115.9

Torcidas organizadas e escolas de samba (I): os Gaviões da Fiel

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Luigi Bisso Quevedo

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A proposta aqui é trazer os relatos orais das lideranças de torcidas organizadas, de modo a entender o processo de transformação desses subgrupos torcedores nas associações recreativas conhecidas como escolas de samba. Foram entrevistadas duas dezenas de líderes dessas associações, entre fundadores, ex-presidentes, lideranças e atuais presidentes de agremiações carnavalescas. À luz dos depoimentos, o objetivo é compreender como a memória coletiva desses subgrupos enquadra e justifica o surgimento dos grêmios associativos, quer seja como bloco quer seja como escola de samba. Para tanto, expomos os discursos nativos e as justificativas apresentadas por líderes de cada uma das torcidas-escolas.

Primeiro dia dos desfiles das escolas de samba do grupo especial de São Paulo, o desfile da Escola de Samba Gaviões da Fiel, em 2016. Foto: Paulo Pinto/LIGASP/Fotos Públicas.

 

Os Gaviões da Fiel, cuja fundação remonta a 1969, são uma torcida pioneira na conversão para o universo do carnaval paulistano. Já em 1975, o grêmio torcedor institui um bloco carnavalesco, vencedor de sucessivos desfiles de rua nos anos 1970 e 1980. Em 1988, após 13 títulos de carnaval consecutivos, o bloco torna-se uma Escola de Samba e passa a desfilar no carnaval, entre as principais agremiações. As conquistas se sucedem até o presente momento, sendo que, por quatro vezes, os Gaviões venceram o Grupo Especial do carnaval de São Paulo.

Dessa torcida-escola corinthiana, foram entrevistadas cinco lideranças, que comentaram diferentes aspectos da participação do grupo no carnaval, cujos temas serão abaixo mencionados: Francisco José (Chico) Malfitani; José Claudio de Almeida Moraes (Dentinho); Sérgio Romano (Paracatá); Alex Sandro Gomes (Minduim); e Wildner D’Paula Rocha (Pulguinha).

Na entrevista, o fundador da torcida, Chico Malfitani, conta a história da criação do bloco de carnaval da Gaviões que, na sequência, deu origem à Escola de Samba. Segundo Malfitani, a iniciativa do bloco surgiu da iniciativa de membros de uma ala da Vai-Vai, tradicional agremiação do bairro do Bixiga, que decidiram formar um bloco próprio ligado diretamente aos Gaviões.

O fundador da torcida Gaviões da Fiel: Chico Malfitani. Foto: Museu do Futebol.

É, começou com aquela coisa de tentar levar para a Tiradentes. Ia muita gente da Bela Vista, que era do Vai-Vai. A Gaviões nasceu ali, o núcleo principal era do Bexiga, da rua Rocha. Tinha muita gente, os dirigentes da Vai-Vai eram membros da Gaviões. A bateria nossa tinha gente da Vai-Vai. Então resolvemos fazer um bloco. Eu não sou um cara do carnaval, sempre fui daqueles chatos da Gaviões que fala: “assisto só futebol”.

Malfitani apoia a permanência da Gaviões no carnaval, pois acredita que a Escola ameniza as tensões da torcida no futebol, além de proporcionar um ambiente distinto daquele vivenciado no estádio.

Tem gente que acha que a escola de samba atrapalha um pouco a Gaviões. Não é que atrapalha, ela toma um tempo e um peso grande; mas eu sou a favor das escolas de samba, porque elas suavizam o embate da torcida organizada. Vem gente de tudo quanto é lugar participar, a gente vê que não é aquilo que os jornais e a televisão dizem, que é um bando de louco que querem matar um ao outro. É normal, é uma farra, é gostoso, é divertido. Você vai no ensaio da escola de samba na sede da Gaviões lotada na quadra, fora da quadra, o cara se assusta. Não tem perigo nenhum, vai família, vai criança, mãe, avó, a família. Acho legal isso.

O fundador do grupo relata que, no primeiro ano em que decidiu participar do desfile, um dos carros alegóricos não funcionou e a Gaviões foi rebaixada, rendendo a ele a pecha de “pé-frio”.

Só que eu nunca participei. Conheço a turma lá, são meus amigos. Todos os anos me convidam para desfilar na Gaviões, e o ano que eu resolvi ir: “você tem que ir, você é um dos fundadores, você vai ter um carro que é em homenagem aos fundadores, vai estar até com uma imagem do Joca”. Fui. Foi o ano que quebrou o carro que eu estava, a mão do Joca pegou no relógio. Eu nem vi, estava tão amimado em cima do carro, dançando. Eu fiquei com fama de pé frio. “Fundador da Gaviões, o único ano que o cara vai, a escola de samba é rebaixada”.

Já Paracatá narra em mais detalhes a origem do bloco dos Gaviões e confirma que a decisão de participar do carnaval devia-se ao tempo de dispersão da torcida durante o início do ano, quando o calendário do futebol se encontrava em recesso. Os membros da torcida participavam da Vai-Vai pela afinidade cromática, a cor preto-e-branca. A primeira iniciativa foi uma ala dentro do desfile dessa escola, levando-a a desenvolver um bloco próprio da Gaviões. Após o segundo lugar no Grupo de Acesso, a torcida passou a ter uma representação definitiva no carnaval.

Paracatá conversa com Bernardo Buarque. Foto: Museu do Futebol.

Esta liderança considera que a Gaviões foi responsável por propiciar uma enorme atração popular à festa carnavalesca. O entrevistado diz ser muito ligado ao carnaval e que por diversas vezes chegou a empurrar carros alegóricos nos desfiles. Conta que, ao contrário das demais torcidas-escolas, não há uma diretoria separada juridicamente para a organização do carnaval.

O propósito do carnaval nos Gaviões foi assim: na década de 1970, tinha o Campeonato Paulista e o Campeonato Brasileiro. Nesse período que terminava o Paulista pra começar o Brasileiro, o nosso pessoal se dispersava. Ia pro Camisa Verde e Branco, pro Vai-Vai, pro Rosas de Ouro, pra Mocidade. O pessoal falou: “meu, que tal a gente fazer uma ala?”. Essa ala nasceu na escola de samba Vai-Vai, por ser preto e branco. Essa ala cresceu muito na Avenida São João. A nossa rapaziada resolveu fundar o bloco Começou na São João e terminou na Tiradentes. Se não me engano, de 14 disputados ganharam 13 vezes. Nós fomos convidados a sair no grupo de acesso, um abaixo da elite. A gente ficou em segundo lugar e deu o direito de ir para a elite do samba. E estamos até hoje. Então, nós já ganhamos quatro vezes. O Gaviões, com todo respeito, mudou muito o carnaval paulista, a nível de público, de mudanças de carros alegóricos. É ensaio técnico no sambódromo com três mil pessoas, quatro mil pessoas. No Anhembi, o público é 35 mil pessoas. O Gaviões faz parte da cultura da capital paulista, pode ter certeza. Hoje eu saio na diretoria, porque eu já estou “tiozão” (risos). Mas já empurrei carro alegórico. A importância de uma pessoa empurrando o carro tem o mesmo valor de um cara que sai com nosso pavilhão – pode ter certeza disso. E tudo isso pra proporcionar o nome Corinthians. A gente faz um carnaval pra corintiano.

A torcida na arquibancada é a prioridade da diretoria, mas o carnaval não é deixado de lado. Paracatá reconhece que a formação da escola de samba da Gaviões influenciou outras torcidas a aderirem ao carnaval e a criarem suas próprias agremiações. Não entende que haja chance de a violência das arquibancadas transferir as tensões para o carnaval e estima que a Gaviões seja hoje parte integrante da melhor tradição da elite das escolas paulistanas.

Afirma, por fim, que o tema dos enredos traz sempre alusão ao Corinthians e à sua história. Em alguns casos, o enredo é utilizado para combater as medidas de restrição contra a torcida, como a proibição de faixas e de camisas com o nome do grupo nos estádios.

A nossa razão chama-se arquibancada. Carnaval é nosso lazer. Nosso a priori é arquibancada, é o Corinthians. Mas o carnaval, é lógico, a gente vai representar e vai correr atrás pra gente ganhar também – pode ter certeza. Tem o trabalho, festas, mil atividades referentes ao carnaval. A gente jamais vai deixar de fazer uma bandeira pra fazer um carro alegórico – pode ter certeza disso. A prioridade é a nossa bandeira. Se tiver que comprar um bambu, a gente não vai comprar um adereço – pode ter certeza. Mas é bem organizado, o carnaval sai todo ano sai. A gente tem uma equipe boa – a verdade é essa. A gente tem uma equipe boa, tem pessoas responsáveis. Carnaval é bem separado, entendeu. E também a gente não se preocupa com A ou B. A gente se preocupa com a gente, não tem rivalidade. A gente fala por nós. A gente gosta de falar da gente. Não sei se vocês lembram, a gente falou do Corinthians há cerca de dois anos, o centenário… Sabe, ali estava o nosso mundo, ali estava a nossa história. Como em 1998 a gente falou da proibição da nossa camisa. Era um refrão: “Corinthians, a razão do meu viver, com ou sem minha camisa, o meu mundo é você”. Então, o “Me dê a mão me abraça”… 2000… 1995! As nossas bodas de prata, foi maravilhoso. Mas nada é melhor que uma arquibancada (risos). Nada, nada, nada, nada… Isso é adrenalina, né.

Já José Claudio de Almeida Moraes, vulgo Dentinho, presidente da torcida por duas vezes nos anos 1990, diz que pessoalmente nunca gostou muito do carnaval e que seu gosto musical sempre foi ligado ao rock. A adesão à cultura do samba foi uma decorrência do seu envolvimento com a torcida:

José Claudio de Almeida Moraes, o Dentinho, já foi presidente da Gaviões da Fiel. Foto: Museu do Futebol.

Eu nunca fui muito fã de carnaval, não. Eu era muito ligado ao rock, da época antiga, Led Zeppelin e aí por diante. Aí eu entro nos Gaviões, e os Gaviões tinham o movimento do bloco, que surgiu em 1976. O nosso primeiro desfile oficial, 1976, mas antes a gente já participava. A Record tinha um concurso de bandas de fanfarra, na época, em 1975, que desfilava na São João. A gente participou em 1975, desse concurso, e ganhamos. Tinha a UESP – União das Escolas de Samba. O Flávio La Selva, sim, era ligado ao carnaval. Tinha o Ângelo Flazanela, que era presidente da Vai-Vai e era ligado aos Gaviões também. Aí o Ângelo colocou essa ideia para o Flávio, para o Joca, para o Júlio. Porque no período de carnaval a gente se dispersava um pouco. Chegava dezembro, acabava o campeonato, começava em fevereiro. Na época do carnaval, o que a gente fazia? Para não se dispersar, o pessoal reunia um grupo e desfilava no Vai-Vai. Aí formou uma ala, 200, 300 caras. Tinha o Tadeu, que é hoje diretor de bateria, ele foi diretor de bateria dos Gaviões E aí começou o bloco, aí eu também entrei no embalo, “vamos lá desfilar”. Os Gaviões estavam na parada, eu vestia a camisa dos Gaviões, vamos desfilar. Aí você vai gostando, mas eu nunca participei assim… Se você falar: “Você frequenta outras escolas?”, “não”. Eu vou nos Gaviões, eu gosto de sair nos Gaviões.

Em seu relato, a Escola de Samba tornou-se uma realidade com as conquistas do carnaval ao longo dos anos 1990, quando presidiu a torcida. Desde então, passou a adotar o estilo carnavalesco carioca e assim garantiu a maioria dos carnavais nos anos seguintes. Dentinho entende como positiva a decisão da agremiação de manter o escudo do Corinthians, em contraposição às demais torcidas que não utilizam o símbolo de seus times para evitar problemas legais com o clube e com a Liga.

Dentinho afirma que a Gaviões nunca teve problemas clubísticos em relação ao uso legal do símbolo e nem que deve satisfações à Liga sobre esse assunto:

Se as outras assumem que carnaval é uma coisa e torcida é outra, nós não. Os Gaviões são uma coisa só. Tanto que a maior briga da Ligas das Escolas de Samba até hoje, desde o início, é que a gente tire o símbolo do Corinthians, mas a gente não tira. Porque o dia que tirar a gente acaba, porque o carnaval a gente faz pelo corinthiano. A gente não vai lá e abre espaço. O cara pode até ir, um cara que seja admirador, enrustido, mas que ele vai cantar o hino, um dia ele vai cantar. [Risos] Então, é diferente, a Mancha hoje ela não coloca o escudo do clube. Nesse desfile, homenageando o Palmeiras, eles vão colocar símbolo, porque autorizaram. Mas o símbolo da Mancha, oficial do carnaval, não tem o símbolo do Palmeiras. Como a Dragões também não tem, eles podem ter até o boneco lá, mas o símbolo do São Paulo não. Uma grande coisa que pega na Liga é a Gaviões que tem o símbolo lá. Eles ficam doidos! Quanto maior o carro, maior o símbolo. Eles ficam danados. Isso sempre foi o debate deles. Nós não temos o porquê de ser uma escola separada. Nós somos Gaviões, fomos bloco e somos escola, é um braço de atuação nosso. Mas não que seja o principal. O dia que resolver que os Gaviões não vão desfilar mais, a gente não vai desfilar, a gente abre mão. Mas nós vamos continuar a ser Gaviões da Fiel. Agora, nós nunca mudamos de nome. Eu não vou ficar em um debate se “a”, “b” ou “c” mudou de nome por questão jurídica, judicial lá. Mas a gente sempre teve as razões para brigar, para manter o nosso nome.

Em contrapartida, Dentinho considera que o carnaval pode ser diretamente afetado pelas tensões existentes no universo das torcidas. O entrevistado classifica a violência como obra de gangues e não do torcedor organizado comum, mas que a rivalidade no futebol pode acabar por prejudicar o desempenho no carnaval, caso ocorra um ato violento antes, durante ou após um desfile. O ex-presidente da torcida diz que o tensionamento de agremiações rivais existe e que a situação é crítica na atual conjuntura. Por isto, faz-se necessário separar as torcidas em dias diferentes de desfile, tal como já vem sendo feito.

A tensão do futebol vai para o carnaval. Hoje existe uma tensão muito forte entre Corinthians e Palmeiras. Está muito forte por causa dos acontecimentos extra campo. Que nem teve a ver com futebol, nada. É o que eu te falei no início, são coisas de gangues. Eu falo que é gangue. Agora, essa tensão transfere, o carnaval tem que tomar cuidado. Então, aí entra os presidentes para fazer o contato, se não o carnaval vai entrar também, aí vai prejudicar todo mundo. O Paulinho Serdan tem esse controle, ele falou não vai ninguém lá, não vai. Os Gaviões iam em peso no dia da apuração. Hoje não vai mais ninguém, por causa das confusões. Não foi só nossa aquela confusão lá, aquela vez naquela apuração. Tudo é questão de acordo, espero que esse acordo não se acabe como se acabou os acordos com torcida. Espero que não, senão o carnaval vai entrar no mesmo clima. Não digo agora um, dois, três, quatro, não sei quantos anos. Mas, futuramente, eu acho o grande perigo que aconteça sim, eu não tenho dúvida, não. Porque o que acontece antes do carnaval vai para o carnaval. Não tem jeito. Vai chegar uma hora… É o que você falou, como que a Liga vai conciliar se ficar quatro ou cinco no mesmo grupo? Como vai dividir esses dois grupos? Aí vai dividir horários? Uma desfila na primeira e outra na última para nem se encontrar mais. Então, vai ficar difícil, não é?

Em seu depoimento, Alex Minduim, reconhecida liderança política do grupo, observa que a fundação das escolas impediu muitas das torcidas de serem fechadas, quando de sua proibição nos estádios, em função dos casos de violência e do aumento do valor dos ingressos nas arenas, que dificulta a presença dos agrupamentos torcedores nos jogos:

Alex Minduim durante a entrevista realizada no estádio do Pacaembu. Foto: Museu do Futebol.

O que fez com que as torcidas, de certa forma, permanecessem no cenário? Foi que, no caso dos Gaviões da Fiel, ela era também uma escola de samba. E não era qualquer escola de samba. Isso fez com que as torcidas permanecessem no cenário, pelo menos a discussão ali: pô, esses caras existem; não, tem ainda, os caras estão indo no estádio. Agora teve um momento das torcidas, simplesmente, quase chegarem – não a zero, mas bem próximo a isso. As lideranças começaram a se dissipar, enfim, e as torcidas começaram a se atrofiar.

Pulguinha, outra referência importante, conselheiro eleito na torcida em mais de uma votação, conta que seu primeiro contato com a Gaviões foi a partir do carnaval. Para o dirigente da Gaviões, o carnaval é um espaço de lazer e integração entre membros os da torcida. Não obstante, o conselheiro critica a comercialização excessiva do carnaval. A seu juízo, ela torna a celebração refém da mídia, desvirtua os valores culturais tradicionais e exclui o torcedor de baixa renda, impedido de participar dos desfiles em função do preço das fantasias:

Pulguinha. Foto: Museu do Futebol.

O primeiro contato com os Gaviões fisicamente foi através do Carnaval. Eu já ia em jogo muito tempo, mas eu tive convívio com os Gaviões indo no Carnaval dos Gaviões. Eu não sou contra o Carnaval nos Gaviões. Ao contrário, o Carnaval é maravilhoso. O momento que a gente não tem jogo do Corinthians dentro da entidade, a gente organiza um ensaio, a gente vê todo mundo lá, nossos amigos, entendeu? Hoje minha filha é porta-bandeira. Hoje eu vou lá e vejo minha filha dançando lá, toda semana eu me emociono com ela. É gostoso o Carnaval. O que eu sou muito crítico é o modelo de Carnaval do município de São Paulo. É um Carnaval-produto. Quem gera é televisão. Isso aqui é uma cultura nossa, de cidadão paulistano e hoje é apropriado pelas escolas de samba, lógico, sim, mas distorcida pelas marcas, as empresas e até os dirigentes das escolas. Os Gaviões vêm como um fenômeno no samba, estão investindo e tal. Criaram um monte de regra para moldar a nossa postura na maneira de fazer Carnaval, porque a gente era muito diferenciado das outras. Já não é Carnaval. O Carnaval era uma festa livre, que o peão se vestia de mulher para você ironizar as pautas da sociedade, para você contar história, lembrar tema. Hoje não, hoje é tanto conceito mercantilista imposto, que hoje a escola de samba escolhe um tema para ver qual o recurso que vai vir em cima disso. Trezentos reais em uma fantasia? E sabendo que em muitas escolas os presidentes são de um sistema vicioso, se enriquecem com o dinheiro dos foliões, se enriquece com o dinheiro que vem de subsídio do município, certo? Não tem uma coisa regulamentadora disso.

*

Eu cresci curtindo o Carnaval, bateria, folião, ala das bandeiras. Curti. Determinado momento, eu tive que começar a organizar e fazer. E aí foi onde a gente viu muita coisa, muita coisa orquestrada, resultados duvidosos que foram manipulados. A gente viveu uma experiência da queda dos Gaviões, porque a gente tinha brigado com os caciques do samba. Para a gente, ou seja, hoje todo presidente que passa pelos Gaviões tem a vaidade de falar: “A gente tem que fazer dois carnavais bonitos.” E aquela coisa, o carnaval, hoje dirigente de escola de samba é tipo… É um mini artista. O cara [inaudível], onde vai e tal. Então se não tiver estômago, jogo de cintura, deslumbra. Deslumbra mesmo, você entendeu? Deslumbra pra caramba. Então nos Gaviões muita gente a favor, muita gente… Difícil falar: “Não gosto do Carnaval.” Ninguém gosta desses valores que trazem lá para dentro. Como hoje é muito dinheiro que movimenta, aí tem pessoas que querem trabalhar em setores que movimentam receita, ou que dão retorno. Hoje um chefe de ala dos Gaviões, ele tem um retorno de uns quase R$ 40 mil. Em um projeto de seis meses, mano? Que trabalhador que ganha em seis meses R$ 40 mil? Falando trabalhador, não patrão. Trabalhador. É um trabalho muito desgastante, mas para quem vive e gosta e tal, depende do setor, dá retorno. Depende do setor. Eu, particularmente, nunca me prendi a nenhum dos dois, a ter cargo no Carnaval. Gosto do Carnaval, de passar na avenida, não gosto de organizar isso. E até pelo produto final que é. Se fosse um produto final bom para a sociedade, bom para a coletividade, puro, distribuído. Mas não, uma coisa que os resultados pingam de forma muito individual. E o que você vê em torno… A cultura do nosso Carnaval de São Paulo é ruim. A gente nos Gaviões tem que fazer diferente.

Pulguinha afirma que o trabalho do diretor de escola de samba é desgastante e exige uma enorme dedicação de tempo, embora se trate de trabalho bem remunerado. O nível de exigência sobre o dirigente da escola é muito grande, pois há a obrigação de fazer uma ótima atuação tanto na quadra e nos ensaios quanto na arquibancada. Como os demais líderes, também enfatiza o princípio de manutenção do escudo do Corinthians, pois a torcida é a representante do clube no carnaval. A enorme batalha jurídica para utilizar o escudo do clube foi compensada pelo fato de que até o membro da Vai-Vai reverencia a Gaviões.

Pulguinha discute o fato de as duas diretorias, a da torcida e da escola, ainda serem conjuntas, o que para o entrevistado é um fator negativo, pois acaba por desvirtuar os dirigentes devido ao alto nível de corrupção da Liga. Para Pulguinha, a Liga é corrupta e influencia quem serão os vencedores no carnaval. No entendimento deste dirigente gavião, apesar de a Liga não poder barrar a entrada de novas escolas com base em torcida, ela é capaz de suprimir as novatas, como faz com a Dragões e com a Torcida Jovem.

Pulguinha ressalta que a Gaviões tem sofrido uma queda na qualidade do desfile, mas isto se deve principalmente ao fato de que a mercantilização tem diminuído o acesso do torcedor ao desfile. Além disso, as outras escolas não ligadas ao carnaval, como a Vai-Vai e a Mocidade, estão apresentando um desempenho melhor. Na avaliação desta liderança, o desfile em si não tem importância, mas sim a preparação e a mobilização da comunidade gaviã na quadra.

Pulguinha encerra o depoimento expressando suas preocupações com a violência no carnaval:

Problemas e riscos têm. A gente já convive com a Jovem no carnaval há muitos anos. Mas com a Mancha já estamos há alguns anos vivendo a experiência. Pegamos um Carnaval em que realmente o clima estava muito tenso e a gente tem revertido. É o que eu falo, vai do papel das lideranças quererem fazer alguma coisa. Se tiver o clima e não tiver trabalho feito, é risco sim de acontecer alguma coisa. Como agora há um risco. Se o nosso presidente não for lá, não sentar com o policiamento, não sentar com o Serdan e tentar fazer alguma coisa, deixar à mercê, a gente está no risco de problema grande. Mancha e Gaviões têm que ser um horário diferente, por causa do público. Horário diferente, mas a Mancha vai entrar naquela entrada, Gaviões nessa. Gaviões no Anhembi, você vai olhar no entorno lá está vindo gavião do bueiro, do Tietê [risos]. O cara sai da faculdade de Santana, nêgo está atravessando de tudo que é lugar. Você fala: “Nossa”. E a Mancha também já é um público maior. Tem que tomar todos os cuidados. Do mesmo jeito que a gente faz em um grande jogo, sentar anteriormente e pegar o mapa do lugar, fazer um preventivo, o Carnaval está na mesma linha. Qual é o calendário ali, ensaio técnico… A Liga já não põe os Gaviões e a Mancha juntos, mas pode pôr a Dragões na mesma noite. Estamos convivendo ainda.

*

Dentro do Anhembi, tem uma consciência grande de todo mundo. Minha preocupação é o trajeto, o caminho, o público lá fora. Eu tenho receio com essas coisas. Agora, dentro do Anhembi, se a Liga continuar trabalhando com essa prevenção aí, dá para conviver sim, dá para trabalhar, dá para fazer o Carnaval. Até porque também esse temor não é de hoje. Antigamente esse temor era a guerra da Vai-Vai com a Camisa Verde Branco. Os caras contam umas histórias bem mais loucas que isso. De tiro, de não sei o quê, de tal. As histórias antigas do samba são bem piores. Hoje a gente que está levando temor para lá, porque a imprensa também desenha o temor da coisa. Então acaba sendo uma rede, sempre tendo o risquinho e a imprensa falando e tal. Enfim, é só a Liga continuar trabalhando, os presidentes das entidades, que vai.

De acordo com o depoente, para que o carnaval continue sem problemas, pois, deve ser feito um planejamento do espaço da avenida e uma organização prévia dos desfiles, nos mesmos moldes em que são feitas as partidas de futebol. Na sua opinião, o problema maior é o controle das torcidas do lado de fora da Avenida, onde as tensões decorrentes da livre-circulação são mais prováveis de gerarem conflitos.