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Stanislav Cherchesov: O herói de três nacionalidades

Miguel Enrique Almeida Stédile

Série do Puntero Izquierdo conta a história de personagens que um dia serão lembrados pelo que fizeram na Copa de 2018; aqui, o técnico que levou um time desacreditado muito mais longe que o mundo poderia imaginar

ilustração: gustavo berocan

O russo é, antes de tudo, um trágico. Pense nas angústias existenciais de Dostoiévski ou nos dramas épicos de Tolstói. E não poderia ser diferente: a tragédia é parte da história de um país que perdeu milhares de vidas enfrentando Napoleão e mais de 25 milhões de pessoas lutando contra o nazismo. Por isso também, os russos parecem ter a capacidade de surpreender em momentos decisivos. O jornalista norte-americano John Reed — goleiro nos intervalos das reuniões da Internacional Comunista — preencheu várias páginas de seu Dez Dias que Abalaram o Mundo com exemplos de soldados ou camponeses famintos que realizavam feitos extraordinários quando nada se esperava. Para que a Copa na Rússia fosse perfeita para os seus anfitriões, era preciso que fosse a história de uma tragédia impedida por um herói comum. E o seu protagonista estava lá na casamata, o técnico Stanislav Cherchesov.

Aparentemente, o que há de extraordinário em Cherchesov é o que é ordinário para todo cidadão russo com mais de trinta anos de idade: sua nacionalidade de nascimento é soviética; viu o país se dissolver em outras quinze repúblicas e, por fim, prevalecer a identidade russa. A diferença é que, como esportista, Cherchesov defendeu as três bandeiras.

Entre 1984 e 1987, protegeu as traves do Spartak de Moscou, retornando entre 1989 e 1993, após uma única temporada no Lokomotiv. Nesta segunda passagem foi bicampeão soviético e escolhido o melhor goleiro da URSS. Na prática, Cherchesov foi o último goleiro a receber esta honraria. Em 1990, foi convocado para a seleção, mas não conseguiu fazer parte do grupo que disputou a Copa da Itália.

Enquanto isso, os países da chamada “cortina de ferro” convulsionavam um a um. O muro de Berlim literalmente caiu. A Iugoslávia implodiu numa sangrenta guerra civil e o ditador da Romênia foi executado com transmissão ao vivo pela TV. Em dezembro de 1991, Mikhail Gorbachev formalizou o que já era um fato: a União Soviética estava dissolvida. Entre os tantos problemas decorrentes do desaparecimento da superpotência estava o que fazer com a vaga que a URSS havia conquistado para a Eurocopa de 1992. Rapidamente, pouco mais de um mês depois, fundou-se uma Associação de Futebol da Comunidade de Estados Independentes (CEI), a instituição improvisada por 12 repúblicas (sem a participação de Estônia, Lituânia e Letônia) e, igualmente rápido, a FIFA reconheceu a entidade, confirmando a herança da vaga conquistada pela antiga seleção.

Correndo contra o tempo, a nova Federação manteve o técnico da equipe soviética, Anatoly Byshovets. Doze dias após a convocação, a nova seleção realizou sua primeira partida, com uma grande carga simbólica, contra os Estados Unidos em Miami. Os derrotados da guerra fria venceram no futebol: pouco mais de trinta mil pessoas assistiram um time muito defensivo e pouco criativo ganhar dos donos da casa por 1 a 0. Em seguida, a CEI venceu El Salvador por 3 a 0, perdeu por 2 a 1 na revanche contra os Estados Unidos, ganhou de Israel (2 a 1), do Schalke 04 (3 a 0) e do CSKA (3 a 0), antes de uma sequência de quatro empates (Dinamarca, Espanha, México e Inglaterra) e uma derrota em outro jogo contra os mexicanos. Cherchesov estava entre os convocados, ainda que não tenha sido titular nas primeiras partidas.

A estreia da seleção da CEI em jogos oficiais seria contra a Alemanha na abertura do seu grupo na Eurocopa. Como a recém-fundada Comunidade não tinha sequer hino, a Nona Sinfonia de Beethoven foi executada na apresentação da equipe. Surpreendendo os alemães, considerados favoritos ao título, a CEI abriu o placar com Dobrovolsky cobrando pênalti, mas cedeu o empate perto do final da partida. Contra a Holanda de Van Basten e Gullit, a CEI arrancou novo empate, sem balançar as redes. Ao fim, a vitória da Escócia por 2 a 0 não foi apenas a eliminação da seleção, mas sua última partida oficial.

As repúblicas integrantes da CEI preferiram investir em suas próprias seleções nacionais, a Rússia herdou as estatísticas do breve selecionado, e Cherchesov, que esteve em campo em cinco partidas, seguiu sua carreira. O último melhor goleiro soviético foi o primeiro a ser eleito o melhor no novo campeonato russo, antes de aproveitar a abertura política e do mercado para ganhar a vida nos campeonatos alemão e austríaco. Apesar de ter sido convocado para defender a nova seleção russa nas Copas de 1994 e 2002, jogou apenas uma partida, no massacre de 6 a 1 contra Camarões nos Estados Unidos.

Voltemos à tragédia. Não fosse a dona da casa, as chances da Rússia estar na Copa de 2018 não eram exatamente favoráveis, considerando o seu retrospecto recente. A seleção não conseguira se classificar para as Copas de 2006 e 2010 e, no Brasil, foi eliminada na primeira fase. Na Eurocopa, não se classificaram em 2000 e foram eliminados na primeira fase em quatro edições (1996, 2004, 2012 e 2016), com uma surpreendente campanha de 2008 que parecia mais uma exceção que confirmava a regra. O fiasco na Eurocopa, dois anos antes do Mundial em casa, levou a demissão de Leonid Slutsky. E aí, reencontramos Stanislav Cherchesov, que apesar de trabalhar como técnico desde 2004, tem apenas dois títulos na prateleira, ambos no — não exatamente impressionante — futebol polonês.

O fato é que com o ex-goleiro a frente da seleção… nada mudou. Na Copa das Confederações do ano passado, os russos venceram apenas a Nova Zelândia e foram eliminados em casa na primeira fase. Dos sete amistosos preparatórios ao mundial, não venceram nenhum. Foram três empates (Irã, Espanha e Turquia) e quatro derrotas (Argentina, Brasil, França e Austria).

Mais do que isso, Cherchesov foi impiedosamente criticado pela imprensa por mudar constantemente seu sistema tático, principalmente na defesa, e por não convocar o meio-campo Igor Denisov, seu desafeto de longa data.

A desconfiança com a seleção estava disseminada na torcida, inclusive entre figuras ilustres como o ex-jogador da seleção e do Manchester United, Andrei Kanchelskis, que declarou que não sofreria por Cherchesov porque suas ideias são ridículas e irreais; “não sofro pelo nosso corpo técnico que destrói o nosso futebol”. O próprio presidente Putin, uma semana antes da abertura da Copa, afirmou para a TV chinesa que esperava apenas que a seleção lutasse dignamente; “respeito a nossa seleção, mas devo reconhecer uma coisa: infelizmente não temos conseguido grandes resultados ultimamente”.

E então, tão improvável quanto vencer Napoleão ou ocorrer uma revolução socialista num país atrasado, a Rússia se ergueu na Copa.

É verdade que a vitória dos anfitriões sobre a Arábia Saudita era previsível. Mas a goleada da abertura foi suficiente para que Putin — um notório desinteressado em futebol, mas hábil em publicidade — interrompesse com um telefonema a coletiva de Cherchesov. “O jogo contra Arábia Saudita, os 5 a 0, com dois gols de um atacante que começou no banco, mudou completamente a maneira como eles encaravam a Copa do Mundo”conta o jornalista Daniel Giovanaz, que está no país cobrindo a Copa. “O golaço que o Cheryshev fez, o quarto gol do jogo, deve ter passado umas três mil vezes na televisão russa, eles não cansam de reprisar aquele gol” .

“A vitória sobre o Egito, que praticamente classificou o time, foi como se eles estivessem vivendo um sonho”, testemunha Daniel, “mas o jogo com o Uruguai foi como um choque de realidade e voltou aquele desânimo”.

Diante da Espanha, não havia esperança. Segundo Giovanaz, o clima de despedida era preparado na imprensa local, que já considerava uma vitória ter chegado até as oitavas. Mas Cherchesov ainda não tinha se rendido. Se Dostoiévski havia escrito que “se Deus não existe, tudo é permitido”, o técnico russo valia-se de um provérbio local, “qualquer um pode ser Deus se trabalhar duro”.

Sua explicação era simples: havia montado um time leal e disciplinado; o grupo sabe que tem limites e joga mais do que podem; tem uma missão e deve cumpri-la. “Não temos medo de ninguém”, alardeava antes da partida. Para o periódico esportivo Marca, o treinador transformou o jogo em “uma causa nacional”, obedecido em cada gesto dos jogadores pedindo — e recebendo — o apoio da torcida. Os 80% de posse de bola do rival foram ineficazes diante da disciplina bolchevique de um time armado com cinco defensores e intensa marcação no meio de campo, que levou o jogo aos pênaltis e que culminou na impressionante defesa com os pés do goleiro Akinfeev.

“Nós estávamos em Samara no dia em que a Rússia venceu a Espanha nos pênaltis”, lembra Daniel, “ e contamos no relógio mais ou menos umas cinco horas de buzinaço nas ruas da cidade, que não é gigantesca”. A manifestação não foi imediata. “Começou uma hora depois da vitória, como um sentimento de incredulidade: eles acharam que não iam passar da Espanha, ficaram espantados com a vitória e só depois de um tempo é que caiu a ficha”, relata.

Não demorou para Cherchesov ser aclamado como o responsável pela vitória. “A torcida considera o time muito fraco, então se o treinador consegue fazer render, ele é alguém a ser admirado” continua o jornalista. Torcedores e inúmeras celebridades russas adotaram o característico bigodinho do treinador como símbolo de apoio ao time. O comportamento do técnico na lateral do campo também contribuiu para esta identificação. “Ele é um figurão, na hora do jogo gosta de dar uma pinta de que não está nem aí, o time faz gol e não comemora. Só que às vezes a emoção bate mais forte e aí ele extravasa, vai para a galera, reclama bastante, gesticula, então ele acaba se tornando uma figura de referência porque ele chama muito atenção na beira do gramado”.

Contra a Croácia, mesmo nas quartas de final, a torcida ainda não estava confiante. “Eles estão super entusiasmados e ao mesmo tempo com um receiozinho de que pode vir uma goleada e acabar com esse sonho” descreveu Giovanaz antes da partida. A partida não se tornou uma tragédia, mas manteve os ares de epopéia, até aonde o futebol russo permite. Aos trinta e dois minutos do primeiro tempo, Cheryshev, outro personagem que ganhou a empatia da torcida, acertou um chute surpreendente. Os croatas empataram e, quando Vida marcou o segundo, invertendo o placar, torcedores e jogadores russos não esconderam o abatimento. Exatamente o contrário do que aconteceu no gol de Mario Fernandes: o estádio veio abaixo e o empate parecia sinalizar de que um novo milagre estava a caminho. Em todos esses momentos decisivos da partida, Cherchesov parecia indiferente, mantendo seu ritual de caminhar de um lado ao outro com as mãos nos bolsos. Mesmo durante as penalidades, quando o brasileiro naturalizado russo desperdiçou a sua cobrança ou quando Rakitic classificou a Croácia.

Na última entrevista antes da partida, Cherchesov aproveitou para alfinetar a imprensa e os críticos do seu trabalho no pré-Copa, mas manteve a frieza e descartou a euforia, “emoções são simples e eu não sou um sonhador”.

Provavelmente, o drama russo se repita nos próximos anos, já que o time de fato não apresentou nada de inovador ou promissor além de uma gigantesca disposição de superar as próprias limitações. Quanto a Cherchesov, à frente ou não da seleção na sequência dos torneios, já terá seus feitos registrados no panteão dos heróis populares. Não derrotou nem Napoleão, nem Hitler, apenas quase chegou a uma semifinal de Copa do Mundo. Um homem comum evitando uma tragédia anunciada. Tudo o que alma russa queria nesta Copa.


Puntero menorPublicado originalmente no Puntero Izquierdo em 2018. O Puntero em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.


Como citar

STéDILE, Miguel Enrique Almeida. Stanislav Cherchesov: O herói de três nacionalidades. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 3, 2021.