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A torcida única e os tempos bicudos

Marcos Teixeira

Não é necessário escrever linhas e mais linhas aqui ou em outra tribuna qualquer para falar que a intolerância tem grassado por aí em diversas dessas tribunas. Basta ler os comentaristas de portal para ver o quanto a humanidade tem dado mostras de que se trata de uma experiência mal sucedida.

Vamos ficar restritos ao futebol. Ou melhor (ou pior), como o futebol tem ficado em segundo, terceiro, ultimo plano.

A tragédia da Chapecoense fez muita gente acreditar que seria um ponto de ruptura, uma forma de mostrar que é possível conviver vestindo cores diferentes, o que é impraticável quando o tema das rodas virtuais é a política. Ledo engano, muitas vezes cometido por mera inocência de quem pensava assim.

Mas não era isso mesmo!

Bastou a bola rolar para as desavenças voltarem, o que era previsível..

Os campeonatos estaduais, que deveriam ser vistos como laboratórios dos times grandes para o restante da temporada, já traz uma carga de pressão impressionante. E tome torcedor profissional na porta do CT. E tome demissão. E tome ameaças nas mídias sociais. Querem resultado. Querem vencer, não importa o preço.Tanto faz a qualidade do trabalho, ou o estágio em que se encontra dentro de um planejamento. Isso não importa.

A repulsa pelo adversário é o pior dos ingredientes. Torna a convivência insuportável. Impossível. Aí aparecem os artistas dos Ministérios Públicos pelo país afora e determinam como solução a adoção da torcida única, caminho que já foi trilhado e que não surtiu efeitos práticos.

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Torcedor solitário no estádio. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Em São Paulo, a medida foi tomado há mais tempo e os clubes fizeram ouvidos de mercador. Nenhum dirigente colocou-se contrário à decisão e o resultado foi um Derby, talvez o maior clássico do país, apenas com corintianos em Itaquera. Aliás, um Derby simplesmente, não. Foi o clássico que marcou os cem anos do primeiro Palestra Itália x Corinthians, o que é um prejuízo para a História do esporte e para a cultura que emana (ou que deveria emanar) dele.

No Rio, a mesma cantilena: vagabundos [não vou me referir a eles como torcedores] se envolveram em todo tipo de confusão, com direito a uma morte em que a arma foi um espeto de churrasco e outra quase consumada, em que a vítima, após ser espancada por 15 ou 16 maníacos, teve o corpo embebido em combustível e, não fosse a aproximação de policiais, teria sido queimada viva.

Foi o que bastou para que propusessem a adoção de apenas uma torcida nos clássicos. A diferença é que, se em São Paulo ouviu-se um indecoroso amém, no Rio, três dos quatro grandes se uniram (o que é raro) e conseguiram que a decisão da Taça Guanabara contasse com rubro-negros e tricolores no Nilton Santos – ou Engenhão, como queiram.

Até aí, juro por Deus, nada demais mesmo. Seria mais um grande Fla-Flu para a posteridade, como realmente foi. Mas o fato a ser destacado é que o clássico foi disputado em paz.

Isso lá é notícia? Façam-me o favor!

O pior é que é notícia sim. Não haver nenhuma ocorrência digna de nota foi o ponto fora da curva.

São tempos bicudos.

Como citar

TEIXEIRA, Marcos. A torcida única e os tempos bicudos. Ludopédio, São Paulo, v. 93, n. 8, 2017.