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Torcida Jovem do Flamengo: banida no Brasil, ativa no Catar (Um balanço das torcidas organizadas em 2019)

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

É difícil fazer um balanço retrospectivo do ano na área dos esportes, e no segmento das torcidas organizadas de futebol em particular, sem que se relacione com o quadro nacional e com a conjuntura política atual. De certo ponto de vista, o ano foi terrível para os envolvidos em áreas como o meio-ambiente, a ciência, a educação, a cultura e as artes. O meio esportivo não passaria infenso ao contexto, especificamente no âmbito da desestruturação das políticas públicas construídas no país desde o início do século XXI.

Os poucos canais construtivos de diálogo existentes entre lideranças de torcidas organizadas e autoridades governamentais esfacelaram-se com a redução do Ministério do Esporte a uma sub-pasta de menos importância, comandada por antigos generais sem estrela nem protagonismo, no interior do Ministério da Cidadania. A construção de uma rede nacional de torcedores, por meio da ANATORG (Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil), criada em 2013, vem encontrando desde então sérias dificuldades de sobrevivência com a extinção do Ministério do Esporte e seu amesquinhamento, após o fim dos megaeventos esportivos do Brasil.

O esteio das políticas públicas preventivas e conciliadoras é fundamental e funciona em países como Alemanha, Bélgica e Suíça. Nestes países da Europa, as torcidas contam com o apoio dos entes envolvidos no futebol (federações, clubes, governos), através da criação de projetos sociais capazes de arbitrar conflitos e inibir rivalidades que extrapolam os limites da esportividade. Na América do Sul, com graus variados de êxito, tentativas assemelhadas foram feitas neste sentido nos últimos anos, em países como Colômbia, Chile e mesmo Brasil.

Entregues à própria sorte, o ano foi de acirramento da violência e da anomia entre os torcedores organizados. Isto, se já era esperado nas relações inter-torcidas, radicalizou-se ainda mais e se intensificou no nível intra-torcidas. Ou seja, os conflitos entre torcedores de um mesmo clube e mesmo entre integrantes de uma mesma torcida organizada ampliaram-se de forma exponencial, com ramificações e disputas intestinas por poder político, econômico e territorial.

Se o Estado entende o assunto meramente como “caso de polícia”, cuja função repressiva é a única cabível, a escalada de confrontos torna-se proporcional à sucessão de arbitrariedades e às formas tradicionais ultrapassadas de lidar com multidão. Bombas, gás de pimenta, balas de borracha, cassetes, cavalaria – a propósito, nada muito diferente da dinâmica ocorrida na repressão a festas de rua em Paraisópolis no final do ano.

Em olhar retrospectivo, 2019 começou até “positivo” para o universo das torcidas. No mês de fevereiro, o Grêmio Recreativo Cultural Mancha Verde vence o carnaval paulistano pela primeira vez. A maior torcida organizada do Palmeiras conquista um título após mais de duas décadas desfilando no Anhembi. Por tabela, é uma vitória simbólica para todas as torcidas-escolas, pois estende visibilidade ao conjunto dessas associações populares e estimula presença festiva das organizações carnavalescas no universo torcedor, uma forma útil de descompressão da tensão e das rixas entre as organizadas.

No decorrer do ano, uma agenda positiva também marcou os festejos de 50 anos dos Gaviões da Fiel (1969-2019). Junto aos shows, prêmios e eventos comemorativos, uma das inovações mais interessantes associadas ao cinquentenário torcida corinthiana foi a criação do departamento Acervo Gaviões, um espaço de preservação da memória do grupo por intermédio da gravação de relatos e da conservação de documentos históricos da agremiação.

Poderíamos ainda mencionar os mosaicos e os espetáculos proporcionados por centenas de torcidas organizadas no decorrer do ano, nas quatro divisões do Campeonato Brasileiro de futebol profissional e nas competições regionais e estaduais em todo o país. Talvez o destaque maior vá para a originalidade de torcidas como a Cearamor, em sua homenagem aos trinta anos da morte do músico Luiz Gonzaga, o “rei do baião”, em um derby contra o Fortaleza, na Arena Castelão.

Mosaico do Luiz Gonzaga da torcida do Ceará na partida contra o rival Fortaleza. Foto: Jarbas Oliveira/ALLSPORTS.

Como sabemos, entretanto, a agenda pública das torcidas organizadas é pautada pela exclusividade das notícias negativas. Isto é, os critérios de destaque associados ao meio não enfatizam festas, campanhas beneficentes, participação coletiva ou presença assídua nos jogos, mas via de regra reiteram estigmas, veiculando brigas e emboscadas, incidentes brutais e fatais. Prevalece grosso modo no imaginário o entendimento de que tais grupos devem ser noticiados unicamente em situações disruptivas, ocorridas dentro e fora dos estádios, flagradas por câmaras e viralizadas, quando não cultuadas, nas redes sociais.

Nesse sentido, 2019 comporta imagens e episódios que se repetem como argumentum ad nauseam, e que não seria num texto curto possível listar nem exaurir. Foram muitas. Uma banalização da vida, uma depreciação do outro, que só reforça a gravidade do momento ante o recrudescimento da intolerância, do racismo e da xenofobia em âmbito internacional. O quadro corrobora a situação alarmante e pede a urgência de políticas públicas que não se restrinjam à égide repressora policial ou ao aparato normativo-penal do Ministério Público.

Assim como na política, assistimos no momento a uma “judicialização das torcidas”, com punições às instituições torcedoras em sua generalidade, em detrimento dos indivíduos efetivamente infratores. Com efeito, os resultados têm sido perversos, como a acefalia de subgrupos torcedores, sua atomização nas periferias e a potencialização dos embates corporais coletivos, sobretudo a lógica dos linchamentos e espancamentos na pista ou o uso crescente de armas de fogo para resolver as “tretas”.

Trata-se de um caldeirão social, uma guerra hobbesiana de todos contra todos, tais como se observa entre subgrupos da mesma torcida – o caso mais impressionante em 2019 é o da Independente Tricolor, do São Paulo, enredada numa luta fratricida, indo às vias de fato em espaços públicos do centro da cidade. Em contrapartida, após anos de descaso, a atuação contemporânea das autoridades tem-se resumido a exarar despachos burocrático-legais de proibição e suspensão, a exemplo da iníqua e cômoda decisão por “Torcida Única”. Esta, assente na letra morta da lei, continua sem saber lidar com o problema em toda a sua extensão, dinâmica e complexidade.

Assim, o final de ano foi especialmente desastroso por parte das autoridades. A decisão do MP e da PM de São Paulo, com justificativas pífias, que atestam as próprias incapacidades, de impedir a torcida do Flamengo de assistir ao seu time no Allianz Parque não apenas fere o direito à reciprocidade clubística, presente no regulamento da CBF. Com a medida, ela abre também o grave precedente para a instituição de Torcida Única em partidas interestaduais na próxima edição do Campeonato Brasileiro.

A bem da verdade, o ato arbitrário e desnecessário – quem assistiu a Palmeiras e Flamengo viu um estádio frio, vazio e insosso – teve efeito imediato e permitiu a instauração do precedente logo na rodada seguinte. Em meio ao drama do rebaixamento, o Cruzeiro solicitou o direito à exclusividade da sua torcida ao Ministério Público, na partida da última rodada do Brasileirão, justamente contra o Palmeiras.

O jogo vedado a duas torcidas – violação grave do direito constitucional do cidadão/torcedor de ir e vir – só acentuou a fragilidade jurídica da Torcida Única, com os torcedores organizados cruzeirenses a duelarem entre si nas imediações do Mineirão. Por seu turno, a atuação policial gerou ainda mais caos e expôs milhares de pessoas não envolvidas no conflito a danos e riscos imprevisíveis.

Em paralelo, o cerceamento à liberdade de expressão, vivenciado de maneira tão forte pela sociedade brasileira no primeiro ano de governo Bolsonaro, em sua cruzada contra os movimentos sociais, teve reflexo no âmbito dos estádios e dos torcedores. Exemplos não faltam: um torcedor corinthiano espancado e torturado por policiais após gritar palavras de ordem contra o presidente; um torcedor do Flamengo interpelado por um segurança ao entrar no Maracanã com uma camisa contra o fascismo; a torcida antifa do Botafogo, que teve sua faixa usurpada do Engenhão pela polícia, com a proibição de quaisquer mensagens políticas nos estádios de futebol.

O coroamento das medidas punitivas às torcidas organizadas em 2019 foi protagonizado pelo presidente da República, Jair Bolsonaro. Coube a ele sancionar projeto de lei n. 13.912/19, da Câmara dos Deputados e do Senado, com ampliação de uma série de penas e com abertura de um leque de enquadramentos passíveis de punição. Esta última, repetimos, não se destina a indivíduos transgressores, mas à totalidade dos coletivos torcedores.

E é aqui que encerro este breve texto, com o caso um tanto curioso da Torcida Jovem do Flamengo. Trago à baila esta específica torcida organizada, fundada em 1967, mas poderíamos estender a situação as três outras torcidas cariocas que atendem pelo qualificativo de Jovem no Rio de Janeiro, e que surgiram na cidade também no final dos anos de 1960.

A Jovem-Fla traz um imbróglio judicial emblemático. Em 2016, depois de confronto que vitimou um torcedor organizado do Botafogo, a torcida foi penalizada pelo Ministério Público do Rio com três anos de proibição de entrada dos seus associados nos estádios brasileiros.

Passados os três anos do prazo expedido e, na iminência da volta à legalidade da torcida, a Justiça emite novo despacho e, sem fundamentar a reincidência em ocorrência fatal semelhante, tão somente renova a pena de mais três anos para o grupo (2019-2022). A decisão é inapelável e procrastina por mais três anos o problema.

Eis o curioso paradoxo: banida no Brasil, a torcida faz-se ativa no exterior. Depois de viajar quatro dias de ônibus a Lima, capital peruana, para a decisão da Taça Libertadores da América, contra o River Plate, integrantes da torcida tomam o rumo do Catar.

Dentro do avião a Torcida do Flamengo marcou presença. Foto: Zanini de Zanine Caldas.

Já no primeiro jogo, válido pela semifinal da Copa do Mundo de Clubes da FIFA, identifica-se uma grande faixa da TJF, distendida no Estádio Khalifa Internacional, em Doha, na última terça (17/12). A partida do Flamengo contra o Al Hilal resulta na vitória do time brasileiro e credencia-o à final contra o temido campeão da Champions League. E agora, no próximo sábado, haverá direito penal internacional capaz de impedir a presença da Torcida Jovem do Flamengo na final contra o Liverpool?

Torcida do Flamengo no Catar. Foto: Zanini de Zanine Caldas.

Independentemente deste jogo, e deste inusitado, convém perguntar às autoridades: a proibição a uma entidade com mais de cinquenta de existência é a única medida cabível? A punição indiscriminada é de fato a melhor e mais eficaz das soluções?