16.2

Torcidas Organizadas de Futebol: Percurso de estudos do GEFuT – UFMG

Gibson Moreira Praça, Izabela Guimarães Augusto

As Torcidas Organizadas ocupam um lugar importante nos debates esportivos atualmente. Tanto academicamente quanto na imprensa, observa-se que a discussão perpassa pelo enaltecimento dos componentes estéticos que elas trazem para o espetáculo como suas músicas, faixas, sinalizadores, bandeiras e gestos coreográficos e pela associação entre estes grupamentos e gestos violentos, nem sempre comprovadamente oriundos das Torcidas Organizadas.

Para auxiliar no entendimento destes grupamentos, o GEFuT – Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas, na UFMG, tem, desde 2008, investigado este universo, procurando trazer ao meio acadêmico mais elementos que auxiliem na elaboração de opiniões fundamentadas sobre as Torcidas Organizadas. Além disso, tendo em vista a concentração de estudos no eixo Rio – São Paulo, pretendemos aumentar o entendimento do funcionamento e das dinâmicas impostas por estas agremiações no estado de Minas Gerais, entendendo que este Estado apresenta particularidades que tornam difíceis generalizações a partir da lógica de outras regiões do país.

Inicialmente realizamos o estudo “Levantamento e Análise das Torcidas Organizadas de Minas Gerais”, através do qual buscamos compreender como se davam a organização, as manifestações, as relações estabelecidas intra e intertorcidas e as relações que as Torcidas Organizadas (TOs) estabeleciam com seus respectivos clubes e com a sociedade. Finalizando este estudo, concluímos se tratar de um universo heterogêneo. Como exemplos dessa heterogeneidade, destacamos dois pontos. Percebeu-se que enquanto algumas TOs têm milhares de associados, outras são representadas somente por algumas dezenas, o que leva a diferenças na convivência dos membros no dia-a-dia das torcidas, etc.  Além disso os laços engendrados a partir de relações externas aos momentos do jogo se mostraram diferentes para cada agremiação, sendo exemplos a identificação com um gosto musical específico, a associação da TO a um moto-clube, etc.

Depois de finalizado este estudo, apresentou-se uma nova demanda para o grupo: conhecer quem eram os torcedores que faziam parte destas torcidas. A partir de então elaboramos o novo estudo, iniciado em Abril de 2010 e com previsão de término para Abril de 2011, intitulado “Perfil de torcedores organizados em Belo Horizonte”. Neste estudo objetivamos conhecer o perfil de torcedores organizados que participam de dez Torcidas Organizadas – as mesmas do estudo anterior – da cidade de Belo Horizonte. Metodologicamente, temos adotado a coleta de questionários em eventos e concentrações de cada torcida, sendo este ponto ideal para a coleta informado pelos diretores.

Temos notado no contato com os diretores e com os membros das TOs durante as coletas que a heterogeneidade apontada na pesquisa anterior tem se confirmado. A organização de cada Torcida Organizada apresenta-se diferente, o que tem levado a locais e estratégias para a coleta dos questionários distintas. Além disso, o discurso adotado pelos diretores apresenta-se também heterogêneo. Enquanto alguns concentram suas falas na exaltação de aspectos positivos da sua torcida, outros se mantêm reticentes sobre os rumos que tomarão a agremiação, devido os últimos acontecimentos – interdição dos dois principais estádios de Belo Horizonte para reformas visando a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e as novas determinações do Estatuto de Defesa do Torcedor – e o impacto que eles têm causado no dia-a-dia de cada Torcida Organizada.

Não queremos aqui nos posicionar como defensores de Torcidas Organizadas. Somos favoráveis sim a qualquer prática que auxilie a tornar o momento de uma partida de futebol mais belo, mais rico, trazendo ainda mais emoção para aqueles que participam. Neste ponto, somos favoráveis às ações que ao longo das últimas décadas têm sido desenvolvidas pelas Torcidas Organizadas. Repudiamos sobremaneira qualquer atitude violenta que torne uma partida de futebol um lugar impróprio para a presença de famílias e para a vivência íntegra de momentos de lazer, sem no entanto, depositarmos, por não conhecermos o que realmente acontece, sobre as TOs, a responsabilidade por tais atos.

Como citar

PRAçA, Gibson Moreira; AUGUSTO, Izabela Guimarães. Torcidas Organizadas de Futebol: Percurso de estudos do GEFuT – UFMG. Ludopédio, São Paulo, v. 16, n. 2, 2010.