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The Flower of Scotland

Victor Sá Ramalho Antonio

No próximo dia 18 de setembro, a Escócia passará por um plebiscito que colocará a velha questão à população: independência ou permanência no Reino Unido?

Consolidado no século XVI, o Reino da Escócia viveu separado do Reino da Inglaterra até 1707, quando o rei escocês Jaime VI herdou o trono da Inglaterra, unificando as duas coroas. Com o Ato de União de 1707 nascia o Reino Unido e se encerrava o período de independência política da Escócia. A reforma protestante do calvinista John Knox, em 1560, a influência dos católicos irlandeses e a resistência da fala céltica nos rincões do país constituem elementos fundamentais da identidade escocesa. Mas, foi com o desenvolvimento da economia industrial no século XIX e a consequente circulação de jovens educados na Inglaterra ou mas próprias instituições de ensino da elite local que a difusão das práticas esportivas modernas, em especial dos footballs, regrados e sistematizados a partir das velhas práticas de folk football, ganhou lugar.

Reprodução.

O papel desempenhado pelo Football Association nas relações entre os distintos grupos sociais na Escócia é notório, destacadamente pela rivalidade do Old Firm entre Rangers (clube protestante, vinculado aos defensores da união com a Inglaterra e associado às classes médias educadas) e Celtic (clube católico, com fortes vínculos com movimentos de independência e próximo das classes menos privilegiadas) em Glasgow, outrora conhecida como a “Segunda cidade do Império”.

Para além das rivalidades clubísticas, o futebol também se constituiu, desde o século XIX, como um aglutinador da identidade escocesa por meio da seleção nacional, que rivalizou em igualdade com a Inglaterra desde o início das partidas internacionais, em 1872, um ano após outro football organizar o mesmo confronto entre selecionados nacionais.

Em 1871, Escócia e Inglaterra entraram em campo em Edimburgo, capital escocesa, para uma partida de rúgbi (Rugby Football), dando início a uma longa história de rivalidade, reforçada em 1879, com a oferta de uma taça ao vencedor anual do confronto entre os lados branco e azul do Império. A Calcutta Cup, oferecida pelo extinto clube indiano Calcutta FC, se tornou referência no terreno do esporte britânico e, em 1883, a ingleses e escoceses se juntaram irlandeses e galeses para as disputas anuais do Home Nations Championship, posteriormente Five Nations – com a inclusão da França, em 1909 – e hoje Six Nations – pela adição da Itália, em 2000.

Flower of Scotland

Introduzido nas escolas escoceses ainda nos anos 1850, o rúgbi se disseminou principalmente dentro dos círculos da elite fundiária, da burocracia estatal e da alta burguesia escocesa, sobretudo ao redor da capital Edimburgo, bastião da prática do esporte no país. Em contraste, em Glasgow, cidade industrial, foi o futebol que rapidamente se disseminou sobretudo entre a classe operária, com o rúgbi se mantendo restrito a alguns clubes da elite local. O forte desenvolvimento do rúgbi nas pequenas cidades de economia manufatureira têxtil na fronteira entre Escócia e Inglaterra (a “Scottish Border”), inclusive entre as classes populares, criou uma divisão esportiva patente no país, com Glasgow irradiando sua influência em prol do futebol e Edimburgo e a “Scottish Border” concentrando poder no rúgbi. A invenção, em 1883, do rugby sevens, a versão reduzida do rúgbi (rugby union), em Melrose, na “Border”, e as presenças do estádio nacional de futebol em Glasgow, o Hampden Park, e do estádio nacional de rúgbi em Edimburgo, o Murrayfield, são emblemáticas à geografia do esporte escocês. No que diz respeito às regras do rúgbi, o sevens não foi a única grande contribuição escocesa ao jogo de origem inglesa. Anos antes, já havia partido das escolas escocesas a redução do número de jogadores em campo de vinte para quinze, regra implementada em 1876 pela RFU inglesa.

Orientadas pelos ideais da “Cristandade Muscular”, as escolas da elite calvinista escocesa fortemente apoiaram a prática do rúgbi, compreendida como de grande valor moral. Conservador e exclusivista, o rúgbi em Edimburgo e Glasgow se manteve atreladoaos círculos mais educados da sociedade escocesa se mantiveram ainda mais rígidos na Escócia do que na Inglaterra, sendo que quatro dos oito clube fundadores da SRU, a União Escocesa de Rúgbi, em 1873, sendo clubes restritos às comunidades de ex-alunos de escolas de elite. Outros três clubes eram ligados a universidades e apenas um de filiação aberta: o West of Scotland, da alta sociedade de Glasgow.

Em contraste com o exclusivismo do rúgbi das grandes cidades escocesas, na “Scottish Border” a influência de ex-estudantes das escolas de Edimburgo no comércio e nas manufaturas disseminou o rúgbi entre todas as classes sociais, criando um ambiente no qual “as classes sociais se misturava, dos patronos e bispos da cidade ao pedreiro e ao lavrador” (WILLIAMS, 1989).

A manutenção da proibição ao profissionalismo em todo o mundo do rúgbi, do início até 1995, os jogos de seleções ganharam preponderância no rúgbi como centrais ao esporte. Em torno da Calcutta Cup e do (Home/Five/Six Nations) Championship, a identidade escocesa foi e vem sendo há mais de um século celebrada, das arquibancadas de Murrayfield ao pubs londrinos ao redor de Twickenham.Mas, a ostentação da cruz de Santo André, do cardo e do azul marinho não se opõem à noção cara ao rúgbi escocês da britanidade, celebrada periodicamente com a formação dos British and Irish Lions (Leões Britânicos), a seleção composta por atletas de Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda, que viajam aos dominions meridionais do Império para enfrentar australianos, neozelandeses e sul-africanos como uma equipe única, de iguais no discurso, mantendo simbolicamente a coesão do Reino Unido, fundamental ao pensamento das elites dirigente, seja da Inglaterra, seja da Escócia, que dividem tanto as instituições de ensino, suas almas máteres, como a bola oval, seu espaço de sociabilização.

Bandeira da Escócia.

O constante intercâmbio de atletas escocesas na era amadora com universidades inglesas, notadamente Cambridge e Oxford, potências no rúgbi que proviam jogadores para todas as seleções das Ilhas Britânicas, atenuou de certa maneira a rivalidade. “Rivalidade nacional no rúgbi era amigável, mas no futebol era fanática” (HOLT, 1992). Em outras palavras, instituições unificadoras e afirmadoras de uma britanidade, como as universidades e os colégios protestantes, a protestante Igreja da Escócia e os British and Irish Lions, ajudaram a moldar o rúgbi escocês de forma determinante, coexistindo com os espaços de afirmação de uma identidade escocesa autônoma da Calcutta Cup e do Six Nations.

Hoje, já há quinze anos sem conquistar o máximo título europeu, e com poucas persectivas de retornar cedo ao lugar mais alto do Six Nations, o rúgbi escocês canta e remomora as glórias obtidas sobretudo entre o fim do século XIX e a Segunda Guerra Mundial, quando “O Cardo”prosperou, conquistando onze de seus catorze títulos.O quarto lugar na Copa do Mundo de 1991, após sofrida derrota por 9 x 6 para a Inglaterra na semifinal, a a última conquista do Six Nations em 1999, no último ano do formato Five Nations, antes do ingresso da Itália e estabelecimento do novo Six Nations, marcam os atos finais de uma última grande geração do rúgbi escocês, de Gavin Hastings e Gregor Townsend.

Ainda assim, Murrayfield segue enchendo suas numeradas para cantar “The Flower of Scotland”, composto em 1974 para relembrar as vitórias escocesas sobre os ingleses no século XIV, e tornado tradição pelo rúgbi, vinte anos antes de ser adotado pelo futebol. Pela união ou pela independência, a autoconsciência da identidade escocesa tem no rúgbi um espaço denso de manifestação.

BIBLIOGRAFIA
HOLT, Rcihard. Sport and the British: a Modern History. Oxford: Clarendon Press, 1992.

HUW, Richards. A Game for Hooligans: The History of Rugby Union. Edinburgh: Mainstream Publishing, 2007.

WILLIAMS, Gareth. “Rugby Union”. In: MASON, Tony. Sport In Britain. Cambridge: Cambridge University Press, 1989.