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Torcida única: tirando o sofá da sala…

Fabio Perina

Entre novembro e dezembro do ano passado, ocorreu um perigoso interesse de alguns clubes na reta final do Campeonato Brasileiro ao solicitarem às autoridades partidas sem a presença da torcida visitante. Os motivos que mais saltaram aos olhos foram a possível prevenção de conflitos (Palmeiras x Flamengo e Cruzeiro x Palmeiras) e aumento de arrecadação (Flamengo x Avaí e Vasco x Chapecoense).

A postura revela não somente a ganância dos clubes como a desconsideração das consequências do imediatismo, pois quando seus torcedores forem visitantes serão prejudicados de forma recíproca ao abrirem esse precedente. Procuro me apoiar em dois importantes estudos que mostram que a presença da torcida única, tal qual medidas de segurança no futebol em sua maioria, depende de um efeito pirotécnico sensacionalista para se legitimar e como toda máquina punitiva apresenta algum curto-circuito que a impede de cumprir tudo o que promete. Por isso o recurso do título a essa conhecida expressão popular, pelo qual alguém flagra uma traição e decide que a ‘solução’ é tirar o sofá da sala!

As autoridades protagonistas da medida se encastelam numa estrutura burocrática e evitam terminantemente tanto estabelecer metas e prazos de quais seriam essas condições como sequer apresentar uma avaliação. O que viola a obrigação de transparência de órgãos públicos.

O pouco que se tem de informações de suas consequências é o aumento da arrecadação dos clubes passando a ter estádios apenas com seus torcedores — visto como o principal argumento pela federação paulista para sua manutenção apesar do prejuízo esportivo. A seletividade irônica é justamente a estatística mais significativa que deslegitima a torcida única, não sendo tocada nem por autoridades nem por jornalistas: a quase inexistência de conflitos dentro dos estádios! Por aqui, parece haver uma sensação de normalidade para que todos se acostumem a ela diante da superficialidade da cobertura na imprensa paulista e da indiferença dos quatro clubes paulistas— oposta aos clubes cariocas que junto à Secretária de Esporte conseguiram em poucos dias barrar a medida decretada pelo Ministério Público!

Torcida única no estádio do Pacaembu. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

As principais fontes acadêmicas que aqui me basearei são Rosa (2017) e Orlando (2019) por permitem as análises mais profundas para tratar, respectivamente, dos casos argentino e paulista. Ambas possuem em comum oferecer elementos pelos quais é possível falar em máquina punitiva que surge primeiro em caráter emergencial e provisório até que se deem as condições necessárias de segurança para a volta dos visitantes.

A particularidade de cada estudo mencionado foi explorar alguma faceta do contexto para ajudar a entender como essa medida absurda não surge do nada e explica muito da conjuntura política e social de ambos países. Rosa (2017) menciona um discurso moralizador, punitivista e culpabilizador ao ser rotinizado na política atual de “governo através do delito” e, por consequência, assumindo a impossibilidade de combater suas causas. Diante do medo generalizado propõe respostas adaptativas como ajuste fiscal. Sendo aplicado no futebol para punir de forma aleatória e injusta a maioria de torcedores por uma suposta minoria acusada de delinquentes. A falta de um discurso midiático que compreenda a racionalidade das ações das barras bravas leva a uma carência da eficiência dos procedimentos jurídicos. Por isso eles nunca param de se reinventar tal qual saídos de uma máquina…

Rosa (2017) dessa forma contribui ao debate que as legislações punitivas são fomentadas por uma contradição inerente: ao incitar uma percepção vaga de insegurança com o pouco questionamento das causas sociais as obriga a apenas gerir os problemas em suas consequências, mas sem resolvê-los em suas causas para que possam ser infinitamente renovadas pelo Estado.

O caso argentino parece ainda mais fracassado do que o paulista pela maior abrangência e duração (início em 2007 na segunda divisão e em 2013 na primeira divisão) e principalmente pelo alvo ainda mais equivocado, pois lá os confrontos entre grupos dentro de uma mesma torcida são muito mais frequentes do que entre rivais!

Torcida única no futebol argentino. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Orlando (2019) já percebe desde seu início em 2016 uma necessidade inerente na torcida única em se ampliar para parecer que não perdeu ‘rigor’ punitivo quando afirma que cerca de dois anos após enquadrar os clubes da capital também passaria a valer para os de Campinas. Sobre o contexto social, trata mais das repercussões políticas da eleição de Bolsonaro e seus reflexos na sociedade. E quando inserido num contexto de arenização faz com que nos novos estádios sejam correspondentes reais das ‘bolhas’ ideológicas e super homogêneas das redes sociais. Diante dessa generalizada negação do convívio (sacrificando o que ele pode trazer de bom somente por evitar o que traz de ruim) incide uma responsabilidade maior das autoridades e organizadores das partidas de futebol, pois mesmo após a arenização e suas promessas de conforto e qualidade do ‘produto’, o torcedor como um todo segue sendo estigmatizado como potencial inimigo.

O passo seguinte de Orlando (2019) é a profunda análise qualitativa e quantitativa pelo qual identifica que a cobertura dos principais jornais do Estado de São Paulo, “Folha” e “Estado”, se atém à mera informação de momento, mas deixando como lacunas uma apropriação crítica do tema: assuntos como raízes e contexto da violência no futebol, efetividade da política de torcida única e até mesmo a legalidade da medida. O que induz ainda mais a pretensão de neutralidade ‘técnica’. Nem mesmo o seu grande entusiasta, promotor Paulo Castilho, foi capaz de citar ao menos alguma lei, norma, estuda técnico ou argumentação jurídica para lhe sustentar. Como que deixando no ar por ela se justificar por si só através da intenção de combater os torcedores violentos e fazer as famílias voltarem aos estádios.

Ambos os artigos relatam que o pouco de indignação que se vê nos meios de comunicação repete sempre que a medida é a falência da segurança pública. Acrescente-se a isso que é esboçado um cenário no qual dentro do estádio, diante das câmeras, o futebol que se quer mostrar pela televisão é de um “produto” cada vez mais previsível e sem que nenhum flagrante indesejado de tumulto apareça nas imagens.

Desse modo, não se responsabilizam pelos conflitos que possam ocorrer distante do estádio como se aquilo fosse apenas criminalidade urbana sem que tivesse nada a ver com futebol enquanto espetáculo. Sendo conveniente aos clubes não precisarem se responsabilizar por conflitos, o que eles ignoram é que junto do sofá colocado para fora da sala se está desprezando um valor crucial do esporte que é a paridade de condições de duas equipes se enfrentarem representadas por suas duas torcidas.


Leituras de Apoio

ORLANDO, Matheus Ramalho. Torcida única no futebol paulista: uma análise da cobertura da “Folha de S.Paulo” e do “O Estado de S. Paulo”. 2019. 167 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Universidade Estadual Paulista, Bauru, 2019.

ROSA, S.G. La década sin visitantes. Um análisis de los discursos sobre la prohibición del público visitante em el fútbol argentino. 2017. 98f. Trabalho de Conclusão de Curso (Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación), Universidad Nacional de La Plata, La Plata, Argentina, 2017.