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Torcer, desfrutar, onde o time estiver: Figueirense e Avaí

Alexandre Fernandez Vaz

Figueirense e Avaí, os dois times de futebol profissional de Florianópolis, caminham para o descenso no Campeonato Brasileiro de Futebol. Ambos estão há muitas rodadas nas zonas de rebaixamento, o primeiro da Série B, o segundo da A, e tudo indica que de lá não sairão até o final dos certames em disputa. Há um clima de melancolia na capital catarinense, e chega a ser constrangedor o esforço que a imprensa esportiva local faz para manter acesa a esperança de uma viravolta que leva os dois grandes adversários a não serem rebaixados.

Desde os anos 1970 os clubes de Florianópolis participam dos campeonatos brasileiros, às vezes uma das agremiações, às vezes a adversária, ou as duas ao mesmo tempo, até que foram sendo criadas as diferentes divisões do futebol nacional (Taça de Ouro, Taça de Prata; Módulo Amarelo, Módulo Verde, etc., finalmente, Séries A, B, C, D). Na maior parte do tempo, Figueirense e Avaí estiveram fora da primeira, até que em 2003 o alvinegro estreou na Série A[1]. Lá permaneceu por alguns anos, caindo e voltando a subir, para novamente disputar a segunda divisão. O azul e branco, por sua vez, costuma dizer de si que é o time catarinense que mais subiu para a principal divisão nacional, sem mencionar o evidente fato de que isso acontece porque foi o que mais caiu.

O interesse da imprensa esportiva de que os times não descendam se deve, claro, ao fato de que para ela, principalmente para um dos conglomerados jornalísticos locais, se trata de um produto com bom valor de mercado, cujo preço decai com as derrotas. Os debates diários no rádio, os programas esportivos, as narrações dos jogos, as opiniões e palpites, tudo gira em torno do objetivo de não ser rebaixado, talvez porque, em geral, essa é a pretensão que se pode ter. A produção de tal sentimento contamina os torcedores, que passaram o ano discutindo as possibilidades de se alcançar o “número mágico”, os 45 pontos que, em tese, eliminam as possibilidades de cair. Aos poucos, a fantasia começa a ser insustentável.

Os jogadores do Figueirense chegaram a instaurar uma greve por conta dos atrasos salariais. Foto: Divulgação/Figueirense.

Considero esse modus operandi da imprensa e dos torcedores, marcados por uma falação interminável a respeito de nada, um aviltamento absoluto do prazer estético e do gozo de identificar-se com cada uma das equipes. Figueirense e Avaí são, no melhor dos casos, equipes de Série B que eventualmente visitam a Série A. É melhor reconhecer esse limite e desfrutar do que os times podem oferecer, com sua estrutura que, se não é ruim – e não é –, não pode ser comparada com a dos grandes do futebol nacional.

Apenas eventualmente uma equipe de fora dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, alcança o primeiro lugar no futebol brasileiro. Os recentes e constantes bons resultados do Athletico mostram que um clube fora do círculo dos tradicionais grandes centros talvez possa se consolidar nacionalmente, mas isso ainda precisa ser confirmado. O que acompanhamos é promissor, os athleticanos há anos investem em excepcional estrutura, mas lembremos que Bahia e Coritiba foram campeões brasileiros, sem, no entanto, deixarem de visitar, até com alguma constância, a Série B (onde o Coxa, aliás, neste momento está). Não será em futuro próximo que Figueirense e Avaí alcançarão um lugar estável de destaque no cenário da primeira divisão do futebol brasileiro.

É certo, o Figueira acaba de passar por momentos horríveis, de descontrole administrativo e falta de pagamento a atletas e outros funcionários do clube, o que concorre para que o risco de chegar à Série C seja iminente. Vários jogadores deixaram o clube em função desses tormentos, houve até mesmo a justa recusa de entrar em campo e a consequente derrota por WO[2]. O treinador Hemerson Maria, tão competente quanto pouco badalado, logo se demitiu, não sem antes defender o elenco e enfrentar a empresa que administrava o futebol do time do bairro Estreito. O desequilíbrio interno pode sacar o tradicional clube de seu território natural, a segunda divisão.

Jogadores do Avaí se reúnem antes de jogo para incentivo mútuo. Foto: Frederico Tadeu/Avaí FC.

Sobre o Avaí, prestes a voltar para a Série B, posição que lhe corresponde, discute-se as razões de ter vencido tão pouco até agora. Pede-se uma equipe agressiva, com mais consistência no meio de campo, menos falhas na defesa. É legítimo demandar, mas tolo esperar que aconteça uma evolução significativa, já que não há meios estruturais, tampouco elenco competitivo. Há pouco mais de uma semana, o técnico Alberto Valentim deixou o clube, transferindo-se para o Botafogo, equipe que dirigira com êxito há pouco tempo. No rádio ouvi os que realmente entendem de futebol dizendo que o trabalho do treinador não havia sido bom, tampouco ruim. Segundo eles, o time da Ressacada precisaria de alguém que colocasse o time no ataque, já que seria muito pouco investir na constante troca de passes e na posse de bola.

Do alto das cabines de rádio e TV, estúdio, home office ou da sede do jornal, deve ser fácil analisar e ter respostas claras e distintas para os problemas de um time, muito mais que as do treinador e sua comissão técnica, que trabalham toda a semana com o grupo, que estudam os adversários e assumem a responsabilidade de escalação, esquema tático e decisões sob pressão durante as partidas. Não sei se o pior é o que dizem os que realmente entendem de futebol, ou sou eu a escutá-los antes, durante ou depois das partidas. Sou eu, claro.

Que torcedores de Avaí e Figueirense sigam apoiando seus times, mas sem falsas expectativas, sem se deixar guiar de forma acrítica pelos entendidos da imprensa, cujos palpites são como os antigos zagueiros sem recursos técnicos, que davam chutões para onde o nariz apontava. Que cada um desfrute e torça porque é bom, porque os clubes estão no coração, estejam na divisão em que estiverem. Os campeonatos terminam, o futebol segue.

Ilha de Santa Catarina, outubro de 2019.

Notas

[1] No ano anterior fora vice-campeão da Série B, para a qual subira no arranjo que fez o Fluminense deixar a terceira divisão, em 2001. O Avaí, por sua vez, alcançou o título nacional da Série C em 1998, e depois amargaria anos na B, até que em 2008 estreou, com brilho na A.

[2] Escrevi sobre isso aqui no Ludopédio, em Figueirense: solidários trabalhadores do futebol (https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/figueirense-solidarios-trabalhadores-do-futebol/).