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The Celtic Football Club e o Nacionalismo Irlandês na Escócia

Matheus Henrique Silva de Rezende, Luiz Marcelo Viegas

A relação entre os povos irlandeses e escoceses é bem antiga, ambas as regiões fazem parte do “Mundo Gaelico”. Os clãs, tanto da Irlanda quanto da Escócia, formaram por séculos uma irmandade diferente dos bretões, saxões e normandos que, no decorrer do tempo, vão habitando o restante da Grã-Bretanha. O presente artigo busca demonstrar como se criou a identidade característica do The Celtic Football Club, time de futebol da cidade escocesa de Glasgow e sua relação com a Irlanda.

As ações tomadas pela Coroa Inglesa para dominar a região no séc. XVI, principalmente nos reinados de Henrique VIII e de Elizabeth I, com destaque para a Guerra dos Nove Anos (1594-1603), quando, no que é chamado pelo sociólogo Eoin Ó Néill (2013) de “desagregação do mundo Gaélico”, as forças militares da rainha derrotaram a confederação Católica que, liderada por Hugh O’Neill, havia se rebelado contra a crescente influência inglesa na região do Ulster – futura Irlanda do Norte. Porém, apesar da crescente migração de protestantes para a ilha e do favorecimento destes por parte do Estado, uma vez que as terras mais produtivas eram direcionadas para eles enquanto os terrenos menos férteis ficavam com os católicos, a Igreja Anglicana não conseguiu criar raízes naquela região, permanecendo a maioria da população fiel a Roma e, por esta razão, seus membros considerados como cidadãos de segunda classe. Para piorar a situação, nos anos de 1845 e 1847 houve uma crise de fome, resultado de problemas na colheita de batatas que, segundo o autor Miguel Gomes Ramos (2013), causou a morte de 20% da população irlandesa, mesmo com o país tendo estoque de cevada suficiente para alimentar a todos. Isso ocorreu porque a cevada era exportada para Inglaterra pelos maiores proprietários de terras, em sua maioria protestantes ingleses. Entre 1841 e 1920, cerca de 5 milhões de irlandeses emigraram para os Estados Unidos da América, para outras regiões do império britânico e da própria Grã-Bretanha.

Os irlandeses que migraram para as terras escocesas se concentraram na região chamada de “Cinturão Central”, correspondente às cidades de Glasgow e Edimburgo. Lá, a comunidade irlandesa fundou respectivamente o The Celtic Football Club (1888) e o Hibernian Football Club (1875). Destacamos também o Dundee United, fundado por irlandeses católicos na cidade de Dundee, na costa leste do país. Segundo o sociólogo escocês Richard Giulianotti (2013, p.44),

“o Celtic foi fundado em 1888 para dar assistência aos católicos pobres, com o forte foco do orgulho Irlandês-Católico e de algumas formas de nacionalismo irlandês”.

Imagem: Pikrepo

Como retratos desse nacionalismo, estão presentes no escudo do The Celtic Football Club, as cores verde e branca, que na bandeira irlandesa representam os católicos do país e o Shamrock ou, como conhecemos, o trevo que, segundo a tradição irlandesa, foi o modo como São Patrício – o responsável pela cristianização da Irlanda – explicou aos nativos a Santíssima Trindade.

O nacionalismo irlandês moldado no embate com o protestantismo inglês é fator importante na criação da rivalidade com o Rangers, outro time de futebol da cidade de Glasgow, mas com ligações com a ala protestante do país. Dessa forma, podemos observar a junção dos símbolos nacionais irlandeses à uma identidade católica nos embates do Celtic contra os Rangers.

Memorial ao Brother Walfrid. Foto: Wikipédia

Não podemos falar do Celtic sem citar o “The Old Firm” – nome para o clássico contra o Rangers -, realizado pela primeira vez em 28 de maio de 1888 com uma vitória celta por 5×2. Segundo Tiago Leme, em matéria publicada na revista Placar em outubro de 2008, a origem da “Velha Firma” é controversa, sendo a versão mais aceita a que diz que a rivalidade começou na final da Copa da Escócia de 1909 em uma partida onde houve uma suposta combinação de resultado para ambas as equipes aumentarem a arrecadação com mais uma partida. Após o final do jogo ocorre uma briga generalizada, ficando a copa sem um campeão naquele ano.

Segundo o sociólogo Michael Pollak (1992, p.204), “a construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros […]”. Os torcedores do Rangers, se não criaram, fortaleceram uma identidade unionista e protestante para negar a identidade republicana e católica do Celtic. Contudo, você pode estar se perguntando agora, porque os torcedores azuis e não os celtas que criaram sua identidade negando a do outro? Pensamos que o nacionalismo, a visão republicana, o catolicismo e outros elementos que compõem a identidade do Celtic são centrados na Irlanda, e vieram com os imigrantes que fundaram o clube. Parece que o Celtic está “virado” para as Irlandas e de costas para a Escócia. Isso se deve, ainda segundo as ideias de Pollak(1992), pela memória herdada, marcada pelos traumas da segregação transmitida por séculos. Muitos dos torcedores do Celtic viveram não no espaço, mas no tempo dos “The Troubles” na Irlanda no Norte, onde viram os traumas de seus antepassados se repetirem. Isso não quer dizer que a identidade celta não é também uma negação à identidade do Rangers, porém, a memória coletiva exerce maior influência nessa construção. Podemos observar essa representação nas arquibancadas do Parkhead, com as cores que os torcedores ostentam, as bandeiras da República da Irlanda, ressaltando a memória ainda viva dos conflitos. 

O clássico “The Old Firm”. Foto: Wikipédia

Outro ponto chave são os já citados conflitos sectários da Irlanda do Norte, ou, “The Troubles” (1968-1998), que se iniciaram com a NICRA (Northern Ireland Civil Rights Association) que, segundo Miguel Gomes Ramos (2013, p.43) “foi o organismo responsável pelo Protesto de Derry em 5 de Outubro de 1968”, gerando grandes distúrbios no país e que chamaram a atenção de todo o mundo sobre o que lá se passava. A resposta Unionista veio com o banimento da marcha pelos direitos civis na cidade de Derry, e repressão da Royal Ulster Constabulary – força policial da Irlanda do Norte -, e o envio de tropas britânicas para Belfast. Esse contexto favoreceu o I.R.A, sigla para Irish Republican Army, ou, Exército Repúblicano Irlândes em portugês, e seu discurso de “Protetores da comunidade Católica”. Como relata Tiago Leme, ainda é possível ver e ouvir nas arquibancadas no estádio do Celtic, cânticos em referência ao grupo, como a canção “Go on Home British Soldiers”, do grupo de música tradicional irlandesa, The Wolf Tunes, que diz o seguinte: “If you stay British Soldiers, If you stay. You’ll never ever beat the I.R.A …” (Se vocês ficarem soldados britânicos, se vocês ficarem. Vocês nunca irão derrotar o I.R.A…Tradução Nossa), ou com a canção do mesmo grupo, “Celtic Symphony”, com uma refrão que diz: “ Ooh ah up the RA, say ooh ah up the RA…” (Ooh ah para cima exército republicano, diga ooh ah para cima exército republicano… Tradução Nossa).

Você pode estar pensando que o clube é bastante sectário e que, como seu rival em Glasgow, demorou a permitir jogadores protestantes de vestir o fardamento celta alviverde com o Shamrock bordado ao peito. Porém, desde, no mínimo, a década de 1950, é permitido que protestantes joguem pelo clube. Como exemplo, citamos aqui Jock Stein que, além de atuar pelo Celtic como jogador, também foi o treinador dos “The Lisbon Lions”, como ficaram conhecidos os atletas que conquistaram o continente em 1966-67, e um dos maiores jogadores da história da Escócia, Kenny Dalglish que, na infância, foi torcedor do Rangers.

Estátua de Jock Stein no Celtic Park. Foto: Wikipédia

Em nosso entender, o caso do Celtic é um tanto quanto peculiar, pois, na maioria dos casos que clubes de futebol encarnam ideais nacionalistas, como é o caso do Barcelona na Catalunha e do Athletic Club de Bilbao no País Basco, esse ideal se refere ao território em que esse clube está situado. Porém, como citado anteriormente, o Celtic é uma lembrança das contradições do Reino Unido; é uma marca que está longe de se cicatrizar da política inglesa em relação a ilha vizinha e das perseguições promovidas aos católicos pelos monarcas ingleses nos séculos XVI e XVII.

Referências

GIULIANOTTI, Richard. “Globalização cultural nas fronteiras – o caso do futebol escocês“. História: Questões & Debates, v. 39, n. 2, p.41-64, 2003.

LEME, Tiago. Futebol, política e religião. Placar n. 1323. Editora Abril, pp. 96-97, outubro de 2008.

LIMA, Dyego. Jock Stein, o protestante que se tornou “Deus” entre os católicos. Ludopédio. São Paulo, v. 134, n. 49, 2020.

NÉILL, Eoin Ó. “Cruzando, construindo e atenuando fronteiras: identidades, formação do Estado e o fim da Irlanda Gaélica“. Anais do SILEL. Vol. 3, n. 1, EDUFU,2013.

POLLAK, Michael. “Memória e identidade social“. Revista Estudos Históricos, v. 5, n. 10, p. 200-215, 1992.

RAMOS, Miguel Gomes. O Conflito Anglo-Irlandês. Aspetos políticos e religiosos. 2013. Dissertação de Mestrado. Universidade de Évora.


Como citar

REZENDE, Matheus Henrique Silva de; VIEGAS, Luiz Marcelo. The Celtic Football Club e o Nacionalismo Irlandês na Escócia. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 8, 2020.