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As recentes manifestações de torcidas antifascistas no Brasil

Túlio Velho Barreto

Apesar do isolamento social estabelecido pela maioria dos governos estaduais e municipais, em atendimento às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate à pandemia do Covid-19, acompanhamos no último mês a retomada de mobilizações de ruas contra o fascismo e a expansão da extrema-direita, e em defesa da democracia no Brasil. E, no âmbito de tais manifestações, um “novo” ator político tem chamado a atenção das mídias, dos agentes públicos e de especialistas. Ou seja, a participação de torcidas organizadas de futebol mais tradicionais e ou de alguns grupos que atuam em seu interior e ou mesmo de torcidas organizadas criadas mais recentemente sob a bandeira do combate ao fascismo, as autodenominadas torcidas “antifas”.

Torcedores contra o fascismo

Do ponto de vista ideológico, as tradicionais torcidas organizadas não são homogêneas. Daí, não se pode generalizar e dizer que esta ou aquela torcida está participando das manifestações como entidade. Mas, sim, que segmentos antifascistas de determinadas torcidas estão envolvidos com os protestos e as manifestações, além daquelas torcidas organizadas que já foram formadas na origem como antifascistas, como aqui já nos referimos, no embate explícito contra a extrema-direita e suas formas de representação e atuação.

Com efeito, neste momento, pelo menos, estão nas ruas aqueles setores mais politizados das torcidas organizadas e que, agora, se agruparam em torno da ideia de combater diretamente o fascismo e os manifestantes da extrema-direita. Como são pessoas, torcedores e torcedoras, que fazem parte de um grupo orgânico com reconhecidas táticas de enfrentamento ao oponente em espaços públicos, especificamente no campo futebolístico, sem dúvida, isso tem contribuído decisivamente para que se mobilizem de forma mais disciplinada e chamem mais a atenção do aparelho repressivo do Estado e de organizações e ativistas da extrema-direita brasileira.

Ato pela democracia em Brasília, 7 jun. 2020. Foto: Ricardo Stuckert/Fotos Públicas.

E, no momento em que estamos em isolamento social, um segmento altamente organizado e combativo tem muito mais chance de se tornar a vanguarda dos protestos, na medida em que tendem a “puxar” outros segmentos já organizados, como coletivos feministas e movimentos antirracistas, por exemplo, contra o que representam o governo Jair Bolsonaro-Hamilton Mourão e seus apoiadores ideologicamente mais radicais. Sobretudo porque os partidos e os movimentos sociais, e suas lideranças, não parecem estar muito dispostos ou à vontade para fazer o mesmo em função do isolamento social, além de terem mais dificuldades de mobilização atualmente por causa dos desgastes que têm enfrentado nos últimos anos, o que inclui alguns dos atores políticos oposicionistas ao governo federal.

Sem futebol, o jogo vai às ruas

Neste momento, outra questão a considerar é refletir até que ponto esses segmentos de torcidas organizadas tradicionais ou essas torcidas claramente antifascistas estariam ou não nas ruas se as partidas de futebol também não tivessem sido suspensas. É difícil cravar um definitivo ‘sim’ ou ‘não’. Entretanto, muitos estão esquecendo ou desconhecem que algumas dessas torcidas mais antigas surgiram ou ganharam a dimensão que têm hoje igualmente por razões políticas; quer por questões envolvendo os seus respectivos clubes, na luta contra um ou outro dirigente autoritário, por exemplo; quer por questões envolvendo demandas mais amplas, que extrapolavam, em certo sentido, o campo futebolístico, como aquelas ocorridas ainda nos anos 1970.

De fato, no final dos anos 1970, houve manifestações nos estádios pela anistia política; no início dos anos 1980, ocorreram manifestações pela volta das eleições diretas para presidente da República, quando da campanha “Diretas Já”, capitaneada, no futebol, pela criação do movimento que ficou conhecido como ‘Democracia Corinthiana’, influenciado por dirigentes e simpatizantes do clube, como Adilson Monteiro (sociólogo) e Juca Kfouri (sociólogo e jornalista), respectivamente, e destacados jogadores como Sócrates, Casagrande e Wladimir, entre outros; e, mais recentemente, contra a corrupção na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e federações estaduais, e a elitização provocada pela construção de arenas multiusos para a realização da Copa do Mundo da FIFA de 2014, no Brasil. E mais: ainda antes da pandemia as “antifas” já vinham se manifestando no interior dos estádios contra o governo Bolsonaro-Mourão e o fascismo. Assim como, algumas dessas torcidas protestaram contra a execução da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) com faixas nos estádios indagando quem a matou.

Agora, sem futebol, esses segmentos identificaram nas ruas a possibilidade de se manifestar contra o fascismo e os representantes da extrema-direita, que já as ocupavam de forma soberana. A razão de tomadas ou retomadas das ruas, portanto, por torcedores organizados, parece estar no fato da extrema-direita, fascista e antidemocrática, tê-las ocupado defendendo mais abertamente o retorno da ditadura civil-militar, sob o comando de Bolsonaro-Mourão, que a têm incentivado e defendido. São exatamente esses grupos que advogam a edição de medidas autoritárias semelhantes ao Ato Institucional Nº 5 (AI-5), instituído em 1968, marco inicial do período da ditadura civil-militar (1964-1985) mais violento, os chamados “anos de chumbo” (1968-1975). E adotaram o modus operandi e os rituais de grupos extremistas norte-americanos racistas, como a Ku Klux Klan (KKK), ao carregarem tochas, por exemplo, em manifestação a favor do fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília.

Brasil e EUA: a mesma luta?

Por último, mas não menos importante, é necessário refletir acerca da influência ou não de protestos ocorridos noutros países nas recentes manifestações no Brasil, como os antirracistas nos EUA, com ênfase naqueles iniciados pelas torcidas organizadas, ou por segmentos dessas, e pelas “antifas”.

Penso que, sim, a luta antirracista parece influenciar tais manifestações. No entanto, o fundamental aqui é destacar que vivemos no Brasil a convergência de uma peculiar e interminável crise política e institucional, que tem sua origem no golpe jurídico-parlamentar perpetrado contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016, que foi ampliada de forma exponencial pelo governo Bolsonaro-Mourão, e uma inédita e poderosa crise sanitária, que tem escancarado as nossas desigualdades sociais e econômicas. O certo é que, em um mundo globalizado, em que acompanhamos online os eventos que ocorrem em todas as partes do planeta, saber que há pessoas lutando contra qualquer forma de opressão tende a contribuir para mobilizar organizações, coletivos e pessoas na mesma direção ou perspectiva.

E, dentre os países de economias mais robustas e de evidentes relevâncias geopolíticas, os Estados Unidos e o Brasil são aqueles que são governados exatamente por presidentes com características e práticas autoritárias, no caso de Bolsonaro com um claro e forte discurso fascista, e no caso de Trump com um claro e forte discurso a favor de grupos extremistas, como os supremacistas brancos e aqueles conhecidos como All rigth e Unite all right inspirados na já citada KKK. São governos e organizações que não respeitam nem aceitam a diversidade e a pluralidade, que têm perfis machistas, misóginos, racistas, preconceituosos e intolerantes, enfim.

A atual luta contra o racismo nos Estados Unidos é a continuação de uma luta secular em defesa dos direitos civis e da igualdade étnico-racial em todos os níveis, inclusive político, econômico e social, o que não difere substancialmente da luta que se trava hoje no Brasil. E, embora lá a atual motivação para as recentes manifestações seja o assassinado de George Floyd, um afrodescendente, por um policial branco, portanto, por alguém que representa o Estado, devemos lembrar que o contexto social vivido lá e aqui é o mesmo. Ou seja, o da pandemia, que tem escancarado tais desigualdades em ambos os países. Isso tende a criar uma identificação entre grupos que têm as mesmas bandeiras políticas e o mesmo modus operandi; quer seja os que defendem o fascismo, o que já vem ocorrendo há um tempo, aqui e lá, e, agora, no Brasil, entre os grupos que se mobilizam contra o fascismo e em defesa da democracia.

Cenários

De forma prospectiva, poderíamos desenhar, aqui, diversos cenários. Porém, destaco aquele que considero o mais provável. Ou seja, o que aponta para a ampliação das manifestações de ruas antifascistas, com ou sem membros de torcidas organizadas, que talvez tenham apenas, e já seria muito, caso não se mantenham mobilizados, apontado um caminho, sobretudo no momento de esvaziamento das ruas como consequência do necessário isolamento social. Com efeito, já se observa o engajamentos de outros segmentos organizados contra alguma forma de opressão, como movimentos de mulheres e antirracistas.

Por outro lado, as manifestações da extrema-direita tendem, por enquanto, a refluir, em especial, porque pelo menos setores das classes médias devem recuar diante de um oponente mais organizado e mais preparado para os embates de rua. Nesse caso, restarão os pequenos grupos militarizados, formados por fascistas convictos, uma perigosa minoria alimentada pelos discursos do presidente e vice da República, seus ministros militares e civis, que, assim, engrossam o caldo da crise política e institucional, no contexto da crise sanitária. E parecem mesmo apostar no estabelecimento do caos e da desordem social, para, enfim, criar as condições, ou melhor, as justificativas para uma intervenção das Forças Armadas, segundo o que desejam os saudosistas da ditadura civil-militar de 1964-1985.

Para usar uma linguagem tão em voga nestes tempos, pode-se dizer que, sequestrada em 2016, a democracia brasileira, configurada na Constituição Federal de 1988 e nos poderes constituídos, incluindo aí o Congresso Nacional e o STF, tem sido barbaramente torturada desde a chegada ao poder da dupla de militares e seus asseclas. Se sobreviverá ainda não sabemos. O resultado desse jogo em muito vai depender dos atores políticos que compõem o Legislativo e a Suprema Corte, mas, sobretudo, dos que, nas ruas, não temem em resgatá-la de seus algozes. Portanto, trata-se de “jogo a ser jogado”, como é comum se ouvir em meio a torcedores e torcedoras de futebol. Esperemos que, ao final desse embate, não sejamos vítimas de um novo sete a um.