebol? Por último, em que consistiriam os maus tratos atuais? Sabemos que não é possível responder apropriadamente a todas as questões aqui. Contudo, gostaríamos de levantar alguns elementos para a discussão sobre a trajetória da crônica esportiva no país.

Comecemos com uma breve análise do texto de Nelson Rodrigues. O autor compara duas formas de lidar com os fatos, a do tempo “passado” e a do tempo presente (anos 50, no caso). De maneira bastante curiosa, ele afirma logo na primeira oração que o “fato tinha”, “no passado”, seus poetas, como se dissesse: no passado, os fatos dispunham de um Camões, Homero ou um Dante. Com a inversão do sujeito, uma vez que não são os poetas que dispõem dos fatos para criar seus poemas épicos, mas os fatos que contam com eles para lhes darespecificidade, o autor destaca a centralidade dos poetas – e não dos fatos, como poderia parecer.

Voltaremos a essa questão. Por ora, continuemos com a comparação. Se prosseguirmos com o raciocínio inicial de nosso autor, perguntaríamos a seguir: no passado, os fatos dispunham de poetas, mas, e nos dias de hoje (novamente, leia-se anos 50), de que dispõem os fatos? De “jornal, rádio e tevê”, seria a resposta. A essa altura, nossa compreensão do pequeno texto é ampliada. O autor trabalha com extremos para tornar aguda a sua crítica. De um lado, estão os fatos que dispõem do poeta, da autoria do poeta. E de outro, estão os fatos que contam somente com as mediações. Fatos anônimos, poderíamos dizer. Sua constatação está muito próxima daquela realizada por Walter Benjamin, 20 anos antes, em “O narrador”2:

 “Ela [a narrativa] mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador […] Os narradores gostam de começar sua história com uma descrição das circunstâncias em que foram informados dos fatos que vão contar […] Assim, seus vestígios estão presentes de muitas maneiras nas coisas narradas, seja na qualidade de quem as viveu, seja na qualidade de quem as relata.” (p.205)

As imagens usadas por Walter Benjamin e Nelson Rodrigues são muito semelhantes, embora o escritor alemão não estivesse falando de jornalismo ou jornalistas. Os fatos, as narrativas são, para eles, espécie de entidades a envolver os narradores, imagem que sugere certa fusão entre esses elementos. É evidente o jogo estabelecido entre matéria-prima e artista, ou melhor, artesão. Em outras passagens, Benjamin deixa claro que o narrador é o artesão da palavra. Figura que, coincidentemente, desaparecia no momento em que escreveu “O narrador”. Podemos concluir agora o problema da especificidade dos fatos, a partir de outro texto de nosso jornalista:

“Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação…” (Manchete Esportiva, 31/03/1956)3.

Em síntese, para Nelson Rodrigues, as boas e velhas crônicas de futebol contavam com aautoria de um “poeta-repórter” que retira os acontecimentos do caldo da indistinção e lhes oferece, por meio da narrativa, um “encanto específico”, uma identidade, um nome, como fizeram os grandes poetas com suas epopéias, ou os narradores, como Nicolai Leskov, estudado por Walter Benjamin.

Tarefa levada a cabo, em certo sentido, pelos cronistas que antecederam a Nelson Rodrigues e de que falam Bernardo Borges Buarque de Hollanda, em O descobrimento do futebolModernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego e Fátima Antunes, “Com brasileiro, não há quem possa. Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues”.

Publicados em 2004, seus trabalhos seguem como referências para os estudos sobre os primeiros anos da crônica esportiva em São Paulo e Rio de Janeiro. Para estes autores, José Lins do Rego, Mario Filho e o próprio Nelson Rodrigues aprimoraram a crônica esportiva como gênero literário, algo antes só “intuído” por nomes como Coelho Neto, Lima Barreto ou Graciliano Ramos, no início do século XX. Profundamente envolvidos com as discussões sobre o caráter nacional, respectivamente nos anos 20 e 30, 40 e 50, José Lins, Mario Filho e Nelson Rodrigues realizaram, por meio da crônica, o diálogo entre essas questões e a cultura popular. E o futebol foi o legítimo intermediário desse diálogo. Vejamos mais sobre esse aspecto na análise de Bernardo Buarque de Hollanda:

“[…] os temas da crônica esportiva entrosavam com a vida de milhares de torcedores, não apenas como mais uma informação, dentre as inúmeras que sobejavam na metrópole, mas como o centro dos debates que mobilizavam de forma calorosa uma das primeiras marcas de identidade desses habitantes – ser Flamengo ou Vasco, ser Fluminense ou Botafogo, ser América ou Bangu.” (p.134)

Esses autores foram os herdeiros do tema modernista acerca da identidade nacional e os precursores da elaboração e difusão dessa idéia na imprensa e, mais especificamente, na imprensa esportiva. Escreveram sobre futebol, política e cultura em suas crônicas. Narraram os fatos futebolísticos oferecendo-lhes a singularidade de quem é movido por indagações sobre os sentidos e os rumos do esporte e do país.

Com essa questão, talvez fique mais clara a raiz do saudosismo de Nelson Rodrigues nos anos 50 e de, pelo menos, mais duas gerações de jornalistas e leitores da crônica esportiva. Seus antecessores eram brilhantes, sabemos. Mas foram brilhantes, é importante repetir, no trato de temas nacionais indubitavelmente ligados ao futebol e à cultura popular. Leram no futebol, leram pelo futebol, leram com o futebol as questões fundamentais para aquelas gerações. E conseguiram imprimir nos fatos a marca do narrador-artesão que não instrumentaliza seu objeto, funde-se com ele.

Por último, resta falar sobre os maus tratos sofridos pela crônica esportiva contemporânea. Seria muito simples e tentador atribuir os maus tratos à suposta apatia dos jornalistas na busca obsessiva pela objetividade dos acontecimentos. Tentador porque nos dispensaria de pensar acerca das circunstâncias da vida pública nacional, em que se inclui também nosso futebol, tão mercantilizado que está.

Bibliografia 
ANTUNES, Fátima M. R. Ferreira. Com brasileiro, não há quem possa. Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: Ed. da UNESP, 2004.

BENJAMIN, Walter. O narrador in Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

[1] Apud Ribeiro, André. Os donos do espetáculo: histórias da imprensa esportiva do Brasil. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2007.
[2] BENJAMIN, Walter. O narrador in Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994.
[3]Apud ANTUNES, Fátima M. R. F. “Com brasileiro, não há quem possa”: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: Unesp, 2004.