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Como o atleticano se tornou River Plate – parte 1

Gustavo Cerqueira Guimarães

Desde quando a seleção da Argentina se hospedou durante toda a Copa do Mundo no centro de treinamento do Clube Atlético Mineiro, ele vem se indagando o porquê de sua falta de conhecimento sobre o futebol daquele país. Ele não tinha acesso aos canais que transmitiam os jogos pela tevê e não conhecia o site futbolparatodos.com.ar. Os dois jornais impressos que ele acompanha pela banca de revista trazem informações e tabelas apenas de mais cinco países, todos europeus: alemão, inglês, italiano, espanhol e francês. “Os jornais aqui de Belo Horizonte falam do campeonato francês, do francês, cara, francês… e nem têm as do português, hein”, diz o proprietário da banca. “Ó, mas o Pratto ‘tá aqui no galo, isso vem mudando, o pessoal ‘tava de olho lá na Argentina. Ele era o destaque do time do Vélez Sarsfield”, rebate o professor de educação física.

“Você tem acompanhado o Sorín pela tevê?, ‘tá com um bom espaço. Ele ganhou uma Copa do Brasil pelo Cruzeiro, mas com o River foi campeão da Libertadores em 96, lembra?, faz tempo que o nosso time não convive com ídolos estrangeiros”. Seu Dimas continua, no outro dia, o breve diálogo, quase que diário, com o professor. “Quem seriam eles, hein, seu Dimas?”, chamando-o pra conversa. “Ó, eu já ouvi o Éder do Galo falar que pra ser craque mesmo carece de ter jogado pelo menos cinquenta jogos pela seleção. Então, pra ser ídolo aqui com a gente tem de ter jogado no mínimo cem partidas e com campanhas importantes, quem sobra, hein, hein?, só o Cincunegui, lateral-esquerdo com quase duzentos jogos e campeão brasileiro de 71, ainda ‘tá vivinho lá no Uruguai e ninguém mais fala nele. E o Ortiz com cem jogos na pinta, goleiro argentino que ganhou o título mineiro de 76”. “Ah, no início da Era Toninho Cerezo”, o professor compreende. “Isso, isso, e fez o primeiro gol de um goleiro pelo Galo. Irreverente que só ele, se envolveu em brigas contra o técnico Barbatana. Saiu no jornal outro dia que ele também ‘tá vivíssimo por lá, mas que a bebida só atrapalha o cara de levar uma vida normal, está perdendo compromissos e tal. Deve estar igual ao Vadico daquele conto do Edilberto Coutinho, lembra?, tanta glória e depois viveu feito um molambo”. “Coisas da vida, Seu Dimas, são coisas da vida”.

BELO HORIZONTE/ MINAS GERAIS / BRASIL - (28/07/2009) - Treino do Cruzeiro na Toca da Raposa 2 em BH. Sorin anuncia o abadono do futebol. © Washington Alves/Light Press

O argentino Sorin jogou pelo Cruzeiro e pelo River Plate e em 2009 anunciou o fim da carreira. Foto: Washington Alves – VIPCOMM.

Será que a insciência tanto dos profissionais do futebol quanto do público e da maior parte da mídia não contribui para que os argentinos sejam mais vitoriosos que os brasileiros nas principais competições que os envolvem? Eles possuem quatorze triunfos continentais contra apenas oito do Brasil, juntando o Campeonato Sul-Americano (1916-1967) à Copa América (a partir de 1975). “Eu já nem estaria vivo pra ver isso mudar”, pensava o professor já aos quarenta anos de idade. Em Copa Libertadores, a vantagem é de vinte e quatro a dezessete, com destaque para o Independiente e o Boca Juniors, com sete e seis títulos respectivamente. “Afinal de contas, professor, a gente precisa conhecer mais os argentinos, pois é ou não é melhor estar mais perto de nosso principal adversário?”

Durante seu trajeto no ônibus para a escola, o professor, conectado, resolveu ampliar a pesquisa para saber quais os jogadores estrangeiros com menos de cem jogos pelo Atlético, mas com mais de cinquenta, descobriu apenas quatro: os uruguaios Mazurkiewicz, o Mazurka, goleiro dos anos 70, e o Olivera, que ele acompanhou nos anos 80 ao lado de Luizinho, formando a dupla defensiva. Os outros são argentinos: Galván, zagueiro do vice de 99, e Dátolo, meio-de-campo-peça-chave do mestre, zen, Levir Culpi durante a campanha da conquista da Copa do Brasil de 2014, atualmente integra o plantel.

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Mazurkiewicz, goleiro uruguaio, que jogou pelo Atlético Mineiro (1972-1974). Ilustração: Francisco Carlos S. da Silva.

Agora, ele está pensando que de fato é melhor estar mais próximo dos argentinos, mas por outros motivos. Talvez para promover mais o diálogo, contribuindo, talvez, para o abrandamento das estúpidas agressões entre os torcedores dos dois países, a exemplo de costumeiros insultos, de inúmeros arranca-rabos e da “chuva de garrafas” pela madrugada, na Savassi, durante as comemorações pela classificação antecipada para as oitavas da copa, com gol de Messi contra o Irã aos noventa minutos. “Eu estava lá de costas, eu não fiz nada com ninguém, eu nem tinha bebido”, ponderou o professor, pacificamente, na delegacia ao fazer o boletim de ocorrência. “Eu não sei o que fazer, tinham muitos argentinos, mas também muitos brasileiros, não sei de onde veio aquela garrafa na minha nuca. Eu levei uma garrafada na cabeça, eu tive que tomar alguns pontos, muitos pontos”. A entrada na cultura, a descoberta do outro, precisa necessariamente de um trauma.

Agora, o professor deseja visitar o país vizinho para saber mais sobre o seu futebol. Talvez por acreditar no diálogo entre os povos promovido pelo esporte, talvez por acreditar na importância de reflexões sobre a cultura, a língua e a memória. “Talvez pra nada, pra nada!, mas nada nunca é pra nada, somos o no somos hermanos?”, pensou.

*

 Buenos Aires, 18 a 24 de abril de 2015

“Já fui à Argentina três vezes, seu Dimas, mas em nenhuma delas o esporte esteve na agenda. Domingo à noite, vou tentar assistir aos jogos do Boca contra o Lanús ou o do River contra o Banfield pelo campeonato argentino, River e Boca estão disputando a ponta da tabela, dá pra guardar as charges do Duke pra mim?, semana que vem eu ‘tô de volta, pode ser?”, o professor solicitou em tom de despedida. Ele viajaria para Buenos Aires, queria conhecer um pouco mais o futebol argentino. Nessa breve imersão, seria inevitável estabelecer um contraponto entre os dois países, tornando-se impossível não cotejar suas novas experiências com o futebol brasileiro e sua identidade clubística, o Atlético Mineiro, ou El Minero como dizem os sul-americanos.

As primeiras imagens do futebol argentino que vinham à cabeça do professor eram também acústicas, lembra-se de imediato do gol do Maradona em 1986 e da narração de Víctor Morales aos prantos chamando o jogador de gênio e agradecendo aos deuses por vivenciar aquele espetáculo, que acabou com a vitória argentina por dois a um frente aos ingleses, algozes na Guerra de las Malvinas. “Como achei aquilo importante”, pensou. Lembra-se dos cânticos portenhos pela Savassi durante a copa, do grito de gol da torcida do Boca, seguido da avalancha, do bonito gol de Caniggia em 90, que desclassificou a seleção de Taffarel, do Fillol, goleiraço, e do Kempes no álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 82, quando as câmeras retratavam cada jogador a partir de ângulos e/ou iluminações diferentes, as fotografias felizmente estavam fora do atual “padrão FIFA”. Mas a imagem mais forte que ele tem do futebol argentino é a do pontapé do Maradona no Batista nessa copa.

Uma expulsão justa e um castigo pra violência da Argentina que não sabe perder o jogo é um castigo à inexperiência desse jogador não é o grande craque que se imagina falta agora ao Passarela ir pro banheiro mais cedo também uma vergonha esse time da Argentina vergüenza vergüenza.

Seguiram-se as palavras do comentarista Márcio Guedes pela tevê. “Ele levou uma pesada na barriga, cara, ele tinha acabado de entrar no lugar do Zico”, lembrava-se meio traumatizado o professor de sua primeira Copa do Mundo, todo mundo no Brasil se lembra de sua primeira copa. Nesta viagem, ele esperava visitar a tal igreja maradoniana do filme do Emir Kusturica, quem sabe pra redimir o deus argentino. “Será que isso existe mesmo?”

O professor queria sentir mais de perto a rivalidade entre o Boca Juniors e o River Plate, esperava ir aos museus desses clubes. “Mas que cidade cheia de campo de futebol, hein?!”, viu sobrevoando a cidade ao chegar com o sábado entardecendo. Muitas conversas de bar e de rua e todos os noticiários giravam em torno de futebol, “estamos a diez días del partido más importante para el campeonato nacional a principios de mayo”, disse o taxista. “De madjo, de malho, de macho, majo”, reverberava um eco. Ele não se programou tão rigorosamente para a viagem, porque logo na chegada já jantaria com um casal de amigos belo-horizontinos radicados na Ciudad Autónoma de Buenos Aires. O cara curtia futebol, inclusive tinha visto o Cruzeiro perder de três a um para o Huracán naquela semana em território argentino pela Libertadores, que estava ainda mais interessante, pois o Boca havia acabado de se classificar para as oitavas de final em primeiro lugar na fase de grupos, com seis vitórias em seis jogos, uma campanha perfeita, que lhe garantiria a vantagem de decidir todos os possíveis futuros confrontos em casa e o status de sensação da Libertadores.

Já o River, classificou-se de maneira, digamos, ainda mais heroica, alcançando uma classificação que parecia impossível pelo Grupo 6. Perdeu a partida de estreia na Bolívia para o San José, dois a zero. Depois, seguiram-se dois empates em um a um contra o Juan Aurich, da Venezuela, e contra o Tigres, um a um e dois a dois. Essa última batalha foi no México, a equipe evitou a eliminação precoce na quinta rodada ao arrancar um empate milagroso, fez seus gols aos quarenta e dois e aos quarenta e cinco do segundo tempo. A primeira vitória do River viria tão-só na sexta e última rodada, ao derrotar o San José por três a zero no lotado Monumental de Núñez. Com a pior campanha da primeira fase, somando apenas sete pontos, o River avançou às oitavas em clima de muita euforia, e enfrentaria o arquirrival. O professor ficava cogitando se iria ou não tomar algum partido sobre a peleja, ou mais ainda se de fato conseguiria torcer para outro time que não o seu.

“Eu já te falei, eu sou Boca”, disse Gustavo, amigo do professor. “Você vai querer beber vinho ou cerveja”, pergunta a amiga. “Sei lá, quem sabe eu torço pro time do Papa Francisco, último campeão da Libertadores?” A temperatura estava por volta dos vinte graus em San Telmo. “Então: vamos ao jogo do Boca em Lanús amanhã à noite?”, diz o professor entusiasmado. “Cara, o jogo é muito tarde, Lanús é um pouco longe, vai ser complicado de ir, é perigoso voltar, eu ‘tô com criança em casa”. “Uai, então vamos ver o River”, emendou o recém-chegado. “Não, não, não conseguiríamos comprar ingressos, só por meio de câmbio negro pelos olhos da cara, cabem sessenta mil no estádio e eles devem ter cem mil sócio-torcedores. Vai lá pra casa amanhã, a gente almoça e vê pela internet o Cruzeiro ganhar do Atlético pela semifinal do Mineiro, você ‘tá ligado, né?, e depois a gente sobe pro terraço do prédio. De lá, dá pra ver o Monumental e ouvir a torcida cantando o tempo todo, você vai gostar”.

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Entrada do estádio Monumental de Núñez do River Plate. Foto: Sérgio Settani Giglio.

No domingo, o professor tomou café pela Feria de San Telmo, andou bastante, comprou una botella de vino, un alfajorcito para o filho do casal e uma pulseira de couro para o punho, logo percebeu estar na moda. Já na sala, o pai, durante todo o almoço, reforçava o infante a torcer contra o Atlético e, de tabela, contra o River, o algoz argentino. Os times mineiros jogariam precisando de vencer pela Libertadores no meio da semana. Em casa, já na terça, no dia de 21 abril, os celestes decidiriam contra o modesto Sucre da Bolívia. Na quarta, no Independência, os alvinegros teriam que enfiar dois gols de diferença nos chilenos do Colo-Colo. “Talvez eles se poupem um pouco por conta disso”, o professor arrisca sem qualquer convicção, procurando tornar o ambiente mais amistoso. E nem pensou em mencionar as duas incontestáveis vitórias nas finais da última épica Copa do Brasil, ele opta por torcer pelo empate, seu time não se classificaria pra final, mas também não perderia a invencibilidade de dez jogos construída desde 2013, “já é a terceira maior da história”, lembra. E o Cruzeiro, por sua vez, melhor que o rival na primeira fase da competição, avançaria merecidamente para a final, mas sem vencer o arqui-inimigo. “Que nada, o Cruzeiro vai meter os ferros, já empatou o primeiro jogo no Independência em um a um com golaço do Arrascaeta. Hoje, é partir pro abraço. É dia de seis a um, seis a um”. “Caramba, mas o Leo Silva ‘deixou’ ganhar, não por esse placar, evidentemente, todo mundo sabe disso, ele tinha acabado de vir do Cruzeiro”. “Seis a um, seis a um, seis a um”, o menino mimetizava a construir seus fatos históricos. “9 a 2, 9 a 2, 9 a 2”, o professor, em silêncio, lembrava da maior goleada dos atleticanos sobre eles. O menino vive os sentimentos de seus primeiros clássicos, estranhamente numa perspectiva estrangeira e ainda por cima há um cara atleticano na casa dele. A energia – el aire – estava muito cruzada, muito polarizada. Muita fumaça de cigarros. “Esse cara é só meio amigo do meu pai”, pensa ele, que também se dizia meio San Lorenzo. “O time do Papa, do papai”, confundia-se. Afinal, todos estavam despatriados, mas se esqueceram disso, já que a Raposa abria o placar logo aos onze minutos, com gol do uruguaio Arrascaeta, enquanto eles falavam sobre suas últimas leituras.

Lembraram da morte recente do Herberto Helder e de sua importância para a poesia de língua portuguesa. “Parece que o meu último avô morreu, a sensação é essa”. Leram em voz alta o poema “Buenos Aires”, do Mario Bellatin. “Ele escreve uns textos muito interessantes em diálogo com outras artes, acho que também faz uns vídeos”. O professor de educação física dizia estar lendo “aquele outro autor, aquele livro… caramba, como é mesmo o nome dele?, ah, Fui a Buenos Aires e me lembrei de Lisboa, daquele cara de Cataguases”. “Ah, não, não, o livro é Estive em Lisboa e lembrei de você, do Ruffato”, diz ela, professora de letras. Riram muito. Cambiaram reais por pesos e pesos por dólares e novamente por reais até dar a justa conta, ao que parece. “Vamos abrir outra garrafa”. O Galo empata a partida com Lucas Pratto por volta dos dez minutos da etapa final depois de uma assistência de Guilherme que entrou no segundo tempo no lugar do Donizete. Falaram dos trabalhos em sala de aula, refletiram a respeito da ‘pátria educadora’ e a falácia que parece ser o discurso da educação. Ventilaram hipóteses sobre os atuais tempos de crise. “É terrível a constatação de como a maior parte dos brasileiros fica de costas pra América Latina, até hoje a gente fica olhando só pra Europa”, disse. “Não se esqueça: aqui, você será sempre um estrangeiro, um estrangeiro!”, diz o amigo meio sorrindo, meio sério. “Vamos abrir mais um vinho, vou servir a sobra do almoço”. Nessa hora, o Galo espetacularmente vira o jogo com mais um golaço de Lucas Pratto a dois minutos de acabar o jogo, ou às seis horas de uma tarde outonal de muito frio em Buenos Aires, ou ao redor de cinco garrafas de vinho vazias e duas cheias, ou ainda quando qualquer medida, até mesmo do tempo, já não faz o menor sentido. “É o tempo dos afetos”, pensava.

Quando se deu conta, o professor estava comemorando na sala de um jeito totalmente diferente. Conheceu uma maneira argentina peculiar de comemorar gols. Ele a experimentou em seu corpo, braços hirtos abertos em uma pequena angulação e com os dedos indicadores apontados para o chão, outras vezes, mais abertos, menos estendidos, como a pairar. Depois o professor fincou os joelhos na sala, ouvindo com atraso a narração do Mário Henrique Caixa pela Rádio Itatiaia:

É do Galão querido Lucas Praaatto Lucas Praatto o centroavantão do Galo o Urso o argentino ele que também insiste ele que não desanima ele que fez lá na Libertadores na Colômbia de novo no alto pra ele de testa vencer o grande gigante Fábio Lucas Pratto o urso o centroavantão do Galo coloca o Galo com o pé na final aos quarenta e três se não for em cima da hora não é Galo o Urso dois a um o Galo vira fala Roberto. 

Outra vez quem quem outra vez quem Guilherme Guilherme de perna esquerda levantou a cabeça viu o Pratto rápido igual a um raio que testada violenta do gringo virada do Galo Pratto explode o coração alvinegro de alegria.

O menino, agitado, chorou muito. Subiram para a cobertura do prédio para ouvir a torcida do River oferecer um show à parte enquanto o time dava de quatro a um no Banfield, com um golaço de letra do Cavenaghi ao fim da partida. Falavam muito alto. La inchada ensandecida a cantar, a saltar, a cantar.

Soy de River y lo sigo a todos lados / donde juegues siempre te voy a alentar / con los bombos, las banderas, el redoblante / esta banda caminando siempre va / no me importan esos malos resultados / porque a River yo lo quiero de verdade / nunca vas a ver una bandera negra / esta banda nunca te va a abandonar / por ese amor, yo te aliento de la cuna hasta al cajón / porque yo dejo todo por verte salir campeón / y al jugador, que deje la vida por esos colores / estos son, como siempre Los Borrachos del Tablón.

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Torcida do River incentiva o time em partida contra o Boca Juniors. Foto: Federico Peretti.

“A rivalidade só existe por que um dia eles estiveram lado a lado”, alguém proferiu. “O River, los millonarios, é rico, o Boca es pobre, é povo”. “Agora, mamãe é River, filho, ‘tá bonito, a gente mora aqui perto”. “Você ‘tá dançando por quê?” Bêbados, beberam ainda mais, fumaram. Por fim, ao final da partida, desceram. “Acho que agora eu também sou River”. O ventilador girando no inverno, muito barulho. Falavam alto. Discutiam sem saber o motivo, sem saber se havia uma causa motivadora, se havia razão. “Quando essa guerra começou, meu deus”. Ele derruba propositadamente o copo de vinho da mão do amigo que estava para fora da janela. Brigaram. Existia um motivo. A amiga já estava dormindo no quarto. Ele grita. Ele gritou. E o menino de quatro, precisamente abalado, mira o ponto cego do espelho durante o tempo em que

o copo cai

no vão do prédio,

não mais se quebra.

Ninguém lá embaixo se assustou, nenhum vizinho se incomodou, ninguém se cortou. Não houve mais barulhos, ninguém levou pontapés, nem garrafada pelas costas, nem pontos na nuca. Na segunda, na escola, o menino arremessou um copo de vidro no coleguinha. Os pais foram convocados para uma advertência, quase uma expulsão. “Tudo isso é muito injusto”, argumentava o pai. A criança experimenta novos limites. “O trauma a duras penas se instaura”, disse o psicólogo educacional. “Mas apenas?!”, pensa o pai. “Afinal, a vida é uma peleja”, pensa a mãe. “Como proteger a si mesmo e proteger o seu filho se nem sabemos ao certo quem é o inimigo?”, pensa, apenas, apenas pensa… “Vamos embora, meu filho, outro dia a Raposa depena o Galo, o River, a seleção brasileira e todo o mundo”.