110.17

A teoria da brincadeira e o reinício das temporadas de futebol

José Carlos Marques

Neste mês de agosto, a temporada europeia de futebol tem reinício com a estreia dos campeonatos nacionais das principais ligas do continente. Aqui no Brasil, em que o calendário futebolístico é diferente, teremos o fim do primeiro turno do Campeonato Brasileiro também neste mês de agosto, na rodada que tem início no dia 18. O segundo turno começa logo no meio da semana seguinte.

Este recomeço constante das competições esportivas obedece a ciclos temporais e da natureza – daí o fato de termos o recesso de grande parte do futebol europeu justamente no meio do ano, no verão do Hemisfério Norte, e o recesso do futebol brasileiro nos meses de dezembro e janeiro, no verão do Hemisfério Sul.

A certeza de que campeonatos de futebol se renovam a cada ano é o que motiva torcedores a alimentar a esperança de que seu clube poderá superar ou ao menos repetir os feitos positivos da temporada anterior. Mas se o futebol mundial obedece assim ao ritmo das estações do ano, outro fascínio em torno das competições esportivas tem a ver com aquilo que o filósofo e pensador alemão Walter Benjamin decifrou no ensaio “Brinquedo e brincadeira – observações sobre uma obra monumental”, publicado em 1928 (no Brasil, está presente por exemplo na coletânea Walter Benjamin – Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. São Paulo, Brasiliense, 1985).

E o campeonato recomeça. Foto: Pedro Martins/Mowa Press.

Nesse texto pouco comentado aqui no Brasil, o não menos monumental Walter Benjamin (1892 – 1940) analisa a publicação “Brinquedos infantis dos velhos tempos – uma história do brinquedo”, publicada também em 1928 em Berlim, na Alemanha. Tal livro serve de mote para que o autor proponha uma renovação da teoria da brincadeira. Entre outras reflexões, a que mais nos interessa aqui é a afirmação de Benjamin de que a grande lei que rege o mundo da brincadeira em sua totalidade é a lei da repetição. A repetição para a criança é a essência da brincadeira, e nada lhe dá tanto prazer como brincar outra vez ou brincar de novo.

O pensador alemão conclui seu ensaio afirmando que é a brincadeira que está na origem de todos os nossos hábitos, e que é da brincadeira que nasce o hábito. A essência da representação, como da brincadeira, não é “fazer como se”, mas “fazer sempre de novo”. É a transformação em hábito de uma experiência devastadora. Interessante perceber o quanto Walter Benjamin antecipa em uma década o surgimento de outra obra seminal para compreendermos a natureza humana e o jogo que é o livro Homo Ludens (1938), do historiador alemão Johan Huizinga.

Tais considerações parecem-nos vir a calhar para compreendermos esse fetiche em moto contínuo de querermos repetir constantemente nossa experiência torcedora em torno dos campeonatos que recomeçam sempre na mesma época do ano. No caso da Copa do Mundo de Futebol, nada mais acertado do que ela só ocorrer de quatro em quatro anos, o que intensifica ainda mais o fetiche em torno de uma competição que não tem paralelo no mundo do esporte naquilo que ela desperta mundialmente em torno de um jogo de bola. Se a final do futebol americano no Superbowl é capaz de arregimentar os maiores valores da publicidade mundial, nada se compara com a mobilização de diferentes nações em todo o planeta quando a bola começa a rolar num Mundial de futebol.

Qualquer que seja a modalidade, entretanto, parece que o recesso esportivo faz mal àqueles mais aficionados. Nesse sentido, nada melhor do que reproduzirmos nossa audiência também de maneira cíclica, mesmo que nosso time tenha fracassado retumbantemente na competição anterior. É essa experiência devastadora que já se transformou em hábito para bilhões de pessoas em todo o mundo.