115.2

Tempo de parar

Wagner Xavier de Camargo

No atual movimento em que a sociedade planetária entrou nos últimos tempos, de um consumo e produção rápidos de informação, principalmente subsidiados pelo capitalismo selvagem, pós-industrial e midiático, nós, seres humanos considerados em idade produtiva, temos medo de parar. Fazemos mil coisas ao mesmo tempo; contraímos compromissos sem sabermos, ao certo, se somos capazes cumpri-los; abarrotamos diariamente nossas agendas. No cotidiano, digitamos enquanto comemos, zapeamos a TV ao mesmo tempo em que falamos ao telefone, lemos rapidamente headlines de notícias que nos chegam aos olhos sem qualquer aprofundamento, respondemos mensagens de e-mails, redes sociais e aplicativos como quem funciona no automático. Nunca pensamos em parar. Tudo é urgente e “sob demanda”.

Assim funciona na vida e nos esportes. No auge de seus desenvolvimentos físicos, atletas não pensam em parar. Guga Kuerten, um dos maiores tenistas brasileiros de todos os tempos, teve que se aposentar das quadras devido a uma séria lesão no quadril. Recentemente declarou que, mesmo tendo energia e entusiasmo para tocar a carreira, necessitava parar porque a insistência poderia gerar problemas futuros de artrose. Em seu tricampeonato de Roland-Garros, Guga jogou com fortes dores na região do quadril, o que impressionou, inclusive, a outros tenistas do torneio. Também é impensável para construtoras e pilotos de Fórmula 1, que dominam os circuitos da modalidade, se retirarem frivolamente dos mundiais.

Dito de outro modo, pode-se pensar que há uma linha tênue entre ter que parar, querer parar e saber parar. Em geral as pessoas “têm que parar” frente a dadas circunstâncias que afetam profundamente suas vidas esportivas, por exemplo, quando são acometidas por uma grave doença ou deficiência, que as impossibilitam de prosseguir o que estavam fazendo. Foi o caso de Guga e a lesão de quadril, mas mais propriamente foi o da ginasta brasileira Laís Souza, que em treinamentos da prova de esqui aéreo para os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi-2014, acidentou-se gravemente na coluna vertebral, o que a tornou tetraplégica. Ou então foi igualmente o que ocorreu com Ayrton Senna, piloto brasileiro de Fórmula 1, que veio a óbito em acidente fatal no Circuito de San Marino, em Ímola (Itália), em 1994. Estes atletas tiveram, necessariamente, que parar suas atividades em decorrência de fatores externos às suas vontades.

08/08/16 – Ex-Atleta da ginástica, Lais Souza, visita as instalações do Rio Media Center na Cidade Nova RJ. Fotos: Francisco Medeiros/ME.

Há, no entanto, quem deseje parar de praticar esportes por algum motivo, mesmo estando no auge de suas carreiras ou num estado de boa performance esportiva. Pode-se lembrar da velocista norte-americana Helen Steffens que, vitoriosa nos 100 m rasos nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, teve sua sexualidade questionada e se tornou o primeiro caso de verificação de gênero numa competição olímpica. Tal fato gerou revolta na atleta, que decidiu se aposentar das pistas e dedicar-se, em anos seguintes, à administração esportiva na área do basquete. Ou ainda, é o caso de Adriano, um dos atacantes mais temidos do futebol mundial há cerca de dez anos, que ganhou a alcunha de “Imperador” pelo jogo implacável e estilo inconfundível, porém encerrou sua carreira aos 34 anos.

Adriano no Jogo das Estrelas 2018, Maracanã. Foto: Mowa Press.

No caso do futebol brasileiro, transformar-se num jogador de sucesso, que ganha em dólares ou euros e ter múltiplos (e milionários) contratos de propaganda, pode ser o sonho de muitos brasileiros-mirins (garotos, em maior proporção, e também de garotas que querem ser “Martas” na modalidade), porém, a coisa não é bem assim. Ou não se atinge o desejado estrelato, ou para quem chega nele, às vezes, parar pode significar uma mudança produtiva de rota, que talvez não esteja de acordo com as intenções dos negócios futebolísticos, mas se vincula ao estado subjetivo do sujeito.

E há, igualmente, o saber parar – algo talvez não muito elaborado e mesmo aplicado por parte da maioria das pessoas e dos/as atletas. Saber parar significa reconhecer que algo pode se interpor no campo da performance, das habilidades ou mesmo das práticas humanas. Saber parar, definitiva ou temporariamente, é um exercício de sabedoria, de autoconhecimento, no limite, um descentramento no pensar-se sobre si. É o potencial para uma ressignificação das atitudes, reelaboração de propósitos, ressemantização da vida. É possível que seja o caso recente do jamaicano Usain Bolt, um dos maiores velocistas da história do atletismo que, mesmo tendo medalhas e recordes conquistados em três Jogos Olímpicos e inúmeros Mundiais, decidiu parar de correr. Talvez o saber parar nesse caso envolva não macular seus recordes com marcas menos expressivas; ou talvez sua decisão não tenha relação com nada disso.

Capa do periódico El Gráfico sobre a despedida de Pelé. Foto: Wikipedia.

Importante registrar que entre ter que parar, querer parar e saber parar não há, necessariamente, uma coerência estabelecida. E nem deve haver. Às vezes, paramos por fatalidades, por desejo próprio ou por posicionamentos estratégicos situacionais. Antigamente os gregos exerciam o ócio criativo, uma prática muito interessante de insights que causaram o surgimento da Filosofia: fazer absolutamente nada, contemplar o mundo, ler textos aleatórios, testemunhar o que acontece dentro de si e questionar o que se passa no seu entorno. Disparar porquês inconsequentes e voluntariosos. Silenciar…

Pois é também tempo de parar para esta coluna. Tempo de desenvolver o ócio criativo grego em tempos atuais, com vistas a contemplar as belezas da vida, a gozar de férias autodeclaradas, para ler biografias de esportistas recém-publicadas, ou simplesmente não fazer nada. Afinal, o ócio será produtivo não apenas à coluna, mas à vida de quem a escreve. Bom início de ano às/aos leitoras/es do Ludopédio e até meados de março!

 

Dedico esta coluna a meu irmão, Rafael, que singelamente me lembrou da importância do parar!