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O clube de futebol profissional mais importante do mundo

João Manuel Casquinha Malaia Santos

Em setembro de 2018, participei do III Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol, organizado pelo Ludens – Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas, pelo Museu do Futebol e pelo Ludopédio. Fui convidado para coordenar um simpósio temático sobre futebol e política junto com Luiz Henrique de Toledo e com Heloisa Baldy Reis. Entre muitos trabalhos, muitas mesas e muitas palestras, uma me marcou profundamente.

Frente do estádio Millerntor Stadium, do FC S. Pauli. Foto: João Malaia.

Foi a fala da Sandra Schwedler, presidenta do Conselho de Supervisão do F.C. St. Pauli, clube que atualmente disputa a segunda divisão da Bundesliga. Como muita gente, eu já tinha ouvido falar do St. Pauli. Da famosa entrada em campo ao som de ACDC, da bandeira com o símbolo pirata e da postura anti-fascista, anti-homofóbica e anti-rascista da direção e da torcida. Tinha lido pouca coisa sobre o clube e o que sabia veio por meio da mídia mais tradicional.

Portanto, era a oportunidade de ouvir quem estava em uma das posições de comando mais importante do clube mais abertamente anti-fascista do futebol profissional mundial. E a fala da Sandra foi muito além das minhas expectativas. Ela descortinou uma série de ações do St. Pauli e da relação do clube com suas torcidas organizadas, os ultras (no caso do St.Pauli, os ultras usam a abreviação USP – Ultras St. Pauli). Explicou como se dava a luta por ideias tão distantes do que outros clubes praticam. Mostrou orgulho imenso de lutar pela disseminação desses ideias dentro do futebol profissional, um meio que alcança um número enorme de pessoas.

Saí da palestra da Sandra convicto de uma coisa: tenho que conhecer esse clube. Tenho que conhecer as pessoas que, assim como eu, acreditam na imensa força transformadora que este fenômeno cultural pode ter. As pessoas que acreditam na ideia da luta por meio do futebol. Sempre achei que isso era uma utopia. Sandra me mostrava que não.

Dei a sorte de já ter comprado passagem para ir ver minha família em Portugal no início deste ano. Era um prêmio depois dos meus primeiros 365 dias ininterruptos de trabalho na Universidade Federal de Santa Maria. Tabela da Bundesliga 2, dia 12 de fevereiro, sábado, 10h30, St. Pauli x F.C. Erzgebirge Aue. Passagem em uma companhia Low Cost, Lisboa x Hamburgo por 60 euros, duas noites nesses apps que as pessoas alugam um quarto por mais 40. Presente da irmã, diga-se de passagem. Estava marcada a viagem para conhecer o Millerntor-Stadion, o estádio do St. Pauli.

Para completar a maré de sorte, o Prof. Odilon Caldeira faz seu estágio de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em História da UFSM, do qual também faço parte. Estudioso de fascismo e manifestações desta chamada nova direita, quando Odilon soube que eu havia planejado esta viagem me contou de sua experiência em St. Pauli. Passou o  contato com Maarten Thiede.

Morador do bairro de St. Pauli, Maarten é um torcedor bastante ativo politicamente, tanto no clube quanto em sua vida profissional. Atua em diversas organizações não governamentais de apoio a refugiados e a pessoas em situação de rua. E ainda faz uns bicos em uma casa noturna, promovendo shows de bandas punk. No clube, é torcedor, vai a todos os jogos e também é sócio, participa das assembleias e conhece alguns dos torcedores mais ativos nos grupos de ultras do St. Pauli.

Além do contato com Maarten, entrei em contato com a Sandra por e-mail. Expliquei que escrevia para o Ludopédio, um site que reúne pesquisadores acadêmicos que têm como objeto o futebol e que defende as mesmas pautas do St. Pauli e que havia também sido um dos organizadores do simpósio que ela veio falar aqui no Brasil. Disse para Sandra que iria escrever para o Ludopédio, mas para entender um pouco melhor a relação da torcida com o clube na formulação da luta anti-fascista.

De onde surgiu essa força, como se deu esse processo no clube? Qual é participação dos grupos ultras? Como eles se comportam? Quais as contradições maiores enfrentadas, principalmente defendendo pautas anticapitalistas e atuando no futebol profissional de alto nível? Como se dá a gestão do clube? Que áreas são profissionais? Que áreas são amadoras? Como se dá a relação dos jogadores com a defesa dos ideias do clube? Como eu faço para conseguir um ingresso para o do St. Pauli contra o Erzgebirge Aue?

Sandra respondeu e foi muito solicita. Me marcou três encontros no clube para a sexta-feira, dia 15 de fevereiro. Os dois primeiros de manhã, com Michael Thomsen, diretor de relacionamento, e depois com o presidente do clube, Oke Göttlich. Ao final da tarde, um encontro com Sönke Goldbeck, diretor do museu e membro do conselho supervisor. A tarde seria reservada para conhecer o bairro com Maarten. À noite, uma volta pelos bares ao redor do Millerntor-Stadion. E também me passou o e-mail da Fanladen (uma organização que congrega os grupos ultras do St. Pauli) para conseguir ingressos de um cota para estrangeiros que eles têm.

Como já podem perceber, a viagem rendeu muito mais do que eu esperava. Tive todos estes encontros e mais alguns com pessoas da torcida, com membros que atuam diretamente na Fanladen. Consegui meu ingresso, fui ao jogo, vivi um pouco da rotina do bairro, conversei com pessoal que trabalha nos bares e cafés, com um rapaz turco dono de uma loja de conveniências. Afirmo a todos: é uma experiência absolutamente incrível. Sem dúvida, uma das maiores experiências da minha vida.

Não seria possível escrever tudo o que passei, todas as experiências, todas as informações colhidas e todas as conclusões em apenas um texto. Não para o Ludopédio. Um texto, não. Mas uma série de textos, com certeza. Após escrever um bocado, percebi que não seria possível de maneira alguma escrever apenas uma postagem sobre o St. Pauli. Não é possível captar com alguma profundidade o que se passa naquele bairro, com aquelas pessoas e ao redor daquele clube. Se eu vivi o que vivi em dois dias, imaginem quem vive aquilo.

Uma de minhas aquisições nesta viagem foi o livro Pirates, Punks and Politics, de Nick Davidson. Um livro interessante e escrito por um jornalista inglês fã do St. Pauli. Nick apontou algo interessante logo no primeiro capítulo de seu livro. Muito dos admiradores do St. Pauli ao redor do mundo de alguma maneira ficaram sabendo do clube por meio de artigos de revistas, sites, blogs, vídeos. Estes veículos geralmente mostram uma história de um clube com torcedores que defendem pautas de um espectro político mais à esquerda, que não toleram racismo, sexismo, machismo e homofobia. Mas não vão muito além disso. Nick queria entender um pouco mais a fundo a realidade do clube. Creio que minha proposta vai um pouco por esse caminho.

Procurei pensar em como dividir as postagens e decidi pensar a partir das experiências que mais me marcaram. Ao todo, serão seis textos, cada uma focando um aspecto do clube e da sua torcida:

Memórias do bairro de St. Pauli e identidade torcedora

Nesta postagem, vou abordar um pouco de como as histórias da região onde hoje está o bairro de St. Pauli invadem a memória social dos torcedores do clube. Vou refletir um pouco sobre elementos da história urbana e das conexões com as histórias contadas pelos torcedores a respeito do seu bairro. A partir destas memórias, tentarei estabelecer as conexões que geram uma atmosfera de tolerância no bairro. Por meio de uma circularidade entre o que se defende nas arquibancadas do clube e essa atmosfera do bairro, St. Pauli (bairro e clube) se transformam em um bolsão antifascista contemporâneo.

Marketing anticapitalista

Como ser um clube que defende pautas, dentre outras, anticapitalistas e jogar uma liga profissional na Alemanha? As contradições de vender milhares de camisas, de ter um dos marketings mais agressivos da Bundesliga, ter contratos milionários como o que assinou com a Under Armour e ser um clube assumidamente de esquerda serão exploradas nesta postagem. Ou melhor: será que há contradição? Ou ainda, será que há algum problema nessa contradição?

Ultras ao poder

Ultras e de esquerda. Nesta postagem abordarei as relações dos Ultras do St. Pauli (USP) com o clube. As participações como sócios e como conselheiros e a chegada de Oke à presidência do clube, o projeto da Fanladen e como a Bundesliga e a grande imprensa encara esta relação mostram que a força da torcida do St. Pauli incomodam.

Arquibancada política e política na arquibancada

Um clube e uma torcida assumidamente antifascista e que apoiam inúmeros projetos sociais e de apoio a refugiados. O que poderia esperar um torcedor brasileiro que fosse a um jogo na Südkurve do Millerntor-Stadion, dias após a posse do atual presidente do Brasil? Ao invés de eu fazer as perguntas, no intervalo do jogo o que mais fiz foi responder perguntas sobre a atual fase da política nacional. As conversas revelam a preocupação que despertamos no mundo desde a última eleição.

Museu e vinho, sim. Polícia, não.

Neste texto, faço um breve relato da experiência que St. Pauli está tendo com a formação de seu museu e com a produção de vinho. Isso mesmo: o St. Pauli está produzindo vinho e taças de vinho com a seguinte inscrição em alemão: “Sem vinho para os fascistas”. Mostro como o St. Pauli impediu que fosse implantada uma cadeia especial para a prisão de torcedores que causassem desordens dentro do estádio usando o espaço para a construção de seu museu. Mais uma história para que o clube tivesse suas ações ligadas à preservação de sua memória brigando contra uma estrutura da autoridade do Estado.

St. Pauli e Punk: trilha sonora da bola

Os punks do bairro de St. Pauli (e provavelmente de toda a cidade de Hamburgo) desempenharam um papel preponderante na virada que o clube deu em sua trajetória, ao final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Por isso, a trilha sonora do estádio, do museu e dos bares ao redor do estádio é o punk rock. Além disso, os variados espaços do clube como a Fanladen, o museu ou as áreas externas adjacentes são palco de inúmeros shows de bandas punk de Hamburgo e de toda a Alemanha.

Podem aguardar: a partir de maio, publicarei os textos sobre essas temáticas. Espero colaborar para que possamos conhecer um pouco melhor a realidade do St. Pauli, de seus torcedores e deste incrível bairro da cidade de Hamburgo, na Alemanha. Conhecer de maneira mais profunda aquele que é, na minha modesta opinião, o mais importante clube de futebol profissional do mundo.

KEIN FUßBALL DEN FASCHISTEN!