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A superficialidade do jornalismo esportivo diante de casos de racismo no futebol

Emerson Esteves

O jornalismo esportivo ainda trata o racismo no futebol com superficialidade. Para a monografia de conclusão do curso de jornalismo e em produções acadêmicas derivadas, analisei matérias entre os anos de 2016-2018 que serviram de base para o Relatório Anual da Discriminação no Futebol, utilizando como recorte matérias veiculadas na televisão. A investigação apontou para um resultado já esperado. Mesmo sendo inquestionável que o jornalismo esportivo – aqui o televisivo – aborda o racismo como o principal gancho para veicular as notícias visto que a maioria (75%) tratou do tema como o núcleo central da notícia, a forma como foi feito é passível de discussão e sofisticação.

Ao todo, 50% das matérias analisadas não entrevistaram os envolvidos nos casos de suspeita de caso de racismo. Ou seja, nem vítima e muito menos o acusado foram entrevistados quando a informação foi noticiada. Vale destacar que de todas as reportagens analisadas apenas uma ouviu um jurista para contextualizar o tema do racismo na sociedade e isso se relaciona diretamente com outro código de análise submetido às reportagens: houve menção da Lei de Racismo e Injúria Racial da Justiça Comum ou da Justiça Desportiva por parte do repórter/âncora? Em apenas quatro matérias houve a menção das leis antirracistas, a maioria dos conteúdos não apontaram o suposto caso de racismo como uma possível situação de crime e de penalização. Pelo contrário, foi comum ver que a situação foi retratada como uma polêmica, uma provocação do esporte ou um “lado triste do futebol”. 

Um apontamento importante que corrobora para a cobertura pobre acerca do racismo no futebol pelo jornalismo esportivo é o tratamento de inédito para cada novo caso que denunciado e noticiado. 11 matérias das 12 analisadas não fizeram qualquer relação e/ou menção do caso narrado com outros casos de racismo no futebol. A estatística indica que a cobertura de futebol em casos de racismo no futebol trata cada caso de forma isolada, sem ligação, mesmo que, por exemplo, exista um Relatório Anual de Discriminação Racial no Futebol que contabiliza o aumento ano após ano de denúncias de casos de suspeita de racismo no futebol. Tratar cada caso noticiado como o primeiro só confirma a existência de uma discriminação individual, entretanto joga para escanteio o aspecto histórico-social da estrutura e instituições racistas que são atuantes até hoje.

Isso me faz lembrar que nesta semana de novembro completa-se um ano do caso de injúria racial contra um segurança do Mineirão. Na ocasião, os irmãos Adrierre Siqueira da Silva e Natan Siqueira da Silva foram acusados de cuspir no rosto de Fábio Coutinho, segurança do estádio, Adrierre se dirigiu ao trabalhador – que é negro – com intuito de desprezá-lo, e proferiu a frase: “Olha sua cor!”.

Um ano depois, de acordo com apuração do site Superesportes, os agressores seguem impunes e pedem até indenização ao Atlético. Lembro que o caso foi bastante veiculado e comentado nas mídias sociais, entretanto não houve acompanhamento aos desdobramentos e se não fosse o marco de um ano da data ele passaria despercebido, apenas mais um “novo caso de racismo”. 

Um aspecto que fiz questão de verificar quando fiz essa pesquisa foi identificar se durante a narrativa o jornalista/repórter para se referir aos casos de racismo no futebol utilizou de adjetivos e superlativos para qualificar o caso. Isso se relaciona também a forma mais flexível do texto que os jornalistas esportivos podem utilizar para contar histórias, mas pensando até numa questão de infoentretenimento e “leifertização”. Para nenhuma surpresa, em 11 das 12 reportagens o repórter e/ou apresentador utilizou adjetivos para caracterizar o caso de racismo no esporte. Como, por exemplo, “polêmica”, “triste tema”, “o lado triste do esporte”. 

Precisamos sofisticar nossa abordagem e linguagem 

Conseguimos diversos avanços nos últimos anos em escrachar que o racismo é algo visível na sociedade mesmo quando ele adquire facetas invisíveis. Tanto o jornalismo como seu segmento no esportivo desempenham um papel fundamental nesse contexto. Seria uma falácia afirmar que não se fala de racismo no esporte dentro do jornalismo esportivo, inclusive a pesquisa apontou para isso, entretanto a forma que os processos acontecem precisam ser avaliados.

A baixa quantidade de entrevistas, a falta da menção que racismo é crime no Brasil somado à ausência do histórico de denúncias de casos e do uso de adjetivos e superlativos no texto, o que pouco se aprofunda sobre os reais efeitos do racismo, apontam para uma necessidade de sofisticação no tratamento do tema.

O jornalismo possui o poder de informar, mas não apenas. O jornalismo esportivo pode e deve construir pontes para discussões e diálogos mais efetivos e profundos, já que é um tema que atinge não apenas o esporte, mas toda sociedade. Assuntos como o racismo precisam ser contextualizados e objetivos o suficiente para que não sejam refutados, ainda mais em uma sociedade que custa a se assumir enquanto racista e enxergar diversas atitudes discriminatórias como “brincadeira” ou “provocação”.


Como citar

ESTEVES, Emerson. A superficialidade do jornalismo esportivo diante de casos de racismo no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 34, 2020.