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The Bangu Athletic Club game

Mariana Vantine de Lara Villela

A Netflix lançou no final de março um prato cheio para discussão de estudiosos e amantes em geral do futebol. Entre críticas boas e ruins, a série The English Game levantou diversos debates acerca das origens do futebol e de sua profissionalização. Existem algumas formas de fazer um paralelo sobre esse processo na Grã-bretanha e no Brasil, mas aqui você irá ler sobre a história do Bangu Atlético Clube e sua relevância para a transformação do esporte em fenômeno de massas nas terras tupiniquins.

Começamos antes de tudo, fazendo justiça à Escócia, que na história do futebol costuma ser ofuscada pela vizinha Inglaterra. No outro lado do oceano, temos uma trama protagonizada por Fergus Suter, um escocês que vai à Inglaterra para jogar futebol e ganhar dinheiro. É exatamente da Escócia também, que chega o operário Thomas Donohoe ao Rio de Janeiro, para trabalhar na Fábrica Bangu. “Seu Danau”, como era conhecido, foi responsável como muitos acreditam, por realizar uma das primeiras partidas de futebol em território brasileiro. Em 1894, pediu a sua mulher que vinha de mudança com seus filhos, que trouxesse a bola para poder jogar. Assim, anos depois, em 1904, foi fundado o “Bangu Athletic Club”.

Time de Darwen na série The English Game. Foto publicada em 12 de março de 2020 por Oliver Upton.

Tanto no Brasil quanto na Inglaterra, o futebol é reconhecido inicialmente como uma atividade da elite. A série demonstra um embate entre a alta classe, que via na profissionalização do esporte uma popularização e mistura indesejada, e a classe operária, que por sua vez tinha nele uma forma de ascender e de certo modo ter mais espaço e voz. No caso brasileiro, a disputa pela profissionalização tem um fator crucial, que é o racismo. E nesse ponto, o Bangu reafirma sua importância no processo.

Nos arredores da Fábrica Bangu, a prática do futebol não durou muito tempo como exclusiva dos britânicos. Os operários brasileiros foram sendo incorporados ao time da fábrica, e entre eles estava Francisco Carregal, que em 1905 se tornou um dos primeiros negros a jogar por um time brasileiro. Obviamente, a elite detentora da liga não viu com bons olhos um time suburbano, formado por operários, entre os quais negros, ganhar espaço e conquistar o campeonato carioca de 1906. Era uma verdadeira afronta aos rapazes de bons estudos e modos.

Foram anos de guerra, que contaram com a saída do alvirrubro carioca em 1907 da Liga Metropolitana para a criação de uma Liga Suburbana de futebol, seu retorno em 1909, e a famosa “lei do amadorismo” em 1917. Elaborada na tentativa de barrar a profissionalização e com um caráter discriminatório, como demonstra o veto aos analfabetos, o que incluía grande parte da população brasileira, e um claro recorte racial.

Após anos de perseguição e luta, com um processo muito mais longo do que o apresentado em The English Game no caso inglês, em 1933 finalmente foi realizado o primeiro campeonato carioca profissional. E de maneira épica e sofrida, como o Blackburn no episódio final (perdão pelo spoiler), o Bangu foi consagrado campeão daquela edição.

Entre as histórias futebolísticas com um plano de fundo econômico industrial, na terra de Elizabeth e de Marta (cada um com a rainha que merece), recordemos sempre que o futebol é peça importante na luta de classes. A história continua a ser escrita, e cabe a nós resgatar um pouco do espírito banguense do início do século, para bater de frente novamente com uma elite que insiste em fazer do pobre no futebol apenas uma peça de mercadoria entre os clubes, e limitar os que não servem para isso a meros espectadores de TV. O futebol há de ser popular e para todos.

 

E para essa leitura sobre a luta de classes no futebol, Working Class Hero do John Lennon para acompanhar:


Revista Pelota em parceria com o Ludopédio publica nesse espaço os textos originalmente divulgados em sua página do Medium.