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Tomás Mazzoni e o pensamento autoritário no esporte

Vinicius Garzon Tonet

É uma fatalidade: no longo prazo, todos seremos esquecidos. Nossa voz, nosso olhar, nossa obra. Ao pó retornaremos. Até lá, historiadores vamos dando sobrevida à comédia humana. É bem verdade que a memória coletiva é benevolente com alguns personagens. Esses resplandecem, são lembrados, aplaudidos, atacados. São encontrados em bares, cafés, salas de aula, aeroportos, prédios públicos. Se já não tivessem ido, estariam por aí perguntando as horas. Outros não têm a mesma sorte. Precisamos visitar porões, antiquários, subterrâneos de museus para encontrá-los. Por vezes, um sujeito é encontrado e dizem: “Enfim, foi retirado do esquecimento!”. Pouco depois, lá está o nosso companheiro, abandonado às trevas da desmemória. Haja esforço para que alguém alcance o posto dos memoráveis “de bate pronto”.

Tomás Mazzoni (ou Thomaz, Tomaz, Tommaso Mazzoni a depender da fonte consultada) é um desses que precisa ser constantemente relembrado para que a poeira não volte a se acumular sobre suas ombreiras. Nasceu no ano de 1900, na Itália, veio para o Brasil em 1909 e faleceu em São Paulo, cidade onde viveu, em 1970. Uma longa jornada dedicada à crônica esportiva, à história do futebol e ao desenvolvimento do esporte no Brasil. Escreveu em diversos jornais, principalmente em A Gazeta Esportiva, cobriu in loco a Copa do Mundo de 1938, na França, participou de programas de rádio e TV, publicou livros e almanaques sobre futebol e variados esportes. Falava sobre ciclismo, boxe, atletismo e tanto mais. Era conhecido como “Enciclopédia do Futebol” e, por conta de seu vasto conhecimento sobre assuntos esportivos, adotou o pseudônimo “Olimpicus”.

É certo que Mazzoni merece ser lembrado por tudo isso. Hoje, porém, daremos atenção a outra característica do jornalista digna de lembrança: a íntima relação entre a sua paixão esportiva e as suas ideias políticas. Ele se via como um ideólogo do esporte e essa sua face doutrinária está sistematizada em dois livros: Problemas e aspectos do nosso futebol (1939) e O esporte a serviço da pátria (1941). E que se diga de imediato: Mazzoni foi um representante do pensamento autoritário brasileiro.

Thomaz Mazzoni. Foto: Divulgação.

Mazzoni exaltava a ditadura varguista: “O Estado Novo, somente o Estado Novo com a sua doutrina e postulados, poderia dar ao esporte brasileiro o rumo que merece”[1]. Poderíamos destacar, também, o seu filofascismo: “A esta renascença esportiva deu muita autoridade o exemplo dos chefes fascistas: Mussolini, esportista completo, praticando todas as modalidades e prodigalizando incitamentos. […] O lema que o Duce deu à juventude universitária – ‘Livro e Fuzil’ – denota claramente a preocupação do regime fascista em fomentar uma atividade mais profunda, intelectual e cultural, à mocidade italiana. […] A Itália fascista oferece o espetáculo da maior tentativa de educação estatal da juventude de que fala a História desde a antiguidade”[2].

Na ótica de Mazzoni, o Estado seria o ordenador exclusivo da realidade social e o mundo esportivo não escaparia a esse ordenamento ou, em suas palavras, “fora dos princípios do regime não se pode compreender o esporte como força viva da Nação!”[3]. A receita do golpe dado por Getúlio em 1937[4] era inspiração para Mazzoni e, por isso “o 10 de novembro esportivo deve[ria] ser completo!”[5]. Para ele, o futebol de então funcionava de modo análogo ao sistema político da Primeira República: “que representam os clubes? No nosso esporte cada clube equivale a um partido político”; “e os dirigentes? Sempre têm sido em sua maioria os ‘políticos profissionais’, completamente desvirtuados de sua verdadeira missão”; “que têm representado os ‘Conselhos’, as ‘Comissões’, as ‘Assembleias’ e outros órgãos e conclaves políticos? São sem tirar nem pôr a Câmara dos Deputados, o Senado, onde no antigo regime se discutia fiado, onde se fazia política e nada mais”[6].

Essa seria a “a política dos homens”[7], que deveria ser extinta “a ferro e fogo”[8]. Nessa visão autoritária, a “política dos homens” era o calvário do progresso histórico e esportivo. Desse modo, o poder do Estado tornaria a política desnecessária, uma vez que ela era a fonte da “cisão, indisciplina e clubismo”[9]. Sendo assim, Mussolini e Vargas apareciam como lideranças capazes de conduzir o processo histórico ao “império da obediência, da disciplina, e de um só comando, de um único objetivo para atingir”, superando as barreiras impostas pela política degenerada em “politicalha”. Para que isso se realizasse, todos deveriam “marchar por um único sentido, ouvindo e respeitando a voz do comando”[10] em todas as esferas do mundo social.

Assim, a crítica aos valores republicanos e liberais, bem como às instituições e ao sistema representativo de governo eram transplantadas para o terreno de organização do futebol. Para Mazzoni, no esporte, assim como na política pré-Vargas, vigia a desordem, as leis eram desrespeitadas e dirigentes “politiqueiros”, como costumava dizer, agiam em interesse próprio. Um “círculo vicioso” em estágio tal de corrupção que seria “o cúmulo da ingenuidade acreditar-se que a regeneração dos nossos costumes esportivos e a organização ideal poderiam surgir um dia através dessas fórmulas até agora usadas”[11]. Não haveria reforma possível para esse sistema cuja “podridão das raízes” inviabilizaria os eventuais frutos.

Desfile em celebração do dia 1º de maio no Estádio de São Januário, 1942. Ao fundo, “placa” de publicidade da Companhia Siderúrgica Nacional, criada na era Vargas. Foto: Arquivo Nacional/LEHMT/UFRJ.

O esporte precisaria de um intervenção, “a voz autoritária do comando […] guiando a mocidade esportiva. E é justamente esse o caminho que o Estado Novo indicará aos dirigentes dos esportes”[12]. Era preciso “exterminar as tais ‘assembleias’, ‘judiciários’, ‘pactos’, inquéritos’, ‘caciquismos’”, em suma, “extinguir a política”[13] para que se alcançasse a “função moderna do esporte”[14].

Bem à moda do pensamento autoritário brasileiro, ressoando, inclusive o pensamento de Oliveira Viana, Mazzoni pensava que apenas um Estado forte seria capaz de solucionar os problemas do país, especificamente os do futebol. Em sua doutrina refletia sobre o lugar do esporte na arquitetura Estado autoritário e como mudanças poderiam ocorrer na organização esportiva a partir da condução desse mesmo Estado. Os clubes, dirigentes, jogadores, torcedores cumpririam os respectivos papeis obedecendo as diretrizes impostas por Vargas e a “modernização autoritária”, tão característica do período, avançaria, também, no universo esportivo.

Infelizmente, ainda há pouco estudo sobre Tomás Mazzoni, por isso é importante tentar transformá-lo figura um pouco mais íntima de pesquisadores e do público em geral. Além disso, conhecer as formas assumidas pelo pensamento autoritário ao longo da História, auxilia-nos a melhor compreender suas reverberações nos dias atuais e faz da lembrança uma importante arma na luta democrática. Ao dar rosto ao autoritarismo, ficamos mais conscientes de sua profundidade e permanência na trajetória do país. O legado de Mazzoni é imenso e não se resume ao que aqui foi exposto. Fizemos uma breve revisão de como suas ideias políticas davam rumo às suas reflexões esportivas. Como veremos em outras oportunidades, Mazzoni foi artífice de grandes avanços no futebol brasileiro. Contudo, como estudar história é mergulhar na complexidade humana, ou, na feliz expressão de Evaldo Cabral de Mello, “calçar os sapatos do morto”, não podemos ignorar as linhas ideológicas que organizavam o pensamento de um dos maiores jornalistas esportivos do Brasil.

Referências bibliográficas

NEGREIROS, Plínio Labriola. Thomaz Mazzoni e A Gazeta: a crônica esportiva nos anos 1930 e 1940 (parte 1). Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 7, 2020.

NEGREIROS, Plínio Labriola. Thomaz Mazzoni e A Gazeta: a crônica esportiva nos anos 1930 e 1940 (parte 2). Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 54, 2020.

RIBEIRO, André. Thomaz Mazzoni: o jornalista esportivo. Ludopédio, São Paulo, v. 70, n. 3, 2015.

SILVA, Rafael Santos. Ordem em jogo: jornalismo esportivo, disciplina e nacionalismo na produção de Thomaz Mazzoni (1920-1941). Dissertação (Mestrado em História), Rio de Janeiro: PUC, 2013.

Livros de Tomás Mazzoni (Acervo da Escola de Educação Física da USP).

MAZZONI, Tomás. Problemas e aspectos do nosso futebol. São Paulo: A Gazeta, 1939.

MAZZONI, Tomás. O esporte a serviço da pátria. São Paulo: s/e, 1941


Notas

[1] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 18

[2] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 124-125.

[3] MAZZONI, T. Problemas e aspectos do nosso futebol, p. 41

[4] O Estado Novo foi instaurado, com a outorga do texto constitucional, no dia 10 de novembro de 1937. Daí as inúmeras referências de Mazzoni ao “10 de novembro”,

[5] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 20.

[6] MAZZONI, T. Problemas e aspectos do nosso futebol, p. 18.

[7] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 21

[8] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 27.

[9] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 27

[10] MAZZONI, T. Problemas e aspectos do nosso futebol, p. 41.

[11] MAZZONI, T. Problemas e aspectos do nosso futebol, p. 17.

[12] MAZZONI, T. Problemas e aspectos do nosso futebol, p. 41-42

[13] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 21.

[14] MAZZONI, T. O esporte a serviço da pátria, p. 20.

Como citar

TONET, Vinicius Garzon. Tomás Mazzoni e o pensamento autoritário no esporte. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 50, 2020.