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Tom Waddell e a diversidade sexual no esporte

Wagner Xavier de Camargo

Thomas Waddell foi um atleta estadunidense que, devido à intensa prática esportiva durante a infância e juventude, desenvolveu apresso pelas modalidades do decatlo moderno, um esporte que aglutina dez práticas físicas do atletismo[1]. Este aspecto de sua vida garantiu a participação nos XIX Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968. O sexto lugar alcançado entre 33 competidores do decatlo e a quebra do recorde de cinco de suas próprias marcas nesta prova não mereceriam mais do que uma nota de pé de página em algum Anuário Olímpico ou alguma menção nos livros-textos sobre Olimpíadas. No entanto, o pioneirismo de Waddell vai muito além disso.

Tendo vivenciado a Revolução Sexual dos anos 1960-70 e seus desdobramentos relativos à luta pelos direitos dos negros e de grupos excluídos nos Estados Unidos, Waddell se engaja na militância homossexual e dos direitos humanos – seu protesto contra a ação racista do Comitê Olímpico Estadunidense em punir John Carlos e Tommy Smith pelos gestos de punhos cerrados no pódio em 1968, em referência direta ao Black Power, é uma prova disso[2]. Nesse contexto, e ao longo dos anos, desenvolve uma ideia que se transformaria num dos grandes marcos de visibilidade para o hoje chamado “Movimento LGBT+” – movimento político de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, pessoas transgênero, queer, intersexo e demais.

Em outras palavras, Waddell conseguiu canalizar as insatisfações sobre a falta de visibilidade dos grupos excluídos no esporte e pensou na criação de um campeonato multiesportivo baseado na conclamação das identidades sexuais e de gênero a partir de suas expressões esportivas. Após anos de planejamento, com a ajuda de amigos/as e a própria comunidade LGBT+ de São Francisco, Waddell consegue realizar a primeira edição dos então nominados Gay Games.

Considerado, portanto, o “pai dos Jogos Gays” (BOSCH; BRAUN, 2005, tradução livre), foi a partir de sua iniciativa que tais jogos passam a uma existência institucionalizada de práticas esportivas de e para sujeitos, cujas identidades sexuais e de gênero iam além das heterossexuais. Waddell idealizou os Gay Games como “um festival direcionado a homossexuais, porém não restritivo a outras orientações; um evento concebido para promover o orgulho gay e o ideal Olímpico tradicional: ‘educar pelo esporte para um melhor entendimento do mundo’” (WADDELL; SCHAAP, 1996, p. 5, tradução livre).

Gosto de fazer uma comparação, que é justa e possível: se traçássemos uma história paralela dos Gay Games ao movimento do esporte Olímpico e Paralímpico, teríamos que Thomas Waddell significa para estes jogos o que Pierre Di Fredy (ou Barão de Coubertin) representou aos Jogos Olímpicos e o que Ludwig Guttmann significou aos Paralímpicos. Assim como Coubertin foi o responsável por encabeçar um processo de reedição do esporte na modernidade em fins do século XIX e Guttmann viu-se encarregado de iniciar nos anos 1950 o que atualmente conhecemos como Paralimpíadas, Waddell foi o idealizador de um movimento de sujeitos não heterossexuais, que clamavam por um lugar de visibilidade dentro do mundo esportivo.

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Tom Waddell, o idealizador do Gay Games.

Ele defendia uma prática inclusiva, não heterossexista, não comercial e não competitiva, por meio da qual a chamada “igualdade formal de chances” – que, no esporte convencional, separa homens e mulheres em categorias rígidas em nome da ‘justiça esportiva’ –, não pudesse prevalecer excluindo corpos sem habilidades técnicas específicas ou sem identificação de gênero (ou sexual) definida.

Pois eis que, no início de agosto de 2018 ocorreu, em Paris, a 10ª edição dos Gay Games, uma competição multiesportiva amadora para sujeitos LGBT+, que geralmente envolve mais de 10 mil atletas inscritos e aproximadamente 2 a 3 mil voluntários locais (CAMARGO, 2018). Se há uma informação que poucos sabem é quem idealizou tais jogos e qual a importância do pioneirismo de Tom Waddell.

De uma proposta idealista, os Gay Games passam a ser geridos e organizados pela Federação dos Gay Games e ganham, sobretudo, uma dimensão mercadológica, com contratos de publicidade junto à iniciativa privada, venda da logomarca em produtos via internet e mesmo comercialização da sua brand junto às cidades que almejam organizar uma edição dos Jogos (CAMARGO, 2016). Falecido por complicações relativas ao HIV e à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), em 1987, Waddell jamais imaginaria que sua criação se transformasse tanto.

Do pronunciamento na abertura da primeira edição no ano de 1982, em São Francisco, restou apenas um vídeo que é apresentado, rapidamente, nas Cerimônias de Abertura das edições dos Gay Games onde quer que aconteçam. Waddell ainda vive e seu legado é nossa eterna luta pela presença da (e respeito à) diversidade sexual nos espaços esportivos!

NOTAS DE FIM

[1] 100 m rasos, salto em distância, arremesso de peso, salto em altura, 400 m rasos, 110 m com barreiras, lançamento de disco, salto com vara, lançamento de dardo e 1500 m rasos.

[2] Black Power foi um movimento entre pessoas negras no Ocidente, principalmente nos Estados Unidos. Vigorou entre o final dos anos 1960 e início dos 1970, demarcando sua luta pelo orgulho racial, contra o racismo e a favor de políticas dirigidas para negros. Os atletas mencionados, ao receberam suas medalhas no atletismo, ergueram seus punhos cerrados em forma de protesto e num claro sinal de apoio ao Black Power (VAN DEBURG, 1992).


Referências Bibliográficas

BOSCH, Heike; BRAUN, Phillip. Let the Games beGay!. Stuttgart: Gatzanis Verlag, 2005.

CAMARGO, Wagner X. O que esperar dos Gay Games em 2018? Ludopédio, São Paulo, v. 110, n. 5, p. 1-5. 2018. Disponível em: <https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/o-que-esperar-dos-gay-games-em-2018/>. Acesso em: 16 ago. 2018.

______. Esporte, Cultura e Política: a trajetória dos Gay Games nas práticas esportivas contemporâneas. Revista USP, São Paulo, v. 1, p. 97-114, 2016.

VAN DEBURG, William L. New day in Babylon: the black power movement and American culture, 1965-1975. Chicago: University of Chicago Press, 1992.

WADDELL, Tom; SCHAAP, Dick. Gay Olympian: the life and death of Dr. Tom Waddell. New York: Alfred A. Knopf, 1996.