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Torcida Brasileira, Neymar e os Velhos Traumas

Marco Antunes de Lima

A Seleção brasileira de futebol já enfrentou seus dois primeiros adversários nesta Copa do Mundo da Rússia. Um empate contra a Suíça em 1 a 1 e uma vitória contra a Costa Rica por 2 a 0, placar concretizado já nos últimos minutos da partida. Antes de iniciar a Copa, desde a fase final das Eliminatórias, a Seleção brasileira vinha consecutivamente vencendo os adversários, entre eles, a Rússia, a Alemanha e a Croácia. Ou seja, o selecionado comandado pelo técnico Tite tem feito bons resultados.

Entretanto, ao assistir as partidas e ver os comentários subsequentes após os jogos tanto dos especialistas como também de grande parte da torcida brasileira me parece que o torcedor brasileiro, e de alguma forma isso também inclui os jornalistas especializados, não se encontra contente e se encontra extremamente crítico à performance da seleção canarinho.

No empate contra a Suíça a equipe brasileira realmente teve uma atuação abaixo daquilo que estava apresentando, tanto tecnicamente quanto taticamente. Talvez por ser a partida de estreia ou até mesmo pela qualidade e empenho do adversário, uma possibilidade descartada pela maioria dos torcedores brasileiros. Após a partida, uma saraivada de críticas ao desempenho da Seleção caiu de todos os lados por parte tanto da imprensa brasileira, quanto da torcida em geral. Um dos que mais sofreram críticas por sua performance foi o atleta Neymar – estrela maior da equipe – que foi extremamente criticado por conduzir de mais a bola e simular demais quando sofria faltas.

Na partida seguinte o torcedor brasileiro sofreu, mas vibrou com a vitória por 2 a 0 contra a Costa Rica. Se revermos a partida, tenho certeza que perceberemos que o selecionado canarinho foi muito mais incisivo do que no primeiro jogo, procurou a vitória e os gols a todo momento, mas, como o futebol não é uma ciência perfeita, só conseguiu a vitória com gols já nos acréscimos do segundo tempo, após um grande sofrimento. Mesmo com a vitória, as críticas ao selecionado, por parte da torcida, não cessaram, principalmente com o jogador Neymar, fato que retornarei mais a frente neste texto. Me parece que a seleção brasileira não está em lua de mel com a sua torcida, fato que geralmente ocorre em Copas do Mundo. Dessa vez, apesar da torcida, não me parece que aquele famoso – e famigerado – slogan “todos juntos vamos, pra frente Brasil” esteja fazendo muito efeito.

torcida do Brasil durante jogo contra Honduras, 16 de Novmenbro de 2013. MOWA PRESS

Torcida brasileira incentiva a seleção. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

Como é possível entender o que está acontecendo entre o torcedor brasileiro e a Seleção? Percebo que não é falta de interesse pela Copa do Mundo, como foi muito cogitado antes do evento começar. Os brasileiros, sem dúvida alguma permanecem interessados em acompanhar o maior evento do futebol mundial, mas a visão que tem da própria Seleção e as cobranças sobre ela e seus atletas estão diferentes.

Penso que essa relação estremecida observada no início dessa Copa tenha começado há quatro anos. Mais exatamente naquele interminável 8 de julho de 2014. A derrota da Seleção brasileira por 7 a 1 para a Alemanha criou um grande trauma e enorme desconfiança por parte do torcedor brasileiro. Me parece, que o torcedor pensa que, a qualquer momento, aquele desastre futebolístico possa ocorrer de novo. Qualquer gol tomado, coisa comum no futebol, qualquer passe errado, qualquer jogada equivocada traz, de alguma forma o desastre ocorrido em Belo Horizonte. Não, não vai acontecer novamente. Derrotas, sim, mas com o placar de 7 a 1, é impossível. Mas o torcedor brasileiro está psicologicamente afetado pelo resultado da última Copa e qualquer erro é motivo para criticar a Seleção como forma de externar aquela raiva deixada pelo placar elástico contra os teutônicos.

Outro fator que possa estar causando este estremecimento entre o torcedor e a Seleção brasileira é o fator do “Fla-Flu” político ocorrido no Brasil nos também últimos quatro anos. Golpe ou não golpe, a camisa da seleção brasileira foi usada como símbolo (intencionalmente ou não) daqueles que desejavam o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O grupo, extenso, de torcedores, viram, ao longo desses anos a camisa da seleção como um símbolo de tudo aquilo que não concordavam (lembram-se do “Fla-Flu” político) e, apesar de ainda continuarem torcendo para o selecionado brasileiro (paixões futebolísticas são inexplicáveis) assim o fazem com muitas ressalvas e sem a mesma emoção. Qualquer defeito ou erro é passível de críticas muito mais contundentes.

Agora, vejamos a questão Neymar. O, sem dúvida, melhor jogador brasileiro dos últimos 10 anos, craque expoente, com chance de em pouco tempo ser considerado o melhor atleta futebolista do mundo, passa por um momento, digamos, delicado na seleção brasileira. Neymar sofre críticas da grande massa torcedora e até mesmo por parte da imprensa que nunca havia sofrido antes.

Após a partida contra a Suíça, Neymar, que vinha sendo o único atleta realmente elogiado na seleção, pois quando entrava em campo a equipe jogava diferente, passou a sofrer muitas críticas dos torcedores e da imprensa por seu estilo de jogo em que, em qualquer contato já caía no gramado. Taxado de cai-cai, Neymar entrou em campo contra a Costa Rica demonstrando ter sentido as críticas, expressando um comportamento mais nervoso que o habitual. Neymar fez uma boa partida, procurou espaços, correu, foi novamente cassado em campo e fez até o segundo gol, mas ficou, a meu ver injustamente, marcado pela torcida pelo lance em que o árbitro decidiu, com auxílio do discutido VAR (árbitro de vídeo), voltar a marcação de um pênalti em Neymar por entender que houve simulação do brasileiro. Acredito que houve a penalidade no lance, mas o árbitro não marcou e Neymar ficou possesso durante todo o resto da partida. Após o final do jogo, Neymar se sentou no meio de campo e com as mãos sobre o rosto parecia chorar de emoção.

durante a partida da Copa do Mundo 2018 entre Brasil x Suica na arena Rostov na Russia

O atacante Neymar durante a partida entre Brasil e Costa Rica na Copa do Mundo FIFA 2018 (André Mourão/Mowa Press).

Boa parte da torcida brasileira duvidou que Neymar estaria chorando de verdade. E também boa parte da imprensa. Penso que aqui não cabe julgar se o jogador chorava ou era somente encenação. O que vale entender é que, de alguma forma, Neymar sofre pressão enorme por ser a solução da seleção e está respondendo isso com certo descontrole emocional. Mas cabe esse autor lembrar que essa atenção da torcida foi sempre que Neymar quis e que a própria torcida sempre o vangloriou pelas características que agora o critica. Isso mesmo, me parece uma grande contradição da torcida e da imprensa brasileira criticar Neymar por características suas e do futebol brasileiro que sempre exaltou, como por exemplo a malandragem existente na simulação.

A crítica a ser feita a Neymar é outra. Não ao seu futebol “malandro”, pois essa sempre foi uma das suas características, e que de certa forma o faz ser um craque de bola. A crítica a Neymar a ser feita é que o não mais tão jovem jogador precisa repensar as suas posturas perantes as adversidades e críticas. Neymar já tem 26 anos, já é um homem e jogador experiente, multicampeão e deve ter autonomia em suas opiniões. Neymar não tem essa autonomia. É totalmente dependente de seu pai, que costura acordos com patrocinadores e com empresas jornalísticas com o que ele pode/deve ou não falar. Neymar não rebate as críticas que sofre, ele apela para os seus parças e seus fãs irredutíveis para fazerem por ele. Espero que as lágrimas, após a partida da Costa Rica, tenham o ajudado a entender que ele já pode rebater as críticas que sofre (normais para um craque) com autonomia.

Agora, quanto à torcida brasileira, há a grande possibilidade do Brasil enfrentar a Alemanha na fase de oitavas de final no próximo domingo dia 1º de julho. Está na hora também dela, torcida, enfrentar seu trauma e fazer realmente o papel de torcida para com a Seleção.