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Sobre futebol, política, Taison, racismo e tudo mais

Roberto Jardim

 

Taison há poucas semanas comemorou gol no Campeonato Ucraniano com o punho direito erguido e cerrado, um símbolo de resistência e um gesto característico do movimento Black Power. Foto: Reprodução.

Não podemos baixar a cabeça!

Aqueles que querem que futebol e política não se misturem, jamais se importaram quando politicagem e futebol andaram juntos.

São os mesmos que se agora se calam diante de fatos como os que têm ocorrido na Europa, e não só lá.

Mais ainda, entre eles estão os que dizem “estranhar” e se “espantar” com essa crescente onda de intolerância que surge dentro e nos arredores dos estádios.

Como o fato mais recente, envolvendo o atacante Taison durante uma partida do Campeonato Ucraniano.

Ao ouvir ofensas racistas vindas da arquibancada onde estava a torcida adversária, o guri do bairro Navegantes, de Pelotas, reagiu. Acabou expulso, como se ele fosse o agressor, não a vítima.

Na nossa visão, meio míope talvez, existe uma grande diferença entre fazer política (isso nós fazemos todos os dias, em todas as relações) e fazer politicagem (usar alguma questão com fins eleitoreiros ou, como dizem no popular, politiqueiros).

A luta contra o racismo, a homofobia, a misoginia e os outros preconceitos, e contra as injustiças etc. são atos politicamente legítimos.

Usar o racismo e os outros preconceitos como forma de se aproveitar da insatisfação das pessoas é pura politicagem.

Pior ainda, é de uma rasteirice sem fim por abusar do preconceito e da desinformação com fins específicos, e nada republicanos. E é isso que vem acontecendo mundo afora.

A crescente onde de intolerância nos estádios tem um forte conteúdo politiqueiro nesse sentido.

São movimentos, acima de tudo, nacionalistas, de extrema e ultradireita, fascistas e neonazistas que têm tomado de assalto arquibancadas e arredores, mostrando suas caras e dizendo a quem está ali ou vendo pela TV: “nós não temos medo de mostrar como pensamos”.

O velho discurso de um inimigo em comum voltou. Assim como a utilização do medo e da intimidação para ganhar cada vez mais espaço.

Esse inimigo em comum já foi o povo judeu. Assim como já teve outras etnias como alvo. Hoje são os negros, os refugiados e os estrangeiros em geral.

Se conseguirem avançar, tomando poder, assumindo governos a partir de eleições democráticas, usarão essa legitimidade para aumentar a perseguição a quem não tem a mesma cor, a quem não nasceu no mesmo país, a quem não pensa igual, a quem não tem a mesma religião e por aí vai.

E depois disso, o que mais farão? Certamente seguirão passos do passado, usando uma guerra aqui, outra ali, para justificar o injustificável.

Até porque, o que prometem não será entregue. A insatisfação dos insatisfeitos não diminuirá num passo de mágica. Não dessa forma.

Estamos vendo, enfim, a intolerância ganhando cada vez mais espaço. Não podemos aceitar calados esse avanço.

A sociedade precisa reagir.

Afinal, como escreveu o Taison, nas suas redes sociais, na sociedade em que vivemos, não basta não sermos racistas (eu acrescentaria não sermos machistas, homofóbicos, misóginos, fascistas etc.), precisamos ser antirracistas (antimachistas, anti-homofíbicos, antimisóginos, antifascistas etc.).

Sendo assim, reações como a do guri de Pelotas, ou como as da torcida do Celtic e do francês Olivier Ntcham, ao marcar um gol na Lazio — clube intimamente ligado ao fascismo italiano — não se intimidando com os ultras são cada vez mais necessárias.

Não podemos baixar a cabeça. Isso é tudo que eles querem!