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Cronologia das torcidas organizadas (VII): Torcida Jovem do Santos

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Raphael Piva Favelli Favero

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Nesta seção, será apresentado um total de 10 torcidas organizadas da cidade de São Paulo. O propósito informativo desta série é compartilhar breves apontamentos cronológicos sobre a história e a memória das associações de torcedores paulistanos. Os dados aqui fornecidos foram de início a base para a montagem de um roteiro de perguntas que serviu à gravação dos depoimentos de fundadores e lideranças das respectivas agremiações torcedoras, tal como ilustram as fotos que acompanham os textos.

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A cronologia da Torcida Jovem do Santos relaciona-se à história pregressa do Santos Futebol Clube (1912) e aos personagens das arquibancadas considerados mais emblemáticos do clube ao longo do tempo. No dia 6 de julho de 1928, Salustiano da Costa Lima Júnior, o “Salu”, que se tornaria torcedor-símbolo dos Santos nas décadas seguintes, se associou ao clube. Contava então com 19 anos de idade e, partir dos anos 1930, comandaria a animada “Banda do Salu”, orquestra musical responsável pelo apoio à equipe santista nos estádios. Salustiano nasceu em Santos no dia 23 de outubro de 1908, por coincidência na mesma data – embora não no mesmo ano – de Pelé.

Na década de 1930, segundo o pesquisador e jornalista Odir Cunha, cansados de ver seu time prejudicado pela arbitragem a favor dos times da capital paulista, um grupo de 30 estivadores do porto de Santos levou galões de gasolina ao jogo contra o Corinthians, que poderia decidir o título do campeonato estadual de 1935. No entendimento do grupo, se o time fosse “roubado” novamente, a ameaça era de que ateariam fogo no Parque São Jorge. No entanto, naquele ano, o Santos se sagraria campeão do estado pela primeira vez em sua história.

Em 14 de janeiro de 1937, associados do clube santista fundam o bloco carnavalesco “Bloco da Bola Alvinegra”. A turma de foliões que ajudou a criar a agremiação carnavalesca era comandada por Virgílio Pinto de Oliveira, o Bilu. Este, além de ter sido jogador, foi também o técnico que levou a equipe santista a conquistar o primeiro título do campeonato paulista de 1935.

Em 1954, nasce Cosme Damião, futuro fundador da Torcida Jovem do Santos, no bairro do Brás, na capital paulista. Sua mãe era são-paulina e o pai corintiano “roxo”. Em suas palavras: “Eu fui mais inteligente que os dois e escolhi o melhor, o Santos, desde os quatro anos de idade. Mas meu pai e minha mãe tinham um adversário que os amava”.

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Cosme Damião fundador da Torcida Jovem do Santos. Foto: Museu do Futebol.

Em trecho da entrevista de Cosme Damião, concedida ao Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), o torcedor explica sua opção pelo alvinegro praiano:

“A história do futebol começa assim: Charles Miller desceu em Santos com uma bola e já viu um menininho de cor petecando uma mexerica, brincando. Então ele falou: ‘Aqui não posso ficar, pois se ele faz tudo isso com uma mexerica imagina o que ele vai fazer com a minha bola’. Ele logo correu para a capital. Mas a primeira bola chegou… em Santos! No meu glorioso Clube!”

Em 1955, após vinte anos sem títulos, o Santos voltaria a ser campeão estadual. Durante a década de 1950, além da Banda do Salu, existiu um grupo de frequentadores da Vila Belmiro, estádio inaugurado em 1916, que se autonomeava “Coréia”. Os integrantes desse agrupamento, no entanto, apesar da assiduidade ao estádio e da residência nas proximidades do estádio, não eram torcedores da equipe santista. Os membros da Coréia – nome dado pelo radialista Ernani Franco a esse grupo, em alusão à Guerra da Coréia (1950-1953) – assistiam aos jogos da equipe santista para perseguir jocosamente o próprio radialista, que atuava na Rádio Atlântica – a rádio de maior audiência da cidade na época.

Além de ter como alvo preferido o radialista Franco, os “coreanos”, muitos deles ex-jogadores dos times varzeanos da cidade, torciam de maneira jocosa contra a equipe do Santos. O trecho a seguir, retirado de uma matéria do site “Portogente”, de 22 de maio de 2005, registra bem o tipo de comportamento adotado por esse grupo:

“Além do consumo de muitas cervejas e aperitivos no bambu, eles se divertiam soltando rojões que normalmente eram dados pelo torcedor símbolo santista na época, o Salustiano – o da banda do Salu –, só que eles liberavam os fogos na entrada do time adversário e não quando entrasse em campo o time do Santos, como queria o Salu”. Sobre o fim do grupo, segundo a mesma matéria: “A Coréia extinguiu-se naturalmente com a evolução técnica do time do Santos e com o crescimento da torcida santista, a qual não gostava muito das brincadeiras do grupo”.

Voltando à figura de Cosme Damião, que se tornaria torcedor-símbolo da Torcida Jovem em seus quase cinquenta anos de existência, frequentou estádios desde criança, inclusive o “velhinho Pacaembu”. Afirma recordar-se da concha acústica, onde hoje encontra-se o setor Tobogã, e das piscinas do clube. Ainda em sua infância e juventude, jogou e conheceu diversos times de várzea e várias equipes amadoras, a saber: Esporte Clube União Silva Telles, em que jogou por volta de catorze anos, Vigor, União da Coroa, Serra Morena, Flamenguinho e Nadir Figueiredo.

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Torcedor do Santos e sua tatuagem da Torcida Jovem. Foto: Fábio Soaress/Futebol de Campo.

Cosme atuou na chamada Copa Rio, disputada em 14 campos de futebol no atual bairro de Heliópolis, na zona sul de São Paulo. Apaixonou-se cedo, segundo ele, pelo “manto branco sagrado”. Diz também que na época do “Santos tricampeão” – 1967-1968-1969 –, os torcedores começaram a falar na criação de uma torcida organizada. Nos anos 1960, conheceu o Adalberto, vulgo Alemão, e juntos começaram a conformar a torcida nos jogos do Santos, sobretudo em São Paulo.

O embrião da Torcida Jovem do Santos remonta a 1966. De acordo com o que consta no sítio da torcida:

“Durante os anos de 1966 a 1968, quando o Santos ainda não possuía, principalmente em São Paulo, o mesmo número de torcedores que possui hoje, um grupo de rapazes corajosos, valentes faziam questão de comparecer em todas as partidas que o time jogava na capital. Depois de 3, 4 ou 5 partidas, esses garotos começaram a se conhecer e a combinar de irem juntos para o estádio e lá ficarem no mesmo lugar. Era uma maneira que servia, inclusive para fortalece-los, ante a provocação de outras torcidas”.

Assim, a 26 de setembro de 1969, na casa de Cosme Damião, situada no bairro do Brás, num total de 13 rapazes, Adalberto, Jorge, Chacrinha, Tobogã, Menezes, Celso Jatene, Zé Miguel e outras “personalidades” fundam a Torcida Jovem dos Santos. Era um grupo de adolescentes e jovens.

O nome teve por inspiração a sigla e o movimento das torcidas jovens, que surgiram no Rio de Janeiro a partir de 1967. Segundo informação do periódico esportivo carioca Jornal dos Sports, publicada em 24 de novembro de 1970, a Torcida Jovem do Santos, fundada em 1969, teve seu nome diretamente inspirado na Torcida Jovem do Flamengo, com base nas relações de amizade que o santista Jorge Luís Cavalcanti manteve com Tia Helena (Helena Ferreira), líder da agremiação rubro-negra em seus primeiros anos de existência (1970-1977).

Ainda naquele ano oficial de fundação, 1969, logo após sua criação, o grupo participa da caravana de torcedores do Santos que vai ao Rio, para assistir ao milésimo gol de Pelé, contra o Vasco da Gama, no estádio do Maracanã.

Em 1970, a Torcida Jovem envolve-se na política clubística do Santos, uma vez que sua missão original, segundo os fundadores, era fiscalizar os dirigentes e cobrar uma melhor administração do clube. Para tanto, cerra fileiras em prol da chapa de oposição na eleição do Santos F. C.

De acordo com a entrevista de Cosme Damião, concedida ao Museu do Futebol em 29 de agosto de 2011: “A torcida só ‘pegou’ em 1970 e ‘ganhou corpo’ entre 1970 e 1971. O que era pra ser um negócio comum e acabar naturalmente, foi levado a sério, a sério!”

Em 25 de julho de 1971, morre Salustiano da Costa Lima Júnior – torcedor símbolo do Santos, líder da Banda do Salu.

Cosme Damião destaca dois fatos marcantes na história das torcidas uniformizadas de São Paulo durante o decênio de 1970: 1) primeiro Jogo da Paz das Torcidas, com o slogan “Um palavrão a menos, uma mulher a mais no estádio”; 2) Formação da “ATUESP”, Associação das Torcidas Uniformizadas do Estado São Paulo. Foi presidente da organização, representou a Torcida Jovem e defendeu o “interesse comum” das torcidas coirmãs, seguindo a lógica associativa das escolas de samba.

O advento das torcidas organizadas, segundo ele, foi positivo para o futebol paulista. As torcidas se tornaram, em suas palavras, “uma força fiscalizadora dos clubes”. Lamenta a atual criminalização das torcidas e lembra que Osmar Santos teria sido um grande incentivador da “festa” feita por elas nos estádios. Em sua opinião:

“Torcida Organizada é a coisa mais linda do futebol. Se não fossem elas o futebol já tinha acabado. Essa força fiscalizadora, com a mentalidade de fiscalizar. Se a molecada soubesse essa força unida! Não tem uma coisa nesse país que une tanta gente. Aqui se juntam operários, cantores, médicos, doutores… Aqui tem de marechal a marginal. É o único lugar livre. E as autoridades não entenderam. A ‘querida’ imprensa também não entendeu.”

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Torcida Jovem do Santos. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Na década de 1970, a Torcida Jovem participa da luta pela autonomia política da cidade de Santos. A Torcida Jovem participa da fundação da A.T.O.E.S.P. (Associação das Torcidas Organizadas do Estado de São Paulo) e da A.T.O.S. (Associação das Torcidas Organizadas de Santos).

Em 1978, a Torcida Jovem deixa o Brás e fixa sua sede no bairro do Bixiga. Assim como a Gaviões da Fiel, o grupo dá origem em 1979 a um bloco de carnaval e participa do desfile oficial de rua promovido pela União das Escolas de Samba (UESP). Sua participação carnavalesca ocorre de maneira ininterrupta ao longo de 23 anos de existência, entre 1979 e 2002. A partir de 2003, converte-se em escola de samba e deixa de desfilar nos Blocos Especiais.

O envolvimento político de Cosme, simpatizante do Partido Comunista (PCB) e próximo do líder Luís Carlos Prestes – chegou a ser nos anos 1980 seu segurança oficial – e de outros fundadores, como Celso Jatene, teve consequências no perfil da torcida. Mais à frente, Jatene, formado em Direito no Mackenzie, ingressou na Câmara Municipal de São Paulo em 2001. Depois de sucessivas reeleições para a vereança da cidade, tornou-se em 2013 Secretário Municipal de Esportes de São Paulo, durante a gestão do prefeito Fernando Haddad. Eleito com quase 50 mil votos pelo PTB, na atualidade, o vereador é filiado ao PR, Partido da República.

Em 1979, o engajamento de Cosme e de Jatene fez com que a Torcida Jovem se fizesse presente nas manifestações em favor da Anistia aos exilados políticos, já nos estertores da ditadura militar. Cosme chegou a ser inclusive indicado o coordenador da campanha pela Anistia em Santos.

Em 1981, integrantes da Torcida Jovem são agredidos pela Polícia Militar durante o jogo Santos e Portuguesa, no Canindé. Na ocasião, Cosme Damião se machuca gravemente e o incidente da torcida com a PM alcança repercussão nacional, após uma reportagem investigativa da Revista Placar, da editora Abril.

Em 1983, a Torcida Jovem organiza uma grande caravana à final do Campeonato Brasileiro, contra o Flamengo, no Maracanã. O estádio lotado, com público de mais de 150 mil pagantes, é um dos recordes do Maracanã em partidas interclubes. Antes, durante e depois da partida, as torcidas de Santos e Flamengo vivenciam um clima tenso. Os ônibus dos santistas são apedrejados e muitas brigas ocorrem dentro e fora do Maracanã, como já ocorrera na primeira partida, no Morumbi, também ocorrida sob forte tensão. O conflito dá início a um histórico de rivalidade entre santistas e flamenguistas, que se prolonga até os dias de hoje. Em 1983, o Flamengo conquista o título por 3 a 0 e, na comemoração do tricampeonato, sua torcida canta em tom provocativo: – “Vamos comer peixe, ôôô”.

Entre 1984 e 1985, os politizados Cosme Damião e Celso Jatene fazem com que a Torcida Jovem participe, ao lado da Camisa 12, do Corinthians, e de outros grupos da ATOESP, das manifestações favoráveis às “Diretas Já”. Em 1992, a Torcida Jovem também toma parte da campanha e de atos de rua pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor.

No universo das torcidas organizadas paulistas, 1995 fica marcado como um ano crítico, por ocasião da chamada “Batalha do Pacaembu”, confronto entre torcidas organizadas do São Paulo (Independente e Dragões) e do Palmeiras (Mancha Verde e TUP), ao final de uma partida de juniores, disputada no estádio municipal e transmitida ao vivo pela Rede Globo de Televisão. Um processo de banimento e de extinção das torcidas principia em São Paulo, com o impedimento da entrada de bandeiras, faixas e camisas. Em tom veemente, Cosme Damião acusa o então promotor do caso, o hoje deputado estadual do PSDB, Fernando Capez. Segundo Cosme, Capez sequer esteve presente ao estádio e deflagrou uma proibição e uma cruzada de perseguições sem conhecimento de causa, promovendo-se em cima das torcidas organizadas.

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Bandeirão da Torcida Jovem do Santos. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Em consonância com o movimento das demais torcidas, durante este longo período de extinção e ostracismo dos agrupamentos, já que proibidos de frequentar os estádios, a Torcida Jovem passou a investir no samba. Para tanto, investiu ainda mais no crescimento do seu bloco carnavalesco. Em 2003, este foi elevado à condição de Escola de Samba, pertencente à Liga Independente (LigaSP) e à União das Escolas de Samba (UESP) do carnaval de São Paulo. Um ano depois de virar Escola – sob o comprido nome jurídico de Grêmio Recreativo Esportivo Cultural Escola de Samba Torcida Jovem Santista –, sua sede social passou a ser o bairro de Jardim Aricanduva.

Depois de ascender gradualmente – Grupo 3, Grupo 2 e Grupo 1 –, ocupa hoje, em 2018, a posição na divisão denominada Grupo de Acesso 2 e almeja chegar, sob o comando do carnavalesco Pedro Pinotti, ao Grupo de Acesso. Deste, finalmente, a meta é lograr o Grupo Especial, onde se encontra a elite das escolas paulistanas, algumas delas originárias das torcidas organizadas.

No futebol, em 2011, a geração de Neymar e Ganso, depois do frisson com a dupla Robinho e Diego, conquista a Copa Libertadores da América. A vitória ocorre muito próxima ao centenário do clube (1912-2012), quase 50 anos após a última série de títulos na competição (1962 e 1963). No mês de junho daquele, durante o torneio internacional sul-americano, em partida disputada no Paraguai, válida pelas semifinais da Libertadores, 57 integrantes da Torcida Jovem entram em confronto com policiais locais e 31 deles acabam presos.

Na guerra de versões, os paraguaios referem-se a delitos, arruaças e atos de vandalismo de parte dos torcedores forasteiros, praticados em Assunção e em San Lorenzo, enquanto os santistas acusam a polícia local de achaque, corrupção e agressão. A acusação dos brasileiros é estendida à torcida do Cerro Porteño, responsável, segundo os santistas, de uma série de apedrejamentos, dentro e fora do estádio. O presidente de honra da Torcida Jovem, Cosme Damião, que se encontrava no Brasil, viaja para o país vizinho a fim de intermediar o processo de soltura dos membros de sua torcida.

Ao final daquele ano de 2011, a TJS, acrônimo da torcida, organiza caravana e comparece em bom número na partida válida pela final do Mundial Interclubes, em Tóquio. Não obstante, a equipe perde o título para o estrelado time do Barcelona, que vence de goleada o jogo, em ritmo de treino, por 4 a 0.

Referência bibliográfica:

SION, Vítor Loureiro. Santos 3 X Tri. São Paulo: Magma Cultural, 2012.