29.7

Torcer: modos de fazer

Tiago Rosa Machado

Na literatura da área do futebol não são raros os trabalhos dedicados à figura do torcedor. De sua devoção clubística fervorosa ao achincalhamento prejulgado do conservadorismo, da exaltação de sua organização e coreografia às defesas pelo banimento das TO’s, de fatores históricos ligados às uniformizadas e assistência às formas pós-modernas do torcer do sofá, bares ou via transmissão streaming na internet; são muitos, enfim, os modos e formas de abordagem deste complexo e multifacetado objeto de estudos, parte fundamental da estrutura do futebol.

Há, no entanto, uma dimensão pouco explorada pelos estudioso e, salvo engano, também pela crônica, no que toca à “divisão do torcer” – chamemos assim, por ora – que ocorre quando da reunião da Seleção Brasileira. Os mais recentes avanços em termos de organização dos jogos do selecionado nacional – ressalte-se, ainda muito longe do ideal – alinhando o calendário da seleção ao “calendário FIFA”, inibiu a realização simultânea de jogos da seleção e dos times (muito embora os campeonatos nacionais e estaduais não interrompam suas competições quando dos jogos da seleção) possibilitando ao torcedor acompanhar, às vezes, em dias subsequentes, ambos os times, clube e seleção, em campo.

Joanesburgo -Torcida brasileira comanda a festa na estreia da seleção na Copa do Mundo da África do Sul. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.

De fato, a experiência do torcer para a seleção vem conhecendo novas dimensões nos últimos tempos. As recentes e profundas transformações no futebol, em escala global, nas últimas décadas constituiu nova roupagem às formas de torcer ou acompanhar a seleção brasileira. Inegavelmente, nos moldes de nossas memórias coletivas torcedoras, estamos muito distante do fervor de outrora. Alguns outros indícios de mudanças nos ventos podem ser notados, por exemplo, quando vez por outra surge uma matéria jornalística que mostra um cidadão brasileiro que torce para a Argentina, ou um grupo de fanáticos por tal time que ignora a seleção nacional, quando este ou aquele cronista reúne provas de que o escrete nacional só atende aos interesses da “Nike”, ou da “Rede Globo”, ou deste ou daquele empresário. Do outro lado, é inegável que a oportunidade que surge da reunião em campo de 11 jogadores pertencentes a diversos times (algumas vezes arquirrivais ou competidores diretos a determinado título) vestindo a mesma camisa e defendendo as mesmas cores, congregando o torcedor em geral num sentido comum (torcendo na maioria das vezes pela vitória, mas, no limite torcendo igualmente pelo fracasso coletivo) faz aflorar uma experiência completamente distinta daquele torcer usual pelo próprio clube com o qual estabelece uma relação de pertencimento, embora saiba-se que o torcer pelo próprio clube tem significativa preponderância pelo torcer pela seleção (o torcedor rival, diferentemente do estrangeiro, mora ao lado – a menos que se habite uma região de fronteira – e a gozação é parte do cotidiano daqueles envolvidos com o futebol, sobretudo se considerada uma hipótese de acirramento das rivalidades nacionais).

Uma outra dimensão do torcer, a respeito da qual passaremos ao largo, diz respeito a uma tendência mais recente do torcer por um clube estrangeiro. A inundação do mercado [futebolístico] nacional com camisas de times estrangeiros, sobretudo europeus, é fenômeno recente e ainda pouco pesquisado. Um torcedor do clube A (clube brasileiro) pode ter várias camisas de times estrangeiros, de preferência que estampe as mesmas cores, simbologias próximas, ou que comungue de características (históricas, sociais, formas de jogar, ex-ídolos do próprio time nacional etc) semelhantes. Este torcedor pode até mesmo ir ao estádio do seu clube vestido uma camisa de um clube estrangeiro (neste caso é melhor que as cores não sejam próximas às do clube nacional rival) ou afirmar que ora torce para o time Y, ora para o time Z no campeonato Espanhol ou Inglês ou Italiano que dificilmente algum olhar repressor lhe seria dirigido.

Torcedores em Bragança Paulista. Foto: Tiago [Ripa] Rosa Machado.

Uma última questão revela uma particularidade um pouco mais espinhosa e mais recentemente posta em cheque: é a duplicidade do torcer clubístico no âmbito nacional. Não se trata de uma aberração de um torcer por dois times rivais locais, algo ainda desconhecido e que em certo sentido contraria a lógica do futebol, mas um torcer muito mais comum e disseminado além do eixo das capitais RJ-SP, que diz respeito a um duplo pertencimento: num plano local, relacionado ao time da própria cidade ou de cidade próxima e, num plano mais amplo, a um time da capital do Estado ou, geralmente, a algum time grande do sudeste (adotemos a denominação “clube grande” e “clube pequeno” sem maiores preocupações).

Evidentemente que tal questão tem uma fundamentação bastante ampla e que envolve aspectos não só históricos, mas temas relacionados à outras e diversas esferas e, dentre elas, gostaríamos de elencar quatro que julgamos serem importantes para, antes de dar-nos respostas mais concretas, aprofundar as questões em torno de tal tema:

I) o papel que o componente mimético desempenha no futebol – seja na reprodução do torcer ou nas composições dos times, dos ídolos, ou jogadas – em relação à ideia de pertencimento. Em frentes distintas, há uma reprodução do torcer (geralmente um torcer vitorioso), relacionado aos grandes clubes dos principais centros – clubes amiúde campeões, sediados em cidades que impulsionam a economia moderna – e, por extensão, um pertencimento mesmo que distante a esse ideal de grandiosidade e representação que desfrutam. Imitação do torcer e torcer imitando; reprodução das manifestações torcedoras dos clubes grandes em inúmeros lugares muito além daquele ao qual o clube pertence (cidades e estados) e inspiração (para não dizer plágio) dos cânticos, roupagens, formas de incentivos, manifestações etc. Por outro lado, uma replicação dos modelos dos grandes centros em diversas formas, dos primórdios do futebol aos tempos atuais. Exemplos claros e constantes são os nomes de batismos de “n” clubes (cores, escudos etc) ou por meio da inspiração na trajetória de determinado jogador que saiu daqueles campinhos próximos, ou que por lá jogou, para alcançar o sucesso em um grande clube. Ou mesmo – se quisermos levar ao limite – o alinhamento a uma lógica de disseminação do futebol que se atrela ao elemento civilizador, moderno, citadino que adota como parâmetro os modelos da grande cidade (ou da cidade próxima, ou a capital, ou daquela deixada pra trás) e a sociabilidade que enseja. Nisso, a representação clubística desempenha e desempenhou destacado papel, em termos estritos, ou relacionados aos clubes de fábrica, ou às colônias etc.

Joanesburgo -Torcida brasileira comanda a festa na estreia da seleção na Copa do Mundo da África do Sul. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil.

II) O papel da mídia, num futebol-notícia alçado à condição de espetáculo. Das transmissões radiofônicas – que, como diria Nelson Rodrigues, iniciaram a rádio-difusão nacional em 1922 com a estridente transmissão de um Fla X Flu – às transmissões ao vivo dos globalizados campeonatos nacionais, há uma hegemonia futebolística que se expande para todos os rincões do Brasil. É também ponto pacífico que o futebol carioca, por meio da Rádio Nacional e dos usos e abusos políticos em torno do magnetismo futebolístico, cativaram gerações de torcedores para os quatro grandes do Rio de Janeiro por ainda um bom tempo. E é também evidente que as transmissões televisivas atuais possuem um potencial de influência grandioso, e suas ramificações em termos de cobertura local (TV’s afiliadas) se expandem, hoje, só até determinadas áreas. Há o telejornal local (no qual podem ser veiculadas notícias dos clubes locais), alguns programas de variedades em horários menos nobres, mas a escolha dos jogos que serão transmitidos ao vivo para estas praças dialoga com o a predileção torcedora local constituída. Patrocinadores, interesses políticos das mais diversas naturezas e outros fatores entram na conta, mas alterações nestes termos são medidas que se estabelecem a médio/longo prazo, de acordo com mudanças pouco óbvias. Também aqui, há uma lógica que ajuda a entender a questão da duplicidade torcedora, que vive real e virtualmente uma “aproximação distante” (grandes clubes) e uma “aproximação próxima” (clubes locais).

III) Da igualdade e desigualdade intrínsecas ao futebol. Se o futebol é capaz de opor em iguais condições clubes/jogadores advindos de situações desiguais (o jogo sempre se inicia com 0 x 0, 11 jogadores de cada lado, e na maioria das vezes parece que valorizamos pouco os fatores extra-campo – por exemplo, se os jogadores seguiram um rígido e direcionado regime nutricional para atuarem 90 minutos com o máximo de energia possível ou se se alimentaram de Big Mac’s antes do jogo final que definiria um campeão olímpico, como a Nigéria em 1996) para então se chegar a uma diferença, simbolizada pelo vencedor, o mesmo futebol é por natureza portador de uma série de desigualdades que lhe são quase naturais. Das organizações das [Con]Federações às divisões de cotas de patrocínios, direitos, dentre outras, o futebol, sobretudo após sua profissionalização, impõe que para existirem os grandes clubes existam também os pequenos. Certa vez algum capo da Fórmula 1, questionado acerca da inutilidade que era a existência de uma equipe menor (a Minardi, ou alguma outra) disse que para a Ferrari andar em 1º era preciso que alguém andasse em último. É óbvio que toda metáfora tem as suas limitações, e alguns pequenos times talvez nunca cheguem a enfrentar os grandes (a Copa do Brasil é uma charmosa oportunidade em nível nacional) mas caso ocorra o confronto – e os campeonatos Estaduais são uma ótima oportunidade regional – uma vitória conquistada por um time do interior, ou mesmo um gol marcado num time grande, tem um simbolismo muito maior e marcam a história do clube e dos torcedores; se ocorrer um título de um pequeno, jogadores, comissão técnica, cartolas jamais serão esquecidos. De fato, em cada torcedor de clube pequeno há pelo menos uma boa história de quando um time grande foi jogar na cidade de seu time querido, ou quando seu time “aprontou” jogando na capital. Neste ponto, o torcer duplo pode ser paradoxal, mas certamente é atenuante da desigualdade.

IV) Das relações de pertencimento, que de certo modo permeiam todas as outras três. A flagrante diferença que a geografia do estádio impõe ao torcedor de um time que possui ou manda os seus jogos em um campo para 40 mil pessoas e de um time que joga num estádio para 15 mil estabelece relações de pertencimento completamente distintas. Dentre boleiros residentes na capital paulista, há pouco tempo atrás, tornou-se moda (relativamente passageira) ir ver um jogo do Juventus na Rua Javari. A curiosidade de tal evento, para além do charme do clube da Mooca e da visualização próxima do jogo, estava em tornar-se muito mais parte do jogo, na condição de torcedor, do que usualmente se faz num Morumbi, Pacaembu ou no Palestra. O exemplo é o Juventus, mas a transposição pode ser feita para qualquer time de menor expressão ou para um jogo num estádio de dimensões mais acanhadas.

Vista das cadeiras cobertas do estádio do Juventus na Rua Javari. Foto: Douglas Nascimento.

Além do público geralmente diminuto, a potencialidade de um comentário, um xingamento direcionado ao adversário ou ao árbitro, uma sugestão ao técnico ou ao meia que vai levantar uma bola na área, uma “cornetagem” em relação ao próprio time para o qual se torce, uma fala ao cartola que acompanha o jogo num lugar próximo, enfim, o torcer ganha contornos muito mais personalizados e sólidos. Geralmente não há a voz isolada na multidão, que envolve e se manifesta por meio dos coros – certamente possuidores de uma potência invejável, capaz de arrebatar. Nos times menores e em seus estádios há o falar mais franco, direcionado, de proximidade. Além disso, há também uma relação de pertencimento nos clubes menores que extrapola a filiação meramente torcedora tal como a vemos nos clubes grandes. É comum encontrar em cidades menores torcedores que jogaram no clube da cidade (em alguma das divisões de base, ou mesmo no futebol profissional), ou que ajudaram a construir o próprio estádio, ou comerciantes que financiaram a montagem de determinado time num ano glorioso. As relações mercadorizadas do futebol atual faziam-se e fazem-se numa esfera mais cooperativa e um pouco menos perversas além dos grandes centros.

São exemplos tíbios, mas que propõe alguma abordagem menos condenatória em relação a estas formas mistas ou duplas do torcer clubístico.