112.12

Tempos de resistência!

Wagner Xavier de Camargo

Insônia, medo, aflição com respeito ao futuro: eis como me sinto. Na semana posterior ao primeiro turno das eleições gerais no país, frente à real ameaça de volta à ditadura militar por vias legais, dormi pouco, me alimentei razoavelmente e mal consegui me concentrar no trabalho. Como uma criança mimada que tende a não enxergar seus próprios erros, o país está prestes a entrar num abismo sem fim ao, talvez, escolher um presidente que defende a tortura e incita a violência generalizada contra mulheres e minorias. Diante desse cenário instituído, tenho que escrever um texto sobre esportes para esta coluna. E, assim, pensei em conectar duas histórias.

A primeira delas é sobre uma amiga próxima, que, inclusive, foi minha aluna num cursinho popular em fins dos anos 1990. Hoje é casada com um rapaz calado, porém simpático, que com ela constituiu uma linda família de três filhos. Dois são meninos e a caçula é uma menina, que por ter nascido prematura e ter-lhe faltado oxigênio na incubadora, teve sequelas cognitivas e motoras. Minha amiga, seu marido e os meninos de 10 e 7 anos estão fazendo MMA (Mixed Martial Arts), um esporte que se popularizou muito nos últimos tempos, particularmente pelo efeito midiático que teve.

MMA

Luta de MMA. Fonte: Flickr.

A prática do MMA tem proliferado país afora junto a pessoas de uma classe média, notadamente branca, conservadora e rasa. A ordem do dia deste esporte junto a tais pessoas é “dar porrada” e “se divertir”. Não importam orelhas esmagadas, unhas ou dedos quebrados, costelas trincadas ou joelhos torcidos, como me foi narrado por ela a partir do curto tempo em que estão na prática. Afinal, é um “vale-tudo” recreacional, que traz satisfação, família reunida e, de quebra, prepara os corpos para a vida.

No dia em que conversamos, tive duas tristezas ao ouvir seu entusiástico relato sobre o MMA e a aventura familiar. Uma, que apesar das intempéries relativas às lesões, eles seguiam firmes no propósito da atividade de luta já há quase seis meses (um absurdo tendo-se em conta que os garotos são crianças e seus corpos não estão preparados para essa violência contra eles). A outra tristeza materializou-se quando comentou o impulso motivacional para o MMA: “dar porrada em petralha comunista”, referência explícita a pessoas que votam no ou são simpatizantes do PT (partido dos trabalhadores).

Imediatamente me lembrei da outra história, filmada em documentário recente, que capta as vozes de um movimento em expansão em parte da Europa ocidental, intensamente registrado nos últimos três anos. Punching the city baseia-se em histórias reais, de pessoas simples, que têm praticado boxe em academias rudimentares, localizadas em bairros periféricos ou em zonas industriais abandonadas, em países como Itália, Grécia, Espanha, França, Inglaterra e Holanda. A maior parte do movimento é composta por pessoas que lutam contra uma vida precária, como imigrantes ilegais, jovens pobres desempregados, trabalhadores explorados e vulnerabilizados pela situação econômica imposta pelas políticas de austeridade na zona do Euro.

No entanto, a face do boxe neste documentário está muito longe da versão masculina (e hegemônica) do boxe que conhecemos. Como as cidades europeias pós-industriais enfrentam crises econômicas nunca vistas na história do capitalismo, tais pessoas são excluídas do acesso à cultura e mesmo da sociedade, ficando à deriva e sem conexões sociais. Elas vivem em cidades desumanizadas, claustrofóbicas, em crise, e são impossibilitadas de participar da vida da comunidade à qual, literalmente, (não) pertencem.

No filme-documentário argumenta-se que o boxe é o antídoto para o sentimento de impotência, de exclusão e contra a sensação de esmagamento e apagamento conferida pelos ricos, que desenvolvem tais espaços citadinos a fim de atenderem suas demandas, ignorando veementemente as necessidades sociais da maioria dos habitantes de classes sociais e condição inferiores.

Nos ginásios em que este boxe acontece, fora dos circuitos oficiais (como os da televisão e dos megaeventos esportivos que alavancam milhares de Euros), descobre-se que o boxe está longe de todos os estereótipos que o envolvem. Não é um boxe só para “machos”, mas uma prática de mulheres, de imigrantes, de idosos, de sujeitos excluídos. Acima de tudo, mostra-se que, apesar de muitas vezes os ambientes das artes marciais estarem vinculados a grupos de direita, esse boxe “alternativo” é antirracista, antissexista, anti-homofóbico, antissemita e, sobretudo, antifascista.

Eis, então, a junção das duas histórias, que trilham caminhos diferentes. Enquanto grupos minoritários e excluídos em partes da Europa já perceberam que a prática do boxe é a resistência para o existir, brigando por direitos no espaço urbano excludente de economias austeras, grupos de classe média no Brasil veem no MMA a chance de desferir golpes contra um “comunismo perverso”, basicamente imaginário, manifestando-se contra o “privilégio” dado aos despossuídos. Enquanto um grupo resiste e questiona a história dos homens insistindo na afirmação de suas existências, o outro perde a chance de buscar novos significados para suas ações esportivas que não sejam para legitimar a exclusão, a intolerância, a meritocracia e, no limite, a ignorância.

Raised_fist

Punho fechado e erguido: sinal de resistência. Foto: Tomas Gunnarsson/Wikipédia.

No momento em que ouvia a empolgação de minha amiga narrando suas sessões de MMA, me veio tudo isso à cabeça. Veio-me, também, algo que talvez lhe esteja passando despercebido: a filha pequena, que possui um atraso intelectual e certo comprometimento motor (ainda que leve), sofrerá as consequências desses atos impensados no futuro. Para quem ainda não se atentou ao mundo que nos cerca e no momento crucial de nossas existências (particularmente enquanto brasileiros/as), tenha consigo que a fatura da conta um dia virá e talvez seja tarde demais para pensar em quitá-la. O momento de atenção é agora. Os tempos são de resistência!