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Torcemos como nunca, ganhamos como sempre: política e futebol nos protestos pelo Brasil

Vitor dos Santos Canale

A onda de grandes atos e manifestações, iniciadas a partir da organização do Movimento Passe Livre (MPL) das principais cidades buscando num primeiro momento a revogação do reajuste nas tarifas do transporte público e posteriormente a extinção da cobrança desses valores pela população trouxe consigo uma grande diversidade de pautas, encampadas pelos cidadãos das mais diversas experiências de vida, matrizes ideológicas e políticas.

O mote de “não é pelos 20 centavos”  (referência ao valor do reajuste da tarifa do transporte na cidade de São Paulo) foi inspiração para uma onda de reivindicações populares, habilmente e sob muitos aspectos cooptada pela grande mídia, que envolvia desde a meta inicial do MPL até questões históricas para o povo brasileiro como a corrupção, a baixa qualidade dos serviços públicos unida a questões recentes como a Copa do Mundo a ser realizada no Brasil em 2014.

Manifestantes participam de protesto nas proximidades do estádio do Maracanã, para pedir mais investimentos em saúde e educação e criticar os gastos e as remoções por causa da Copa do Mundo de 2014 no Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva – Agência Brasil.

As manifestações que tomaram corpo por todo o Brasil coincidentemente tiveram seu ápice durante a Copa das Confederações, evento teste para a FIFA e o Comitê Organizador Local a um ano da Copa do Mundo.

Junto ao descontentamento em relação aos jogos em si, em diversos momentos o ataque era em relação a um pretenso papel que o futebol ocupa na sociedade, papel de elemento desmobilizador, grande responsável pelo silêncio político do cidadão brasileiro em seu cotidiano. O futebol estava estabelecido em seu controverso estereótipo de ópio do povo.

Neymar e a Educação

Gritos como “Brasil, vamo acordar. O professor vale mais do que o Neymar” e diversos cartazes imputavam ao futebol profissional parte nas mazelas da sociedade ou a alienação da população.

A crítica aos altos rendimentos de Neymar, nenhum deles financiados por qualquer esfera governamental, em comparação aos baixos rendimentos dos professores das escolas públicas tem a conotação não de um ataque à condição do jogador, mas do reconhecimento do que é caro ao sistema do capital e do que existe em segundo plano na sociedade brasileira.

Neymar recebe o troféu de melhor jogador da Copa das Confederações. Foto: Mowa Press.

Neymar não criou a idolatria pelo conjunto que envolve sua personalidade e seu jogo de alto nível, também não é o responsável por uma sociedade brasileira carente de ídolos e ainda é muito menos responsável pela dinâmica do capitalismo que o alçou para além de ídolo nacional e esperança para a Copa de 2014, em símbolo das mais diversas marcas, que contam com a sua imagem de grande apelo frente ao público jovem.

O craque que rumou a Barcelona não é a questão central e sim apenas um sintoma do mundo em que vivemos, onde a rentabilidade que proporciona seus parceiros (clubes e patrocinadores) determina uma vida de luxo e ostentação. Enquanto ao professor da rede pública sobra o embate com o Estado em busca de mudanças estruturais na educação, que na maior parte do tempo não interessam à população em geral.

A Copa das Confederações e seu legado

Os gastos com a Copa do Mundo e a corrupção envolvida foi outra das pautas do cidadão não organizado nos atos em diversas cidades. A crítica de que temos estádios novos e hospitais e outros equipamentos públicos de primeira importância sucateados ou superlotados gerou reação do ex-jogador e atual membro do Comitê Organizador Local de São Paulo, Ronaldo de que para a Copa o Brasil deveria existir estádios e não hospitais. A resposta pragmática do jogador que desprezou as demandas expressas nas ruas, causou má impressão, mas estabeleceu as prioridades do atual gestor.

Ronaldo: “não se faz Copa com hospitais”. Foto: Maurício Val – VIPCOMM.

Ao contrário do que os mandatários da FIFA pensavam as questões políticas não estavam afastadas dos jogos, os protestos em frente aos estádios, como os ocorridos em Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza e Rio de Janeiro, fizeram com que o assunto se transformasse em pauta internacional e repercutisse em entrevistas de jogadores e técnicos.

Na Copa das Confederações se algum legado foi de fato sentido foram as mensagens mandadas de que no atual momento do Brasil: mega-eventos, esporte, lazer estão na arena política para discussão.

A sacralidade imposta tanto pela FIFA aos seus eventos, em que a expressão política é vista como algo fora do jogo e por isso proibido, foi ignorada por uma massa que queria ir às ruas, muitas vezes sem proposta ou projeto políticos planejados.

O presidente do Comitê Organizador Local, José Maria Marin, e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, participam da divulgação do balanço da Copa das Confederações. Foto: Tânia Rêgo – Agência Brasil.

Situação muito diversa dos Comitês Populares da Copa do Mundo das várias cidades-sede que a anos vem lutando por uma Copa do Mundo que não signifique a vida de diversos contingentes pobres das metrópoles que são desalojados de suas residências e transferidos para áreas distantes, como muitas vezes já aconteceu por todo Brasil, sempre em prol desse fenômeno chamado progresso. Contudo, a pauta dos Comitês Populares da Copa do Mundo não interessa à grande mídia, não passa na televisão e nem interessa às classes médias, por isso seguem os protestos sobre um drama que poucos sem importam.

Mesmo que toda essa grande onda de protestos expresse um Brasil contraditório, em que os diversos segmentos da sociedade lutaram e ainda lutam pelos significados que serão atribuídos a posteriore ao evento uma coisa é certa, de que mais uma vez como argumentara Bourdieu, o esporte, neste caso o futebol, está inserido neste turbilhão de situações sob uma autonomia relativa, mas mais do que nunca no caso brasileiro está imerso nessa sociedade em ebulição, para o bem e para mal, mas nunca puro ou sagrado.

Por fim, o Brasil para surpresa de quase todos derrotou a Espanha com autoridade e venceu novamente a Copa das Confederações, que para muito gente foi comprada pela presidência sob o intuito de diminuir as ondas de protestos. Mas para você que ama o futebol fique tranquilo comemore o título e exija seus direitos, mais do que nunca amar o futebol não tem faz um analfabeto político.