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Sobre os parvenus de arquibancada ou o que está acontecendo com a Massa?

Leonardo Turchi Pacheco

Este não é um texto escrito com o distanciamento e prudência necessária que o métier de cientista social exige. Nesse sentido, não representa o posicionamento dos grupos de pesquisa e estudo  de que o autor fez, faz ou fará parte, seja como colaborador ou membro efetivo. Estas linhas foram escritas no calor da emoção. Pois quem aqui se posiciona é um torcedor bastante assustado com a crescente onda conservadora e reacionária limítrofe do fascismo que ecoa seu grito nas ruas e o reproduz nas arquibancadas em número menor, mas com um autoritarismo similar. Esse torcedor está indignado, ferido na sua ingenuidade, desiludido ao constatar que a ideia de torcida e de time que foi ensinado a admirar está se transformando em algo que contradiz suas tradições (progressistas e inclusivas).

Tudo se passa como se a representação e, consequentemente, a construção da identidade da instituição (time e torcida), que ao longo de 108 anos de história se tornou o “time do povo”, “seleção do povo”, “time da massa” esteja sendo pulverizada pelas vozes e ações de uma parcela de parvenus de arquibancada. Filhotes das mudanças estruturais que ocorreram nos estádios brasileiros para a Copa de 2014, tornando-os arenas nos moldes europeus. Parvenus que adquirem seus ingressos a preços nada módicos e se associam aos programas de pagamentos mensais de sócio torcedores. Esses “novos ricos” de arquibancada, consumidores-torcedores que se assemelham a “grã-fina de narinas de cadáver” rodrigueano: pois se aquela não sabia quem era a bola, estes não sabem quem é o Galo, o que ele representa.

O que está acontecendo com a Massa? Pergunto.

BELO HORIZONTE / MINAS GERAIS / BRASIL 16.03.2016 Atlético x Colo Colo no estádio Arena Independência - Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Torcida do Galo durante partida contra o Colo Cola pela Copa Libertadores 2016. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

Ora, não dizem que o Galo, em Minas Gerais, é o time do povo? O time de todos? O time da Massa? Não é cantado em verso e prosa, pelos seus torcedores, que o Galo é “time de preto, de favelado, mas quando joga o Mineirão fica lotado”? Mesmo que em suas origens o clube não tenha sido fundado por indivíduos provenientes de camadas menos favorecidas da capital mineira, e, que hoje seus torcedores sejam captados transversalmente em várias camadas sociais, foi essa a representação cristalizada no imaginário dos torcedores mineiros – pelo menos na grande metade preto e branco. Se bem que, até pouco tempo atrás, os rivais troçavam os torcedores do galo chamando-os de cachorrada, em referência à falta de pedigree da torcida, legitimando e reforçando de forma canhestra a identidade do time e da torcida como proveniente das camadas menos favorecidas da população mineira.

Essa identidade – associada às massas, ao povão – também foi sendo construída através da fidelidade, na frequência ao estádio, independente da boa ou má fase da equipe. Nos anos de 1975, 1976, 1977, 1980, 1981, 1982, 1983, 1984, 1985, 1986, 1987, 1990, 1991, 1994, 1995, 1996, 1997, 1999, 2001, 2002, 2004, 2005, 2007, 2009, 2011 e 2012 seu torcedor foi o mais assíduo ao estádio entre todos os times de Minas Gerais. Em 2005, ano de seu rebaixamento, essa fidelidade se traduziu em uma média de público de 21.889 pagantes, o que representa quase o dobro da média de público total do campeonato nacional inteiro.

O que está acontecendo com a Massa?

Se o Galo, como quer seus torcedores, é o time da Massa, aquele que sempre teve como discurso a inclusão das minorias e dos oprimidos – trabalhadores, negros, mulheres, gays, pobres –, a aceitação em seus quadros indivíduos de diferentes extratos socioculturais, aquele que sempre foi identificado com a resistência, com a luta contra as desigualdades sociais, o que ocorreu nas arquibancadas no jogo de quarta-feira, dia 16 de março de 2016 contra o Colo-Colo do Chile pela Copa Libertadores da América merece questionamentos.

BELO HORIZONTE / MINAS GERAIS / BRASIL 16.03.2016 Atlético x Colo Colo no estádio Arena Independência - Copa Libertadores 2016 - foto: Bruno Cantini/Atlético MG

Torcedor mascarado de galo na partida entre Atlético Mineiro e Colo Colo pela Libertadores. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

Aqui vale recordar os acontecimentos:

Primeiro, vaiar ex-presidente de origem operária, insuflada por uma mídia tendenciosa que seleciona noticias para incriminá-lo sem provas concretas por supostos crimes cometidos. Insultar a primeira mulher presidente do País exigindo seu impedimento político baseado em acusações vazias, não me parece ser atitude de uma torcida que se diz do povo. Pelo menos não o povo que sofre na pele com as injustiças do cotidiano, que se vangloria por ser crítico da mídia do eixo Rio-São Paulo e sabe distinguir, pelo menos no campo esportivo, seus favorecimentos por emblemas timoneiros e de regatas rubro-negras.

Segundo, agredir outros torcedores contrários às vaias e expulsar, em um ato de intolerância fascista, um Deputado Estadual, da arquibancada, somente porque ele é filiado ao partido do ex-presidente e da atual presidente não condiz com aquilo que a história do Atlético Mineiro representa. E veja que, mesmo sendo uma figura pública, o referido Deputado Estadual estava no estádio como cidadão, como mais um torcedor vestido com o “manto sagrado” e não em campanha, e não vestido de vermelho, cor que tem causado repulsão aos mais conservadores e reacionários. Esse ato de exclusão agressiva é uma afronta à identidade de um time que, historicamente, se pautou pela inclusão democrática de seus torcedores e, por esse motivo, era reconhecido como o time da massa, time de todos.

Mas o que está acontecendo com a Massa?

Uma torcida que tem como o seu maior artilheiro e um dos seus maiores ídolos um camisa nove que comemorava seus gols com o braço estendido e o punho cerrado desafiando o regime ditatorial. Um camisa nove que foi perseguido por esses mesmos gestos. Proibido de comemorar gols dessa forma na Copa do Mundo de 1978. Não convocado para disputar a de 1982 por suas convicções políticas. É essa a torcida que já viveu a ditadura, no dia 16 de março de 2016 em uma postura paradoxal, se faz ditatorial. Ao invés de dialogarem, agridem. Entendem que o diferente deve ser perseguido, esmagado e destruído. É essa torcida que, deveria saber mais sobre o passado da sua própria agremiação, apoia um golpe de estado e ecoa insultos insuflados pela mídia conservadora pelo fim da democracia, pelo autoritarismo do judiciário, pela volta do Estado de Exceção e sua seletividade no que tange os benefícios e as corrupções.

O que está acontecendo com a Massa?

É essa mesma torcida que meses atrás, aceitou passivamente, sem o menor constrangimento e indignação com a postura de seus dirigentes e patrocinadores à objetificação e coisificação de mulheres na apresentação do novo modelo do uniforme de seu time. Modelos que desfilaram com a parte de cima do uniforme e de calcinha. Ali não havia o calção de futebol, meião e nem chuteiras, mas sim biquínis e salto alto.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL (15.02.2016) Lançamento da nova coleção Atlético Dry World no Ilustríssimo em Belo Horizonte - Foto: Bruno Cantini/Atlético

Lançamento da nova coleção Atlético Dry World no Ilustríssimo em Belo Horizonte. Foto: Bruno Cantini / Clube Atlético Mineiro.

E não! Pasmem!

Não era o lançamento da moda verão de biquínis do Galo, mas sim o lançamento da camisa oficial de 2016!!!!

E foi a mesma torcida que nas redes sociais agrediu aqueles que, contrariados, criticaram apontando para o machismo de tal postura. Aqueles e aquelas, também torcedores e torcedoras do time preto e branco, que entendem que as mulheres devem ser tratadas com respeito e dignidade; que o futebol não comporta mais o machismo de outrora. Que as mulheres são público legitimo do jogo tanto como torcedoras quanto como consumidoras. E não devem ser objetificadas, assediadas, ridicularizadas, violentadas física ou simbolicamente.

Enfim, uma torcida que está cada vez mais longe de seus ideais e cada vez mais próximas da misoginia, homofobia, machismo, intolerância e esnobismo elitista. E essas não são e nem deveriam ser o conjunto de ações e ideias que fundam o que se costumou chamar de Massa atleticana, nem um clube que tem no seu hino a convocação para “lutar, lutar, lutar” e que comemora títulos miscigenando-se no seio da praça sete.

E é por isso que eu me pergunto ingenuamente e de maneira utópica:

O que está acontecendo com a Massa?

E onde estavam aqueles que não concordaram com os abusos proferidos pelos parvenus de arquibancada na quarta-feira dia 16 de março de 2016? Por que não ouvimos, até o momento, suas vozes? Por que onde anda a resistência?