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A trágica morte de Lutz Eigendorf e a sombria atuação da STASI no futebol da Alemanha Oriental

Thiago Carlos Costa

Na noite do dia 05 de março de 1983, o carro conduzido pelo talentoso meio-campista Lutz Eigendorf chocava-se contra uma árvore em uma estrada nos arredores de Braunschweig, cidade localizada próximo à fronteira entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental. Devido aos graves ferimentos sofridos no acidente, dois dias depois, aos 26 anos de idade, o promissor Lutz falecia no hospital. Na época, foram levantadas suspeitas sobre sua morte que foi justificada por um acidente automobilístico, devido à alta velocidade do carro quando ocorrera o impacto contra uma árvore e ao grande índice de álcool encontrado em seu sangue. Mas este acidente não parecia tão ao acaso, pois, em 1979, Lutz Eigendorf[1] fugiu da então Alemanha Oriental para a Alemanha Ocidental e foi tratado como desertor e como um dos inimigos públicos da STASI. Mas a suspeita sobre a morte de Lutz deixou de ser tratada como assassinato e não como um acidente de carro apenas após a Queda do Muro de Berlim em 1989, e mais tarde em 2008, com a prisão de Karl-Heinz Felgner, que desencadeou um longo trabalho de pesquisa no que restou dos arquivos da extinta República Democrática Alemã (RDA)[2]. Mas para compreender a relação da polícia política da Alemanha Oriental com o futebol e, por conseguinte, com a morte de Lutz Eigendorf, é preciso contextualizar como o futebol era tratado no bloco socialista.

A popularidade da prática do futebol na Alemanha remete à segunda metade do século XIX com a criação de vários clubes de futebol que representavam as diversas camadas da sociedade alemã, principalmente os clubes ligados à classe trabalhadora, como nas fábricas, indústrias e escolas. O século XX foi marcado por duas grandes guerras mundiais que deixaram sequelas profundas nas sociedades de todo mundo, mas particularmente na sociedade alemã que passou por severas sanções, privações e reconstruções nos períodos de pós-guerra, uma vez que o país fora protagonista nas duas guerras. Tratando-se especificamente da Segunda Guerra Mundial, provavelmente, a Alemanha foi o país que mais passou por transformações no período após o conflito bélico. Como o Exército Vermelho ocupou a parte oriental da Europa até o entorno de Berlim e as margens do Rio Elba, na Alemanha, e os aliados ocidentais ocuparam o restante do território, após uma série de acordos e tratados, particularmente o “Tratado de Potsdam[3]”, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de influência entre os Estados Unidos, a Inglaterra, a França e a União Soviética. Didaticamente, a partir de agosto de 1945, significou que a Alemanha ficaria dividida entre dois modelos monolíticos antagônicos: de um lado, o bloco capitalista dividido entre EUA, Inglaterra e França; do outro lado, o bloco socialista, liderado pela URSS, com seus países satélites. A Guerra Fria viveu seu auge de 1945 até o final dos anos 1980, e a Alemanha foi um cenário complexo desse nebuloso momento histórico. Em 1949, foi criado o Estado da República Democrática Alemã (RDA) sob total influência e gestão da União Soviética pautada no Tratado de Potsdam, e a sua capital seria Berlim, que mesmo totalmente dentro do lado oriental da Alemanha foi divida em duas partes, ocidental (capitalista e controlada pela então República Federativa da Alemanha) e a oriental (socialista e controlada pela URSS). Em 1953, logo após a morte de Stalin, houve uma grande rebelião de trabalhadores alemães residentes na parte oriental de Berlim, quando cerca de três mil pessoas fugiram para o lado ocidental. No ano de 1961, foi construído o Muro que dividira fisicamente a cidade de Berlim, e simbolicamente foi um marco nessa divisão até o ano de sua queda em 1989.

Lutz Eigendorf Panini Eintracht Braunschweig 1983Após esta brevíssima contextualização histórica, vamos ao lado esportivo na Alemanha Oriental e como a mesma lidava com o futebol sob a influência soviética. Como o futebol era um esporte extremamente popular na Alemanha mesmo antes das grandes guerras, proibi-lo seria um erro, mas lidar com ele seria complexo, utilizando-se exatamente do exemplo criado na União Soviética desde a década de 1920, onde o futebol também já era um esporte amplamente difundido na sociedade. Assim, [d]urante os grandes desafios lançados por Lênin – a consolidação da União Soviética e a NEP –, o futebol assumiu posições contrastantes no país. Se por um lado foi encarado como um desvio burguês, permissivo devido às perigosas tendências em torno do individualismo e profissionalismo, por outro lado, foi um artifício importante no sentido de fortalecer as relações de “boa vizinhança” entre o governo bolchevique e os mais próximos, principalmente através de equipes formadas sovietes[4].

Assim, pautado no modelo soviético de governo com um Estado extremamente burocrático e rigidamente vigiado, o futebol seria veneno e remédio para estes governos em busca de estabilidade interna e externa e controle das massas. O modelo de organização de futebol implementado na União Soviética durante a gestão de Stálin, com a formação de uma ampla liga nacional que englobava as ligas regionais, foi exportado para os países do bloco socialista, e foi extremamente aperfeiçoado pela Alemanha Oriental em sua liga. Pois já no ano de 1950 foi instituída a Oberliga[5], que reunia os times que já existiam antes da criação da RDA e também os que foram e seriam criados nos anos de vigência do regime socialista de acordo com seus interesses. Uma característica interessante era de como os times representavam as regiões e suas produções, fábricas e indústrias locais, como mostra essa completa tabela desenvolvida pelo site Trivela:

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Crédito: Trivela.

Como o modelo soviético para organização do futebol foi levado ao pé da letra, na União Soviética foi criado em 1923 o Dínamo de Moscou, que foi apropriado do Orenkhovo Sport Club, que havia sido fundado décadas antes por dois irmãos ingleses que trabalhavam no ramo de manufatura têxtil. O Dínamo de Moscou foi fundado por Felix Dzerzhinsky, chefe da polícia secreta soviética, e virou um modelo de exportação para outros países do bloco socialista: assim, foram criados Dínamos em Batumi, Berlim, Bucareste, Dresden, Minsk, Tbilisi, Kiev, por exemplo. Com a exceção dos times de Dresden e Kiev, que já existiam desde antes da Segunda Guerra, os outros Dínamos eram ligados à repressão e espionagem de seus cidadãos, e obviamente eram extremamente impopulares, sendo hostilizados pelos torcedores rivais por onde passavam. Mas o destino do Dínamo de Berlim seria transformado em meados dos anos 1950, quando o general Erich Mielke[6] chefe do Ministério da Segurança do Estado, a STASI[7] (abreviatura de “Staatssicherheitsdienst” – Serviço de Segurança do Estado), se tornou o dirigente do time. Grande entusiasta do futebol, Mielke via no futebol grande poder de influência e aglutinação das massas, e também via a possibilidade de maior visibilidade do país fora de suas rígidas fronteiras. A Alemanha Oriental tinha uma performance relativamente interessante nos Jogos Olímpicos, mas sempre com suspeitas de doping  em seus atletas. Com a conquista da Alemanha Ocidental na Copa do Mundo de 1954, justamente sobre a talentosa seleção da Hungria, membro do bloco socialista, Mielke conseguiu mais suporte para seu projeto de tornar a RDA uma potência no futebol. Seu time modelo seria o Dínamo de Berlim, que concentraria os principais talentos que praticavam futebol no lado oriental e, simultaneamente, à seleção e busca de talentos nas divisões de base dos clubes orientais para abastecer o seu Dínamo. Assim, na tese de Erich Mielke era que gradativamente formaria um “Bayern de Munique do Leste” e simultaneamente uma forte seleção.

Neste contexto, Erich Mielke liderou juntamente com outros dirigentes da RDA um projeto que tornou a Oberliga em um campeonato marcado por esquemas de manipulação de resultados por arbitragens questionáveis na busca pela hegemonia do time símbolo do regime: o Dínamo de Berlim. O Dínamo foi decacampeão da Oberliga de 1979 até 1988, onde ficava patente a corrupção da liga, com trocas de favores, ameaças, subornos e outros estratagemas, o que na prática enfraquecia a competitividade do futebol na Alemanha Oriental. Nesse contexto, surgia um talentoso meio-campista nascido em Brandenburgo, Lutz Eigendorf[8], que aos 12 anos de idade foi levado para treinar nas categorias de base do Dínamo de Berlim. Com habilidade para armação de jogadas e bom finalizador, Eigendorf era tratado como uma joia pelos dirigentes do Dínamo, e sob os olhares vigilantes dos funcionários de Mielke. Logo com atuações destacas pela seleção da Alemanha Oriental, quando da sua estreia marcou dois gols em um amistoso contra a Bulgária, ganhou o apelido de “Beckenbauer do Leste”.

ADN-ZB-Lehmann-21.5.75-str-Berlin: Fußball-Oberliga BFC Dynamo - VorwärtsStralsund 2:0 Zweikampf im Stralsunder Strafraum zwischen zwei Verteidigern. Eigendorf (BFC/1) kann sich gegen Renn durchsetzen und flankt vor das Vorwärts-Tor. Mit diesem Sieg konnte der BFC sein Vorhaben verwirklichen, einen der begrehrten UEFA-Cup-Plätze zu erhalten.

Eigendorf em campo pelo Dínamo de Berlim em 1975. Foto: Thomas Lehmann/Bild Bundesarchiv (CC-BY-SA 3.0).

Em 1979[9], o Dínamo foi convidado para um jogo amistoso contra o Kaiserslautern, time do lado ocidental. O governo da Alemanha Oriental não gostava deste tipo de excursão, pois aguçava nos seus atletas sentimentos que não eram interessantes para a política do Estado. Assim, semanas antes da partida os jogadores e a comissão técnica foram minuciosamente investigados pela STASI sobre qualquer suspeita de deserção e fuga, passaram por palestras sobre os valores do partido e as consequências pessoais e familiares para qualquer tipo de traição ao governo. Assim, em 18 de março de 1979, o Dínamo foi até a cidade de Kaiserslautern e jogou, perdeu por 4 x 1 para o time da casa, mas Eigendorf chamou a atenção dos ocidentais. Com apenas 22 anos de idade, com um cartão de convite de um dos dirigentes do Kaiserslautern e com potencial para ser um grande ícone do futebol alemão, Eigendorf se sentiu seduzido pela vida e novas possibilidades do outro lado da Cortina de Ferro. Ao final da partida, todos foram acomodados no ônibus com destino a Berlim Oriental, perto da fronteira dos países, a delegação pode descer para fazer compras em lojas e gastar seus marcos ocidentais, privilégio para poucos, onde poderiam comprar itens como jeans, discos de música, cigarros e outros itens ocidentais. Eis que Lutz Eigendorf se distanciou do grupo e fugiu em um táxi em direção ao destino orientado por um dirigente do Kaiserslautern. Nessa fuga, talvez não planejada, Eigendorf deixava no lado Oriental sua esposa Gabrielle de 22 anos e sua filha Sandy com 2 anos idade.

A fuga de Lutz Eigendorf [10] foi tratada pelo Governo da Alemanha Oriental e por Mielke como alta traição, o jogador foi suspenso pela UEFA e FIFA por um ano devido ao abandono de seu time, mesmo com intensas negociações do Kaiserslautern para formalizar sua contratação. Simultaneamente, agentes da STASI procuraram a família de Eigendorf e interrogaram a sua esposa Gabrielle em busca de informações, mas ela não sabia de nada. Com esperanças de rever sua família, Eigendorf, por meio da imprensa ocidental, relatava o estado de vigilância e repressão permanente ao qual os cidadãos da Alemanha Oriental eram submetidos, mas mesmo assim não conseguiu reaver sua família. Inclusive, a STASI induziu Gabrielle a pedir divórcio de Eigendorf , e sua ex-esposa casou-se com um membro da polícia secreta da RDA. Do lado Ocidental, Eigendorf teria de reconstruir sozinho sua vida pessoal e esportiva. Paralelamente, a STASI infiltrou uma série de agentes em busca por Eigendorf, que foi transformado em inimigo público da RDA. Vale ressaltar que Lutz Eigendorf não foi o único caso de deserção e fuga: outros, como o treinador Jörg Berger, o meio-campista Norbert Nachtweih ou o goleiro Jurgen Pahl, também fugiram da Alemanha Oriental. Mas, a punição a Eigendorf serviria de exemplo para inibir novas fugas. Um destes agentes que foram designados para executar o “traidor” foi Karl-Heinz Felgner, um ex-boxeador da Alemanha Oriental e antigo conhecido de Eigendorf. Com o tempo, eles foram se reaproximando e Felgner, abastecendo de informações sobre o seu “amigo” para a STASI.

- O carro de Eigendorf após o acidente

O carro de Eigendorf após o acidente.

Pela Bundesliga, Eigendorf atuou pelo Kaiserslautern entre 1980 e 1982, marcando apenas 7 gols em 53 partidas, sem o mesmo destaque de quando atuava pelo Dínamo de Berlim. Em 1982, foi negociado com o modesto Eintracht Braunschweig, time pelo qual atuou apenas 8 vezes na liga de 1982/83 até seu acidente fatal. Assim, na noite de 5 de março de 1983, aos 26 anos de idade, Eigendorf colide com seu carro contra uma árvore em uma estrada nos arredores de Braunschweig.

Sua morte levantou na época uma série de suspeitas sobre o acidente, mas somente em 2000 um documentário produzido pela ESPN[11] levantou dados sobre a participação da STASI em seu suposto acidente automobilístico. As suspeitas aumentaram com a prisão Karl-Heinz Felgner por roubo a uma loja de conveniência, que em seu depoimento confessou que fora agente da STASI, e de um plano da mesma para assassinar Eigendorf, do qual ele, Felgner, não teve participação. Mas Felgner, levantou a suspeita de que Eigendorf fora envenenado por agentes da STASI e seu acidente fora forjado. Mas até hoje não existem provas conclusivas sobre a morte do promissor meio-campista que sonhava com o brilho no futebol alemão. Em 2015, foi lançado o livro Jogo livre: futebolistas da Alemanha Oriental[12] em fuga, de autoria de Frank Müller e Jürgen Schwarz, que relatam casos como o de Lutz Eigendorf, Norbert Nachtweih, Matthias Müller, Frank Lippmann, Falko Götz, Dirk Schlegel, Jürgen Sparwasser, Jörg Berger, dentre outros que fugiram ou tentaram viver outra vida longe da Alemanha Oriental.

Reprodução da capa do livro: "Jogo livre: futebolistas da Alemanha Oriental em fuga", de autoria de Frank Müller e Jürgen Schwarz.

Reprodução da capa do livro: “Jogo livre: futebolistas da Alemanha Oriental em fuga”, de autoria de Frank Müller e Jürgen Schwarz.

 

Agradecimento: Agradeço ao professor Elcio Cornelsen pela revisão deste texto, indicação de bibliografia e estímulo a redação deste breve artigo.

[1] http://www.panenka.org/miradas/muerte-al-traidor/

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Rep%C3%BAblica_Democr%C3%A1tica_Alem%C3%A3

[3]Para mais ver: HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX : 1914-1991. tradução Marcos Santarrita — São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[4] AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002. p. 110.

[5] http://trivela.com.br/como-o-futebol-explica-o-regime-da-alemanha-oriental/

[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Erich_Mielke

[7] http://www.dw.com/pt-br/1950-funda%C3%A7%C3%A3o-da-stasi-a-pol%C3%ADcia-secreta-alem%C3%A3-oriental/a-437618

[8]https://en.wikipedia.org/wiki/Lutz_Eigendorf

[9] https://www.publico.pt/2014/11/15/desporto/noticia/lutz-eigendorf-a-morte-de-um-traidor-1676314

[10] http://www.futebolmagazine.com/eigendorf-o-jogador-que-stasi-assassinou

[11]The curious case of Lutz Eigendorf – Part 1 – writer: Uli Hesse, from ESPN Soccernet

The curious case of Lutz Eigendorf – Part 2 – writer: Uli Hesse, from ESPN Soccernet

[12]  http://www.leipziger-fussballverband.de/cms2/index.php?section=news&cmd=details&newsid=685

Como citar

COSTA, Thiago Carlos. A trágica morte de Lutz Eigendorf e a sombria atuação da STASI no futebol da Alemanha Oriental. Ludopédio, São Paulo, v. 97, n. 25, 2017.