33.8

Sobre governos, governados e arrogância

Paulo Nascimento

“Pode-se enganar a todos por algum tempo;
pode-se enganar alguns por todo o tempo;
mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”

Abraham Lincoln

Faço parte do grupo de brasileiros que gosta de futebol e que está atento ao que está sendo dito, produzido e decidido em nosso país, às voltas com a organização da Copa do Mundo de 2014. Logo, acompanhei e continuo acompanhando as repercussões do afastamento de Ricardo Teixeira da CBF, por alegados motivos de saúde. Creio que o modo como esse fato tem se desenrolado diz bastante sobre o novo lugar que o Brasil ocupa no mundo, pois em razão de sermos a sede futura de Copa do Mundo de futebol e de Jogos Olímpicos, o que é feito, dito, escrito e publicado por aqui tem mais do que nunca alcance global. Diz também sobre nós brasileiros, um povo que foi colonizado nos lugares-comuns de “país do futuro” e de que por mais que se faça, não há como combater ou reivindicar algo que lhe é de direito, pois a justiça nunca é feita aos desprovidos de poder. A balança continua desequilibrada, mas a tomada de consciência política da sociedade é cada vez mais evidente. Pelos meios que o povo teve em mãos, manifestou seu desagravo à gestão de Teixeira, meios esses que passaram pelas redes sociais, pelas torcidas organizadas dos times, pelo discurso de pessoas públicas, pelo pingado da esquina. E diz sobre os nossos governantes, e sobre os atributos imprescindíveis a um bom governo, o que aparentemente Teixeira pouco ou nada apresentou no posto em que ocupou por mais de duas décadas.

Soube do pedido de afastamento de Teixeira um dia depois de ter ocorrido. E fazendo um breve resgate do que fora discutido no dia anterior (o que não exigiu muito, afinal era apenas um dia de diferença), me chamou a atenção como, em apenas um dia, a discussão já tinha mudado de rumo. Na terça-feira seguinte ao dia da queda, já não era mais nenhuma novidade que “o Ricardo Teixeira caiu”; já não mais se celebrava a queda do outrora presidente vitalício da CBF; e um novo rumo para a discussão era dado, apontando que aquele que assumiu interinamente o cargo, o ex-governador biônico de São Paulo José Maria Marin, não era tão diferente assim de seu antecessor. Afinal, foi vice daquele que não conseguiu responder convincentemente os indícios de corrupção das mais variadas ordens que ainda pairam sobre sua gestão. Marin inclusive fez questão de deixar claro, na coletiva de imprensa onde leu a carta-renúncia de Teixeira, que sua gestão seria de continuidade.

O presidente da CBF José Maria Marin fala durante entrevista coletiva, no dia em que o ex-presidente Ricardo Texeira deixou o cargo. Foto: Mowa Press.

De qualquer modo, o fato de a celebração da queda de Teixeira em menos de um dia ter dado lugar a um discurso de atenção e prontidão sobre qual seria a postura de Marin, me soou como mais um ponto deflagrador dos novos tempos em que estamos vivendo, cada vez mais fazendo do mundo on-line a nossa República. No caso dos brasileiros, talvez por não nos ter sido permitido ao longo de nossa história o acesso aos espaços tradicionais de reivindicação, ou porque não nos organizamos para reivindicar o ingresso a esses espaços, ou talvez por um pouco dos dois. É evidente o impacto que a internet tem hoje no que é pautado, falado, experimentado e vivido em nossas vidas on e off line. Se até o início dos anos 90, duas ou três empresas mantiveram o monopólio da informação no país, a ponto homens dessas empresas dizerem que, se elas não noticiavam determinado ocorrido, ele simplesmente não existia, passadas cerca de duas décadas, o monopólio não é mais tão vigoroso como antes. As informações e a comunicação se segmentam cada vez mais, e aqueles que não têm sua estética, sua linguagem e seu partidarismo negados simplesmente desligam a tevê, o rádio ou o que quer que seja, e vão atrás de produzirem eles mesmos sua posição no mundo.

A postura combativa do jornalista Juca Kfouri à Teixeira contribuiu em muito para Teixeira afastar-se do cargo. Kfouri, que há anos declara publicamente sua discórdia ao modo como a CBF e o COB são governados, fez de seu blog e de suas colunas no jornal e no rádio verdadeiras trincheiras de guerra. Teixeira e seus assessores, pouco habilidosos ou pouco crentes da potência própria às chamadas mídias sociais, deram pouco valor a elas. E aos poucos, as novas mídias ofereceram não só pauta para as velhas mídias, como também indícios de que não eram poucos os que pensavam como Kfouri. Talvez tenha sido esse um dos equívocos de Teixeira: não perceber que seus adversários, desarticulados, poderiam ter menos poder do que eles. Mas que, juntos, esses mesmos adversários seriam capazes de enfrentar Teixeira, com uma força suficientemente potente que seria capaz de derrubá-lo. Não só seriam capazes como foram. Hoje, fins de março, o que temos é a impressão de que é pouco provável Teixeira se retirar de sua licença médica de volta ao posto que ele imaginava que ocuparia pelo menos até a Copa de 2014.

Juca Kfouri durante entrevista para o Ludopédio. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Outro elemento que me chama a atenção nessa história é a entrevista que Teixeira deu à Revista Piauí, publicada na edição de número 58, em julho de 2011. Mais uma vez, ou porque muito mal-assessorado, ou porque muito arrogante, o então presidente da CBF não quis medir suas palavras para se referir àqueles que o atacavam. Quando indagado pela jornalista Daniela Pinheiro sobre os argumentos de seus adversários, respondeu: “Não ligo. Aliás, caguei. Caguei montão”. Sobre a notícia veiculada em um site de que estava passando seu réveillon em uma estação de esqui, afirmou: “A imprensa brasileira é muito vagabunda. Se eu não estivesse com a minha mulher, esses putos teriam acabado com o meu casamento.” Por mais intenso, despropositado e vulgar que seja o ataque, não é a resposta que se espera de alguém que ocupava o posto de Teixeira, fosse em uma mesa de bar, em um restaurante suíço, ou nas páginas de um órgão de imprensa. Aliás, coube a imprensa, sobretudo aos que foram visto por Teixeira como pouco importantes, papel fundamental. Ainda nas páginas de “Piauí”, deram aspas para Teixeira da seguinte forma, sobre o que ele pensava dessa imprensa brasileira que não raro o atacava:

“O Lula me falava: ‘Eu não vejo essa Globo News porque só dá traço’. Então, esse UOL só dá traço. Quem lê o Lance? Oitenta mil pessoas? Traço! Quem vê essa ESPN? Traço! Portanto, só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional”.

A maioria dos veículos de imprensa que Teixeira citou, próximos ou distantes de seu governo, não quer lidar com quem menospreze o poder que esses veículos querem fazer todos acreditarem que tem. Já aqueles que estão na soberania do poder, por sua vez, ainda insistem em divulgar uma idéia de independência e apartidarismo cada vez menos convincente. Fato é que essa insistência permanece, e qualquer declaração que a conteste pode prejudicar aquele que se pronuncia. De traço em traço, os adversários de Teixeira mostraram seu poder. E o Jornal Nacional, pouco tempo depois da entrevista de Teixeira na Piauí ser publicada, veiculou reportagem em 13 de agosto de 2011, sobre uma investigação da Polícia Federal de uma suposta fraude no amistoso entre Brasil e Portugal. “Pode colar, mas sem arrastar”, já escreveu um poeta.

O ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Não deixa de ser cômico ou trágico, a depender do leitor, ler hoje o final da reportagem da “Piauí” com Teixeira: “Em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou”. Pois 2014 ainda não veio, e Ricardo Teixeira está distante da presidência da CBF e mais ainda da FIFA, aquela que parecia ser seu horizonte. Os que sempre defenderam Teixeira aos poucos foram emudecendo, e seus opositores, percebendo tal movimento, viram nesse momento a oportunidade de intensificar os ataques. Assim funciona a dinâmica das disputas de poder, seja em qual esfera for. No caso do governo de Teixeira, do princípio do fim e de sua retirada, sua arrogância foi clarividente. E isso também não é o que esperamos de um líder. Por mais que Teixeira tenha insistido que a CBF não era pública, e portanto não tinha contas a prestar de seus negócios, o discurso não colou. E estar envolvido com o futebol, no Brasil, seja em qual esfera for, não é pouca coisa. Talvez tenha faltado a Teixeira também essa clareza, de que o futebol no Brasil é assunto da mais alta importância, e que envolver-se com ele demanda inclusive um lastro que ele parecia não ter: paixão pelo esporte.

E sobre a arrogância de Teixeira… Conversando com um colega de trabalho sobre homens que estiveram em altos escalões do poder no Brasil que pareciam indestrutíveis, cujos governos tiranos soavam intermináveis, e que sucumbiram muito em razão de suas respectivas arrogâncias, chegamos mais ou menos juntos, eu e esse colega, à constatação de que, por mais poderoso que você seja, humildade e serenidade são fundamentais. Humildade para ter clareza de que, por mais poderoso que alguém seja, ninguém garante sozinho uma liderança, uma chefia, um governo. Seja de um time, de uma empresa ou de uma confederação. E serenidade para perceber que ataques adversários fazem parte de qualquer esfera política, que são legítimas as críticas e as contestações, e que se você está governando não por vaidade pessoal, mas por ter assumido junto à sua comunidade um compromisso que essa mesma comunidade lhe conferiu a responsabilidade de assumir, será também essa comunidade que garantirá o seu posto de poder. Governar para o povo, pois é dele que emana o poder, como versam as clássicas definições de democracia. Com a habilidade nos gramados consagrada no século XX, vamos vivendo as primeiras décadas do século XXI aprendendo aos poucos como jogarmos na democracia. Que o futebol nos sirva de elemento para isso.

Como citar

NASCIMENTO, Paulo. Sobre governos, governados e arrogância. Ludopédio, São Paulo, v. 33, n. 8, 2012.