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Basebol, anos 1940 e o caso de amor de Terry Donahue

Wagner Xavier de Camargo

Terry Donahue era uma exímia batedora de basebol, que jogou no Redwings, de Peoria, no estado de Illinois, EUA, durante em fins dos anos 1940. No Dia Mundial do Orgulho e da Consciência LGBTI+, gostaria de trazer parte de sua história, que mistura esporte (o basebol), homossexualidade e um caso de amor apenas agora revelado. O extraordinário documentário que narra esta história foi recém-publicado no serviço de streaming da Netflix (A Secret Love ou Secreto e Proibido), que conta os últimos cinco anos de vida da jogadora ao lado da mulher, Emma M. ‘Pat’ Henschel.

Elas se encontraram ocasionalmente pela primeira vez numa gélida manhã de domingo, numa pista recreativa de hóquei, na cidade de Moose Jaw, quarta cidade em termos de tamanho, na província de Saskatchewan, Canadá. Ambas eram canadenses e Terry tinha 22 anos, enquanto Pat apenas 18. O ano era 1947 e, tanto uma quanto outra, mantinham casos fortuitos com rapazes de suas localidades. Nessa época Terry já morava em Chicago e jogava profissionalmente para o clube estadunidense dos Redwings.

Os Estados Unidos do pós-II Guerra viviam tempos de prosperidade. Houve uma explosão na aquisição de bens-de-consumo, que não estavam disponíveis durante os duros anos do conflito. Com isso a economia cresce e se desenvolve, com pleno emprego. Os estadunidenses apresentavam um dos maiores padrões de vida do planeta e queriam mostrar isso a todas as nações. O fim dos anos 1940 foi marcado pelo governo de Harry Truman, o famoso pai da Doutrina Truman, responsável pela expansão do capitalismo, contra o socialismo e pela cooptação de países com economias frágeis. Havia um início de acirramento entre os blocos capitalista e socialista, desencadeando o que ficou conhecido como Guerra Fria.

No plano interno (nacional) vivia-se bem, mas era uma sociedade racista, assentada na discriminação racial de negros. Particularmente esses faziam pressão para terem tratamento igual perante a lei, uma vez que sofriam décadas seguidas de discriminação e isso afetava, de modo irremediável, suas vidas. No documentário, Terry relata que apesar da boa vida que vivia, fugir do padrão heterossexual e viver como lésbica “não era bom negócio”. E, por causa disso, durante o tempo em que conviveu com atletas jogadoras, nunca se assumiu para elas. Alguns historiadores registram que nesse momento da história norte-americana é que tem início um forte movimento por direitos civis, que começa com os negros e vai se expandir para outros grupos minoritários – inclusive travestis, lésbicas e gays anos mais tarde.

Terry e Pat viveram o que chamaram de “vida dupla” (double life), conforme expressão da segunda, que disse no documentário se admirar ter vivido por tanto tempo dessa forma. Mesmo para ambas as famílias, elas eram apenas amigas que dividiam moradia em Chicago, com a argumentação de que a cidade estava ficando cara para sobreviver, devido à expansão urbana dos anos 1950.

A homossexualidade era considerada doença mental e permaneceu até 1973 no manual dos transtornos mentais. Era comparada com zoofilia, pedofilia e mesmo necrofilia. O contexto social daqueles anos mantinha vigilância constante em relação à homossexualidade. Pessoas que não se filiavam à heterossexualidade dominante tinham que viver suas sexualidades no segredo, ou de modo escondido, em lugares específicos. Já na época vão se iniciar as batidas policiais em bares nos subúrbios, sobre os quais se suspeitava serem de frequência lésbica ou gay (os denominados guetos). Isso vai ser tolerado pela comunidade até 1968, quando em 28 de junho daquele ano acontece uma revolta dos/as frequentadores/as de tais bares, que permanecem na rua durante dias, contra o que consideravam abuso de autoridade e perseguição à sexualidades desviantes. A chamada “Revolta de Stonewall” (bar nova-iorquino onde tudo aconteceu) passou para a história como o Dia Mundial do Orgulho Gay – hoje Orgulho e Consciência LGBTI+.

Equipe Rockford Peaches em 1952. Fonte: Wikipédia

Terry ajudou a fundar a All-American Girls Baseball League, ou Liga Americana de Basebol para Mulheres. Ela era uma excelente “catcher” (receptora) e jogou profissionalmente de meados de 1946 a 1950. Philip Wrigley, que era dono do Cubs na época (um estádio de basebol localizado em Boystown, em Chicago), teve a ideia de encher os estádios com mulheres jogadoras de basebol. E depois de uma seleção entre 200 garotas que jogavam, inclusive, softbol, ele escolheu 60 para formar os times da liga. Terry estava entre elas. Quando conheci o Wrigley field, em 2006, jamais imaginei que um dia conheceria a história de uma jogadora lésbica tão famosa e que tinha jogado ali.

Chegando em Chicago por convite de um olheiro que a viu jogando no meio oeste canadense, Terry ainda precisou passar por um teste de agarrar arremessos incessantemente rebatidos. Segundo ela narra no documentário, pegou uma bola atrás da outra e ficou imensamente feliz quando foi draftada (selecionada) para compor a equipe do Peoria, os Redwings. Jogou por quatro anos, sem ser substituída.

Descobri que parte dessa história foi retratada num filme chamado A league of their own (Uma equipe muito especial), de 1992, que me lembro ter assistido como um jovem recém-ingressado na Universidade, naqueles anos. Além do já conhecido Tom Hanks, havia também Geena Davis e Madonna no elenco. Filme de sessão da tarde, meio bobinho, porém com uma história interessante sobre mulheres no esporte, algo não muito comum à época.

O sensível documentário entrelaça as histórias de modo sensível e até romântico. Mostra o casamento de Terry e Pat, no aniversário de 90 anos da ex-atleta. Viveram a maior parte dos 71 anos juntas em Chicago, porém, mais recentemente, acabaram se mudando para próximo da família de Terry, em Edmonton, Canadá. Foi uma relação homoafetiva em segredo, para se preservarem enquanto pessoas e mesmo enquanto mulheres numa sociedade machista e lesbofóbica. Quando jovens, participavam de festas ou mesmo das comemorações de vitória da equipe, mas sempre como boas amigas. É impressionante perceber como do armário da sexualidade é pesada na definição do próprio ser.

O caso de Terry e Pat nos afeta de várias formas, particularmente em tempos de pandemia e desesperança na humanidade. Uma das falas mais significativas do documentário, quando elas estavam com alguns familiares procurando um quarto numa casa de cuidados para idosos, e a responsável pelo local diz: “nós não temos casais LGBT aqui”. Terry imediatamente reage e responde: “Mas vocês têm problemas com isso? Pois nós somos um casal e nos amamos”. Num mundo em que proliferam ataques racistas e homofóbicos, a segurança da intenção da fala de uma senhora à beira dos 90 anos é uma lufada de conforto em nossos corações.

Equipe de basebal de mulheres na década de 1910 nos EUA. Fonte: Wikipédia

Que este dia 28 de Junho de 2020 seja, de fato, o Dia Mundial do Orgulho e da Consciência LGBTI+. Não apenas para quem essa data afeta diretamente, e sim para todas as pessoas.  Um dia para celebrar a diversidade de amores, a pluralidade de identidades, as várias formas de amar e mesmo a multiplicidade de ser e estar no mundo. Que outras histórias como esta apareçam, preferencialmente no esporte, e nos mostre que mesmo nele pode haver tolerância, sexualidades não binárias ou heteronormativas, e pessoas que se amam em meio a tacos, gramados e poeira, porque simplesmente gostam disso.

Agradeço à amiga Anahí Guedes pela sugestão do documentário.


Para quem se interessar:

Documentário A secret love (Secreto e Proibido), 2020. Diretor: Chris Bolan. 1h 22 min. NETFLIX.