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À sombra de gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu

Thiago Carlos Costa

RESENHA

VIGNOLI, Leandro. À sombra de gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu. São Paulo: L. Vignoli, 2017.

“Por que torcer para um time que não ganha títulos?”: esta é a indagação inicial feita pelo autor Leandro Vignoli, em seu livro À sombra de gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu[1]. Segundo o próprio autor, essa pergunta foi feita aos torcedores dos times que ele acompanhou ao longo de sua jornada pelos campos europeus durante 50 dias em 2017. As respostas por quais razões esses torcedores resolvem “remar contra a maré” são apresentadas ao longo das 207 páginas desse ótimo livro sobre futebol.

Talvez se eu tivesse a difícil missão de resumir À sombra de gigantes[2] em uma palavra, esta seria: resistência. Em tempos em que o poder econômico prevalece cada dia mais, em quase todos os seguimentos da sociedade, o futebol não ficaria de fora desse universo. Torcer para times como Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, PSG, Juventus, Benfica, Arsenal e outros gigantes é um caminho mais fácil na busca do resultado final de se torcer para um time, que são vitórias, títulos e a presença de grandes estrelas em seus elencos.

Mas o futebol, como a vida, não é feito somente de pragmatismo ou escolhas óbvias. Às vezes, você se identifica com uma ideologia, cor, bairro, estádio, derrota, e aí, quando percebe, faz parte de um grupo que resolve combater em nome de uma causa um gigante ou sistema maiores. A narrativa proposta por Vignoli é mais do que uma metáfora da passagem bíblica na qual o pequeno Davi venceu Golias, em uma luta em que era pouco provável a derrota do gigante. O autor traz as sagas dos pequenos clubes europeus diante de adversários grandiosos, e enfrentar o poder econômico, a pouca – quase nenhuma – visibilidade na mídia, os estádios acanhados, não as tornam menos épicas; pelo contrário, pois eles estão sempre acompanhados por torcedores fiéis a esse “amor ao imponderável”.

Catarse_Torcida

Fotos: Divulgação/Catarse.

A relação desses torcedores no livro me trouxe a lembrança que o cronista João do Rio, no livro A alma encantadora das ruas, de 1908, estabelece com as ruas do Centro do Rio de Janeiro no início do século XX: mesmo sabendo que a cidade seria apagada do mapa pelas reformas urbanas, resolve registrar a vida daquela cidade, com personagens como mercadores, livreiros, tatuadores, músicos, moradores de rua, prostitutas e outras pessoas e hábitos que estavam prestes a deixar de existir. Nessa obra, João do Rio começa com a célebre frase: “Eu amo a rua”. À sombra de gigantes poderia iniciar com “Eu amo o futebol”, pois somente com muito amor para pensar em torcer por um time fadado à derrota. Como o próprio Vignoli descreve a partir dos relatos, “a maioria dos torcedores fanáticos costuma dizer que esse é um amor que não pede nada em troca”.

Assim, quando Vignoli passeia pelos estádios e entornos conversando com os torcedores e contextualizando historicamente os abnegados torcedores que seguem times como Espanyol, Rayo, 1860 Munique, Union Berlin, St. Pauli, Millwall, Fulham, Queen’s Park, Leyton Orient, Belenenses, Red Star, Sparta Rotterdam e Torino, o leitor inconscientemente nutre alguma empatia por eles e suas torcidas. Provavelmente, viaja na narrativa pensando em como é interessante um clube com orçamento mínimo encarar um adversário em que o salário de apenas um jogador paga seu orçamento anual.

Vale uma reflexão para os dias atuais, em que esse abismo entre os vintes maiores times da Europa e os demais está cada vez maior, e como isso é visto em relação a outros continentes, como a América do Sul. Em um intervalo de não mais que duas décadas, um time sul-americano encarava um time europeu nas decisões de mundiais interclubes de igual para igual; hoje em dia, é outra história. Aqui, assistimos campeonatos estaduais e nos deparamos com times que têm orçamento para três ou quatro meses e dependem de um bom desempenho nessas competições para conseguirem mais alguns meses de sobrevida ao longo de cada ano disputando as séries C e D.

Após a leitura de À sombra de gigantes, você talvez nunca mais olhe para os times pequenos da Europa do mesmo jeito, e provavelmente também veja os times pequenos do Brasil com outros olhos. Daria um bom livro uma versão brasileira visitando os pequenos clubes de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pará, Bahia e outros rincões do território nacional. Como dica de leitura, À sombra de gigantes vai além da superficialidade da discussão atual entre futebol raiz e modinha; serve como uma viagem existencial ao universo do futebol e para você pensar que, para que times pequenos continuem vivendo, alguém precisa torcer, como resistência do amor ao futebol.

 

Agradeço a Giulia Piazzi pela revisão do texto.

[1] https://www.catarse.me/asombradegigantes

[2] http://trivela.uol.com.br/a-sombra-de-gigantes-um-livro-grandes-historias-de-pequenos-clubes-que-precisa-da-sua-contribuicao/