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Sobre Ceni, estatísticas, embalagens e biquíni

Marcos Teixeira

Após a estreia oficial de Rogério Ceni como treinador do São Paulo, quando o Tricolor foi atropelado pelo Audax por 4 a 2, o ex-camisa 01 e agora técnico amenizou o resultado ao destacar o número de finalizações e a posse de bola da sua equipe. O São Paulo teve, segundo dados publicados pelo Footstats, 55% de posse de bola, além de finalizar 27 vezes, 10 delas no gol defendido pelo goleiro Felipe Alves.

O discurso é bonito e se encaixa perfeitamente no que tem acontecido com frequência para embasar sistemas de jogo e atuações: números, números e números. Mas dá para justificar apoiado somente nesses dados? Sim, todos fazem isso, mas Rogério representa, ou deveria representar, o novo. Tem dois auxiliares europeus, vendeu a ideia de ter realizado treinos diferentes em todos os dias na pré-temporada realizada nos Estado Unidos, passou o ano estudando na Europa absorvendo conceitos de técnicos como Carlos Ancelotti. Garantia de sucesso?

Nenhuma.

Para começar, ele não levou em consideração se a posse de bola, que nem foi tão superior assim, foi objetiva. Se, como gostam de falar os novos analistas, rompeu as linhas adversárias, se foi mais que uma simples e infrutífera troca de passes no campo de defesa, de lateral a lateral, passando antes pelos dois zagueiros ou então pelo volante, que retorna a bola para o centro da zaga antes de ela ser passada para o lateral. Ou quantas dessas finalizações foram realmente chances claras de gol?

Vitor Guedes, jornalista com J em caixa alta, citou na sua ótima coluna Caneladas do Vitão, no jornal Agora, a célebre frase do economista Roberto Campos sobre estatísticas: “o que revelam é interessante, mas o que ocultam é essencial”. E o que querem dizer os números trazidos por Ceni para a coletiva?

Um grande nada.

Em campo, Rogério quis inovar, colocando Rodrigo Caio, seu beque disparadamente mais técnico, à frente dos zagueiros Douglas e Maicon, desmontando o único setor do time que não comprometeu no medonha temporada de 2016. No fim, com o placar adverso, apelou para a velha tática da absoluta falta de tática (também conhecida como desespero) do centroavante enfiado no meio dos zagueiros e fosse o que Deus quisesse.

Pouco para quem chegou com a expectativa de ser o diferente.

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Técnico Rogério Ceni. Caricatura: Baptistão Caricaturas.

Certamente, um dos livros lidos pelo agora treineiro tricolor é o Guardiola Confidencial, do espanhol Marti Perarnau. Nele, o autor fala o quanto Guardiola detestava quando o time do Bayern passava a bola de pé em pé, horizontalmente, no campo de defesa. E que a posse de bola somente pela posse de bola não serve para nada. “É uma merda”, diz Pep, em diversas passagens.

Não adianta acharem que bastam alguns dias para que Rogério apresente algo novo. Ou que a presença de europeus, coisa que nós da imprensa, dentro do maldito imediatismo com a necessidade de criar matérias e arrumar temas para discussões intermináveis nas inúmeras mesas-redondas que discutem, discutem e não chegam a consenso algum, já vamos gorjeando como a única maneira de modernizar o que acontece nos gramados daqui, transforme do dia para a noite o futebol brasileiro.

Queima-se etapas com uma velocidade impressionante. Querem o resultado, mas não concedem o tempo necessário para o trabalho maturar, ainda mais em um país cujos elencos são reformulados a cada seis meses. O fato é que o Brasil do imediatismo promovido pelos diretores amadores que tem, e apoiado por considerável parcela da mídia, não está preparado para mudanças culturais. Até as quer, ao menos no discurso, mas na prática exigem o resultado como avalista do projeto, quando deveria ser o contrário. Vivemos exaltando os quase 30 anos de Alex Ferguson à frente do Manchester United ao lembrar que nos primeiros sete ele não ganhou nada com os Red Devils, mas na primeira sequência ruim de qualquer treinador aqui, já falamos em demissão. De um modo geral, não passamos de um bando de hipócritas.

A excelência do trabalho depende de fatores como filosofia, método, treinamento e tempo (ou paciência, como queiram). Sem isso, o projeto, se é que há, vira passageiro da própria sorte. Resta saber se Rogério será, como o genial catalão ao desembarcar em Munique, um agente da contracultura futebolística brasileira e terá tempo para desenvolver seu trabalho. Sem contar que não quer dizer absolutamente nada o fato de ele ter sido um grande atleta, o dono do vestiário por anos, ter vestido a camisa tricolor por mais de 20 anos. Muda-se a função, as responsabilidades são outras, as decisões a serem tomadas também, e a história escrita é apenas isso: história.

Entre tanta mediocridade e falta de projetos alicerçados nos fatores mencionados, algo que tanto atrasa o futebol tupiniquim, espera-se que Rogério Ceni seja mais do que uma embalagem diferente. Afinal, de “m1to” do gol para mais um burro do banco de reservas, basta apenas um passo. Ou uma sucessão de resultados ruins.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. Sobre Ceni, estatísticas, embalagens e biquíni. Ludopédio, São Paulo, v. 92, n. 12, 2017.