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Torcidas organizadas e escolas de samba (II): Mancha Verde

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Luigi Bisso Quevedo

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A proposta aqui é trazer os relatos orais das lideranças de torcidas organizadas, de modo a entender o processo de transformação desses subgrupos torcedores nas associações recreativas conhecidas como escolas de samba. Foram entrevistadas duas dezenas de líderes dessas associações, entre fundadores, ex-presidentes, lideranças e atuais presidentes de agremiações carnavalescas. À luz dos depoimentos, o objetivo é compreender como a memória coletiva desses subgrupos enquadra e justifica o surgimento dos grêmios associativos, quer seja como bloco quer seja como escola de samba. Para tanto, expomos os discursos nativos e as justificativas apresentadas por líderes de cada uma das torcidas-escolas.

Desfile da Mancha Verde durante o segundo dia de apresentações das escolas de samba do Grupo Especial de São Paulo em 2017. Foto: Paulo Pinto/LigaSP.

A segunda torcida-escola da série é o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Mancha Verde, ligado à Sociedade Esportiva Palmeiras. Se a torcida foi fundada no ano de 1983, é em meados da década de 1990 que a mesma se estrutura como bloco carnavalesco e, na sequência, como escola de samba. Essa estruturação foi estimulada não apenas pelo título da rival Gaviões no carnaval de 1995 como pela crise por que passou a torcida naquele decênio, proibida de ingressar nos estádios, por sanções impostas pela Federação Paulista de Futebol (FPF), após incidentes de violência protagonizados no futebol, na esteira da chamada “batalha campal” do Pacaembu.

Seus ensaios carnavalescos ocorrem em pavilhão situado na rua Norma de Luca, no bairro da Barra Funda, nas proximidades da sede do clube, onde também são feitas as festas comemorativas da torcida. Em 2018, foi terceira colocada nos desfiles do Grupo Especial da Liga paulistana, a melhor colocação na história do grêmio. Oscilando entre ascensos e descensos na elite do carnaval de São Paulo, pode-se dizer que constitui a terceira escola-torcida em ordem de importância, atrás da Dragões da Real e da Gaviões da Fiel, que obtiveram títulos e se firmaram na primeira divisão com maior regularidade nos últimos anos.

Para colher informações sobre esta, selecionamos depoimentos de dois entrevistados: Paulo Rogério de Aquino, o Serdan, fundador da torcida Mancha Verde e atual presidente do G.R.C.E.S. Mancha Verde; e Jânio Carvalho, presidente da torcida entre 2006 e 2008, hoje afastado do grupo. Em muitas torcidas-escolas, apesar da separação de estatuto jurídico, a presidência da Escola de Samba fica a cargo de uma antiga liderança ou de um fundador da torcida. Na prática, esta tradição funciona como uma espécie de prolongamento do status na “carreira”, por assim dizer, do torcedor. É o caso de Serdan na Mancha, mas também de Tomate na Dragões, de Marcelo na TUP ou de Batata na Independente, como veremos nas próximas publicações desta série.

Vamos começar o texto de hoje com Serdan, há anos à frente da escola e mentor de muitos dos sambas-enredo da torcida. Para ele, na atualidade, a atuação da escola de samba oferece uma experiência mais prazerosa que a da torcida, pois permite a participação mais diversificada, por assim dizer, familiar, dos seus componentes. Considera a experiência no carnaval diferente daquela vivida nas arquibancadas:

Paulo Serdan, ex-presidente da Mancha Verde. Foto: Museu do Futebol.

Eu levei em paralelo (a torcida e a escola) até o ano de 2005. Em 2005 eu zerei com a torcida, entreguei e falei: “Para mim não dá mais”. Porque eu já não ia muito em jogo. Eu administrava tudo, tocava tudo. Mas eu já não estava, já não tinha mais a paciência de estar em jogo. E aí fiquei só voltado ao carnaval, mesmo. Algumas coisas, quando me pedem na torcida, eu procuro ajudar; se não me pedem, eu procuro observar de longe. Algumas coisas me incomodam, mas eu também não me manifesto. Sou o atual presidente da escola. Nos primeiros mandatos, eu não era. Mas eu já devo estar na frente uns quatro ou cinco mandatos. E hoje eu estou tão democrático, cara, a gente junta todo mundo e fala, mas ninguém quer pegar. Porque é assim, acho que eu encontrei no carnaval uma forma de continuar carregando o nome do Palmeiras, só que de uma forma muito mais suave, muito mais gostosa, aonde você pode agregar a família. Então, no carnaval, a coisa ficou um pouco mais simples de você agregar isso. A falta que de repente a torcida pudesse fazer, a gente compensa com o carnaval. Então acaba sendo gostoso demais. É um trabalho legal. Eu acho que a gente consegue elevar o nome do clube ainda, entendeu?

O entrevistado conta que o primeiro desfile da Mancha como bloco ocorreu no ano de 1996. Após a criação deste, a Mancha conseguiu avançar até o primeiro grupo de blocos em 1999, ocasião em que foram os vice-campeões. O líder acredita que foram prejudicados na pontuação daquele ano, devido à decisão de um juiz em descontar pontos por erro ortográfico no enredo, o que gerou uma revolta da agremiação. A suspeita de terem sido trapaceados vai estimular a decisão interna de transformar o bloco em escola de samba, indo contra a vontade da Liga, que não queria mais “torcidas-escolas” na elite do carnaval.

Mesmo contra a vontade dos organizadores, a Mancha estreia em 2000 como escola e, em 2004, já faz parte do Grupo Especial, espécie de primeira divisão do samba:

Em 1996, foi o primeiro desfile da gente como bloco. Foi uma trajetória bem rápida: em 1996, a gente foi vice-campeão do Grupo de Acesso de Bloco; em 1997, a gente foi campeão do Grupo 1 de Blocos; em 1998, já no Grupo Especial, a gente foi campeão; em 1999, a gente estava construindo a nossa primeira quadra e, sem recurso, estava gastando todo o dinheiro, mas a gente fez um grande carnaval e foi vice-campeão… E mesmo assim, esse vice-campeonato, a gente se sentiu roubado, porque foi letra de samba, correção de erro de português. Isso não existe. No carnaval não existe você corrigir letra de samba, erro de português que nem existia. O cara falou que tinha um erro de concordância, só ele encontrou aquilo. E aí a gente aproveitou esse lance para se tornar escola de samba. Aproveitei isso para fazer uma política e “pular” para escola de samba. Porque eles estavam meio que fechados, não queriam que tivesse mais escola, e a gente conseguiu usar isso… Porque todo mundo viu que foi má intenção mesmo do jurado. A gente conseguiu se tornar escola de samba em 2000. Foi o primeiro carnaval nosso. Então, em 2000, a gente foi vice-campeão do Grupo 3; em 2001, a gente foi campeão do Grupo 2; em 2002, a gente foi campeão do Grupo 1 e aí fomos para a Liga, no Grupo de Acesso. Em 2003, a gente foi terceiro lugar, que também a gente contesta demais, também corrigiram um erro de português nosso, também, ainda na Liga. E aí, em 2004, a gente já subiu para o Grupo Especial. Então a gente ficou um ano só no Grupo de Acesso e aí foi para o Especial.

Serdan entende que a criação do bloco e sua evolução para escola foi importante para manter a unidade, até mesmo a sobrevivência, da torcida, que havia sido proibida de entrar nos estádios em meados dos anos 1990. Assim ele se relembra:

Em 1996, aquele time do Palmeiras e a gente estava proibido de entrar no estádio. A repressão da polícia era forte. Tinha jogo que a gente ficava jogando bola no Águia de Ouro. O Palmeiras jogando no Parque, a gente não ia, ficava reunido lá, jogando bola e o caramba, porque não tinha condição de ir. A gente ia para jogo fora. Mas aí começou a se viver muito o carnaval. E o carnaval, realmente, foi o que deu sustentação para que a torcida sobrevivesse e vingasse. Era o pessoal da torcida, já existindo uma renovação. Porque a gente perdeu muito quando fechou, em 1995. Muita gente, mas muita gente se afastou, mesmo. E aí só ficou mesmo quem queria mesmo. E aí foi indo… Esse ano (2015), a gente deve sair com uns 4.200, mais ou menos, ou 4.300 [integrantes]. Essa deve ser mais ou menos a conta. A gente já vem num tamanho até um pouco perigoso, mas mais do que isso já começa a ser loucura já, por causa do tempo. Aqui é pouco tempo para o desfile.

O presidente do GRCES Mancha Verde acredita que as tensões das arquibancadas podem ser transportadas para o carnaval, principalmente se mais torcidas organizadas aderirem. Em razão dos episódios de assassinato, Serdan é abertamente contrário à presença da Independente Tricolor no carnaval. Acusa a torcida do São Paulo de ter-se valido de uma manobra, ao se vincularem a outra escola samba, a Malungos, para poder retornar ao carnaval, após a proibição de participação pela Liga e pelo Ministério Público. É com essas palavras que expressa seu descontentamento com a volta da Independente:

Existe o risco de levar a rivalidade para o carnaval, sim. A Independente está no Acesso. Eu não confio, não. [risos]. De verdade. Eu não minto. É complicado. Na verdade, a Independente não tinha que estar no carnaval. Esse é meu pensamento e não vai mudar. Eles foram extintos, proibidos de participar do carnaval, naquele fato que morreu um pessoal lá no Anhembi e o caramba, e aí saíram e foram lá para a minha quadra, aí acabou morrendo um menino nosso e um menino deles. Então, ali, a Uesp (União das Escolas de Samba Paulistanas) travou. Foi feito um acordo no Ministério Público que eles não podiam voltar para o carnaval. Aí eles voltaram como? Aí compraram uma escola de samba, depois de um tempo, depois de anos, compraram a escola de samba, e aí desfilaram um ou dois anos com o nome junto, e agora eliminaram e é só Independente. Aí já não é Ministério Público, não é nada; aí são as entidades do carnaval. Eu abri uma discussão disso, me indispus e o caramba, mas eu não sou dono do carnaval, não é? Eu falei pra todo mundo: “Se depender de mim, vocês não desfilam”. Agora, quem manda aí é o colegiado. Se os caras acham que vocês têm que estar, tudo bem. Para mim, vocês vão ter que provar muito, para mostrar que vocês não são o que eu sei que vocês são”. Entendeu, cara? Porque o carnaval é outra cultura, o carnaval é outra coisa, o carnaval é outra situação. Meu, a gente trabalhou muito, para ter a entidade que a gente tem hoje, a mentalidade que existe na Mancha. Esse ano, a gente está falando no enredo do Palmeiras, é o nosso centenário. É uma entidade ligada a um time de futebol, mas não é baixaria. Quando a gente estava falando do Ariano Suassuna, por exemplo, você não ia no ensaio nosso lá e a gente cantava o hino do Palmeiras. Não. Ali é carnaval, é para você levar a sua família, levar a sua esposa, levar sua namorada e curtir, a sua esposa ser respeitada. Seu filho pode estar correndo no meio da quadra. Porque a minha corre no meio da quadra. Minha filha vai nos ensaios, vai nas festas, ela chega 11 horas da noite lá, 10 horas da noite, comigo, e eu vou ver ela quatro horas, cinco horas da manhã. Ela fica andando para cima e para baixo lá com as amiguinhas dela. Ela tem 10 anos de idade.

O fundador da Mancha conta amiúde o histórico de criação dos temas para a escola e o processo de seleção dos enredos:

A Mancha, desde quando a gente era bloco, veio com uma gama de enredos bem interessantes. Depois, como escola de samba, em 2000, eram os 500 anos de Brasil O enredo era: Brasil, que história é essa? Então a gente veio contestando um monte de coisa. A gente procurou sempre trabalhar enredos que interessassem o componente. Então a gente fez o enredo A força do trabalhador, também, falando sobre o sindicalismo, sobre o trabalho, desde os primórdios; fizemos um enredo muito bem desenvolvido e legal, em 2003: falava sobre o verde, sobre a cor verde, então a escola veio toda em vários tons de verde. E carnaval é muito legal, porque você acaba descobrindo algumas coisas, tipo: existe uma membrana que envolve o nosso coração, envolve o coração de todo mundo, até dos corintianos – eles não vão gostar, não, mas é –, que é o chakra, e é verde, essa membrana. O carnaval é extremamente cultural. Eu particularmente, que não estudei muito, mas você acaba aprendendo muita coisa, no desenvolvimento do enredo. Esse enredo do Palmeiras agora – porque, em 2015, a gente fala sobre o centenário do clube –, tem algumas coisas que a torcida do Palmeiras não faz nem ideia, como eu também não fazia. O primeiro pouso de um avião dos Correios foi feito na nossa área lá, onde é a arena hoje; a primeira chegada da primeira corrida de automóvel na cidade de São Paulo, a chegada também foi lá na arena; a ópera Aída, ou Aida, não sei direito como se pronuncia, ela foi encenada lá no nosso espaço, também. São situações que a gente desconhece. Porque a gente está fazendo um carnaval do centenário, da história do clube; a gente não está falando só do futebol. É um desenvolvimento do enredo de uma forma que a gente vai surpreender todo mundo. Todo mundo espera todo mundo de bermuda, meião e chuteira, e não é nada disso, é um carnaval luxuoso e um carnaval bem elaborado e bem pesquisado.

 

Paulo Serdan, ex-presidente da Mancha Verde. Foto: Museu do Futebol.

O presidente relata com entusiasmo o tema do enredo do carnaval sobre o romancista Ariano Suassuna e como foi pedir autorização para o imortal da Academia Brasileira de Letras. De início, a temática de enredo seria sobre o etanol, o que garantiria mais patrocinadores, cuja contribuição é essencial para a viabilização do desfile, mas Serdan e seus companheiros de diretoria decidiram mudar, diante da figura fascinante de Ariano Suassuna:

A gente estava já com um enredo pronto – a gente ia falar sobre o etanol –, já o enredo pesquisado, as fantasias sendo desenhadas e já estava tentando captação de patrocínio. Porque, na verdade, era um enredo que a gente ia tentar juntar o útil ao agradável: tinha um diretor nosso que tinha alguns contatos nessa área. O etanol estava num momento que todo mundo estava falando: “Vamos ver se a gente consegue um patrocínio para fazer um grande desfile”. E aí, a coisa já andando, a gente ia soltar a sinopse dos compositores, para poder fazer o samba. Mas, um dia, assistindo o programa do Jô Soares… era aniversário do Ariano, de 80 anos, se eu não me engano. E assistindo o programa, eu fiquei encantado, achei extremamente absurda, ricamente, a história dele. No outro dia, chamei a diretoria para conversar e fiz a proposta. A gente conversou, e a grande maioria também tinha assistido o programa. O meu diretor-geral, hoje, é um dentista; o meu diretor de carnaval é um grande executivo de uma multinacional nervosa. Então há uma mescla de cabeças-pensantes, na frente da entidade. Aí muita gente já tinha assistido, e o Ariano era cativante: você vendo ele conversar. Na verdade, o Ariano fez eu ir no teatro pela primeira vez, porque eu nunca tinha ido ao teatro… Estava passando uma peça, O auto da compadecida, por coincidência, quando a gente já estava desenvolvendo o enredo, aí eu fui assistir à peça. Então foi um enredo que a gente acertou, e acertou muito…

*

Porque às vezes você está acostumado a conhecer pessoas com poder, ou pessoas financeiramente bem resolvidas, e uns são humildes, outros são metidos demais. Eu já vi muita coisa na minha vida. E a simplicidade dele, por ser a pessoa que ele era, aquilo me impressionou de uma tal forma… Eu voltei de Recife parece que mais aliviado. Ele era um cara que você conversando com ele, você não queria sair de perto dele. Impressionante. E na casa dele, a gente conversando, em determinado momento, ele virou e falou: “Mas eu não tenho dinheiro para ajudar. Se vocês precisarem de dinheiro, eu não tenho como”. Eu falei: “Não, seu Ariano, pelo amor de Deus! A gente só veio pedir sua autorização. Dinheiro não precisa, não. Dinheiro a gente tem, para fazer o carnaval, com o maior prazer”. E aí foi. Uma parte do samba, também, a gente fez uma junção, no refrão do meio, que falava da esposa dele, a Zélia. Eu chamei os compositores, chamei o intérprete, aí falei: “A gente não consegue encaixar esse lance da Zélia aqui nesse samba aqui? Eu acho que ele vai ficar feliz pra caramba”. E foi dito e feito. Quando a gente levou o samba gravado para ele lá, ele chorou. A reação de ouvir o nome da esposa dele no samba foi um negócio impressionante. E a gente acabou criando uma relação bem legal. Foi um puta desfile! Legal pra caramba! A receptividade do público com ele também foi algo… E aí depois, no hotel… Eu não lembro o horário que a gente desfilou, mas eu sei que a gente saiu da avenida já muito tarde. Aí ele fez questão… Ele me chamou depois no quarto do hotel, fez questão que eu levasse todo mundo da diretoria, o carnavalesco, o pessoal da diretoria, para bater foto no quarto dele. E aí, na hora que a gente chegou, ele estava de pijama, ele e a esposa dele de pijama. Sabe aqueles tiozinhos, aqueles pijamas lá? [risos] Foi uma das melhores coisas que a gente fez na Mancha até hoje, foi o enredo dele.

O desdobramento da homenagem a Ariano Suassuna foi a eleição de um enredo dedicado a Pernambuco, a partir dos contatos feitos naquele estado nordestino, quando do carnaval, para o escritor da ABL:

O do estado de Pernambuco foi na sequência da homenagem ao Ariano Suassuna. Na Secretaria de Cultura, no enredo Ariano, a gente foi conversar com a secretária, não lembro o nome dela agora. E aí, na antessala, num prospecto que tinha lá sobre a cultura, tinha lá: “Pernambuco, nação cultural”. Aí eu olhei e falei para o diretor-geral nosso lá, o Paulo: “Pô! Isso aqui dá carnaval, hein, cara?”. E aí, depois, a gente fez amizade com a secretária, e conversa daqui, conversa de lá, aí eu falei para ela. Aí ela falou: “Vocês não têm coragem. Dois anos seguidos, vai falar de Pernambuco?”. Eu falei: “Então a senhora vai ver se nós não vamos fazer esse carnaval”. Aí fizemos. Ela veio desfilar. Veio o filho dela. Até deu entrevista na Globo na largada da escola. Ela desfilou com a bandeira de Pernambuco nas costas. Foi o maior barato.

Outro carnaval marcante nas memórias de Serdan foi feito para homenagear o ator e compositor Mário Lago:

O do Mário Lago também foi um puta carnaval, e acho uma grande homenagem. Pena que já não era mais em vida, não é? Eu estava saindo para a reunião, antes da apuração do carnaval anterior, estava passando aquele programa Sarau, do Chico Pinheiro, e era sobre o Mário Lago. Aí até eu atrasei para ir para a reunião dos presidentes, que é aonde abrem as atas e tudo mais. Aí eu parei e fiquei assistindo ao programa. Aí eu falei: “Puta! Que enredo, não é?”. Aí liguei para o Chico Pinheiro, falei: “Chico, você me ajuda? Eu estou pensando em fazer esse enredo aqui”. Ele falou: “Que enredaço, mano!” Aí eu falei: “Então me ajuda aí no contato com a família dele”. Aí ele passou o telefone do Mariozinho, aí a gente conversou. De imediato, assim, de momento, de primeiro, ele não aceitou. Não falou sim nem não, mas falou: “Tenho que conversar com a família, é uma escola ligada à torcida, a gente vai ver”. Eu falei: “Não tem problema. Conversa, vê o que vocês resolvem aí”. Depois de uns cinco dias, ele ligou, falou: “A gente fez uma reunião de família, a gente levantou o histórico da Mancha no carnaval, então, a gente aceita, sim”. Aí foi o maior barato, cara! Também foi um outro enredo…Foi a família inteira, gente pra caramba. A gente perdeu até ponto no carro, porque eles vieram no abre-alas e aí alguém subiu com… [risos] É verdade. Alguém subiu com uma bolsa verde, uma bolsinha verde, e aí, durante o desfile, colocou no piso do carro, e o jurado sentou o couro na gente, tirou nota, por causa dessa bolsa. Acho que não viram alguém subindo com a bolsa. Mas veio bastante gente: veio netos, os filhos… Foi bem bacana. Foi um carnaval legal, também, bem desenvolvido.

Por fim, explica que ainda não sabe como será o carnaval de 2016 – a entrevista é concedida em 2015 –, ano de celebração do centenário do Palestra Itália/Sociedade Esportiva Palmeiras, em virtude de problemas de negociação entre a escola e a prefeitura de São Paulo:

A gente está com tanto problema esse ano! A gente não assinou contrato com a Prefeitura até agora, está tudo tão difícil, cara! E é um ano muito difícil de você negociar. Então o carnavalesco apresenta as viagens dele lá, os sonhos dele, e eu não consigo cortar as coisas. Porque está envolvendo a paixão. Então, por exemplo, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, “a gente quer fazer desse jeito aqui, não sei o quê, mas vai 2.800 faisões”. Eu falei: “Vocês são loucos, mano! Não. Vamos ver, vamos cortar”. Comprei 3.000 faisões; não comprei 2.800. Só que um faisão é 20 reais. Tem quase um carro de luxo só de pena, na roupa. Então você não consegue. Porque você fala: “Meu primeiro casal; o desenho, já fez do jeito que eu quis…”. Porque eu falei: “Eu quero todos os símbolos do Palmeiras, desde o primeiro”. Então, quando ela estiver rodando, vai aparecer tudo. Aí eu falei: “Vamos dar um jeito, vai, e a gente faz”. Então é complicado. Aí você vai colocar neon no segundo carro: “Tem uns corações lá, vamos colocar aqui”. Mas tem um outro coração no meio que é de ferro, é grande pra caramba, aí já fala para o cara: “Tira a medida lá. Vamos ver”. “Se você for fazer aquele lá, eu estou te devendo um favor, aí eu te ajudo”. Aí já colocamos neon no carro inteiro. É difícil de você ir cortando as coisas, entendeu? Nos outros é mais fácil, você está gelado, não está envolvido. Você quer fazer o melhor, mas você tem bom senso. Quando você está falando do Palmeiras, o bom senso ficou bem longe. Mas, depois deste ano do centenário, a gente ainda pode falar do Marcos, ex-goleiro do Palmeiras, dar uma sequência, porque o Marcos é um cara que merece, é espetacular. A humildade dele é sensacional. 

Depois de ouvir Serdan, levamos questões semelhantes do carnaval para Jânio Carvalho, reconhecida liderança da Mancha, hoje afastado por desentendimentos e rachas internos na torcida. Formado em Educação Física, é morador da zona leste, filho de nordestinos, lutador de MMA e candidato não eleito a deputado estadual nas eleições de 2014, pelo PDT.

Em contraponto com Serdan, a visão de Jânio é bem mais crítica sobre a participação da torcida no carnaval. Na sua opinião, o espírito da torcida deve estar mais presente na escola de samba, não deve haver separação jurídica. Para ele, a disputa carnavalesca deve ser direcionada à competição com as demais torcidas-escolas. O líder declara que não gosta da ideia de competir com a Rosas de Ouro e a Vai-Vai, por exemplo, já que a decisão por parte da torcida em criar uma escola de samba veio da vontade de competir contra a Gaviões, após esta vencer o carnaval em 1995:

Jânio Carvalho. Foto: Museu do Futebol.

Eu gosto de samba, acho muito importante uma escola. Você tem a cobertura de uma das maiores emissoras de TV do país…Você tem, na verdade, dois meses da imprensa inteira falando de você, da sua imagem. O que eu discordo muito é a maneira de se conduzir isso depois. Se afastando isso das torcidas e querendo viver só como escola de samba. Isso não é uma escola de samba, isso é uma torcida no samba. Esse contraste é o que eu discuto bastante. Se você nasceu de uma torcida, você não pode virar uma escola de samba. Você é uma torcida no samba. Para o resto da vida você vai ser uma torcida no samba. Porque a gente entrou com um objetivo. Eu estou na Mancha desde o começo da escola de samba. Hoje estou menos por causa desse contraste. A gente entrou com um objetivo. Qual foi? Quando os Gaviões foram campeões do Carnaval, a gente falou: “Tem que bater nos caras. A gente tem que ganhar deles.” Bater no sentido de ganhar. Porque eles só ganharam porque a gente não estava lá. [risos] O Vasco só ganha se o Flamengo não estiver lá. Vascaíno é a mesma coisa. Então, na nossa cabeça, quando a gente entrou no samba foi justamente por isso. Por incrível que pareça. Vamos entrar no samba e torcida tinha acabado e tudo. Eu vivi isso e isso era minha meta. Eu vivi a escola de samba intensamente porque essa era minha meta. Quando a gente chegou, que aí inventaram a tal da Liga das Escolas de Samba de Torcida, que a gente não competia para ganhar nem para perder. Eu falei: “Não, tudo bem, mas a gente vai competir com a Gaviões, beleza aí. Mas quando começou a mudar… “Não, a gente tem que lutar com Rosas, com Vai-Vai.” Aí não. Porque eu sou da Zona Leste. Eu torço para a Nenê. Nenê de Vila Matilde.

Desfile das Campeãs do Carnaval de São Paulo 2016, no sambódromo do Anhembi. Na foto, desfile da escola de samba Mancha Verde. Foto: Paulo Pinto/LIGASP/Fotos Públicas.

A escola deve, assim como a torcida, ser a representante do Palmeiras na Avenida. Segundo Jânio, o torcedor palmeirense deve ser incentivado a participar do carnaval e, para que isso seja feito, a entrada da escola para o sócio do clube deve ser gratuita, enquanto o torcedor de outro clube deve pagar uma taxa mínima de 100 reais. Idealmente, considera que a Mancha não deve se misturar com torcedores de outros clubes e permanecer exclusiva para a comunidade palmeirense:

Eu sou da Mancha, porque a Mancha é minha torcida, representa o Palmeiras. A imagem da Mancha tem que ser essa a vida inteira. Por mais que a gente esteja no samba, a gente é o Palmeiras no samba, a gente é a Mancha no samba. Quando eu comecei a lutar foi a mesma coisa. Falei: “Meu, a gente é o Palmeiras lutando.” Não tem essa. A gente tenta levar sempre essa visão. Aonde quer que o nome da torcida vá, ela está representando o Palmeiras. Ela é o Palmeiras ali. Então a gente não pode agora… A gente reclama do Palmeiras, da questão que é caro para ser sócio do clube. Mas a gente fica também deixando a entrada no samba, que deveria ser, na minha visão, gratuita para o associado. Aí é onde eu brigo bastante. Os caras: “Mas não dá.” Dá. A quadra é nossa. Quem é sócio da Mancha entra de graça, quem não é paga R$ 100. “Ah, mas aí não vai ter ninguém.” Não tem problema. É nossa, é para nós, não é para os outros. Tem essa visão, essa visão de que é para a torcida do Palmeiras. Não tem questão de “os outros.” Que os outros? Os outros não interessam. Os outros vão para outras escolas. Aqui é nossa. Aí você fala: “Mas aí não tem nada de socialismo”. [risos] Tem, porque se você tem a visão de que ali é de graça. Se você ficou sócio, se você compartilhar disso aqui, você entra de graça. Se você não for… Tanto que é que na minha administração a maioria dos jogos fora que a gente levava longe, sócio em dia era de graça e quem não era R$ 50, R$ 60. Em 2008. Quer dizer, já era caro. A minha ideia era levar o nosso sócio para o jogo. Levar o torcedor do Palmeiras sim, mas levar o nosso sócio, principalmente, para o jogo. Já que ele é sócio, ele tinha que ter uma contrapartida. Então se o cara é da Mancha e a Mancha está representando ele no samba, ele tem que participar. Ele tem que ser chamado a participar. Mesmo que às vezes ele fale: “Ah, não vou.” Então você tem que dar um atrativo para que ele fale: “Poxa, eu vou lá. Eu vou participar.” Porque o principal alvo de uma torcida, além de torcer para o ser clube, é fazer com que os seus associados participem. A grandeza vai estar na participação, na quantidade de pessoas que participam. Não no valor que ele paga para entrar, mas na quantidade de pessoas que participam. Pessoas que se desempenham, pessoas que se deslocam, pessoas que estão ali se entregando por algo que, na verdade, você não está recebendo nada. Mas também não está pagando.

O ex-presidente da torcida encerra a entrevista, com comentários acerca da ascensão da são-paulina Independente e da santista da Torcida Jovem ao topo do carnaval. De acordo com Jânio, o crescimento do número de torcidas-escolas não deve gerar as mesmas tensões que existem na arquibancada pelos mesmos grupos, pois a lógica das escolas de samba é voltada para uma empresa de caráter comercial, o que desestimula a confusão nos desfiles. Assim, em conclusão, expõe seu raciocínio:

Eu acho difícil por dois motivos. Quem está dentro do Carnaval sempre fala que o público é outro. O público é outro até pelas questões que a gente já discutiu aqui. Mas a visão de quem está na frente é outra, é empresarial, uma visão de ganhos. Então não interessa a confusão, não interessa qualquer coisa que venha manchar essa imagem. Tudo que é para manchar a imagem deixa para a torcida. E aí no Carnaval a gente fica de boa, no Carnaval a gente só colhe os louros e tal. É o que eu falo para os meninos direto. Se você tem uma escola de samba forte é porque você tem uma torcida forte. “Ah, elas vivem só.” Não vivem só. Porque se o Palmeiras acabar não tem mérito nenhum ficar na escola de samba Mancha Verde. Sem o Palmeiras, a escola de samba não é nada. Quem representa o Barra Funda, na verdade, é o Camisa Verde e Branca, não é a Mancha. Então nem comunidade a gente tem. Nossa comunidade é a torcida do Palmeiras. É quase impossível acontecer a briga, apesar que aconteceu com a Independente quando era bloco, mas eles aprenderam, eles viram o que eles fizeram, porque ficaram fora do carnaval. Ficaram fora da bolada e aí tanto é que voltaram como escola de samba agora. Então não podiam voltar mais como bloco, acabaram fundando uma escola de samba. Pelo que conversei com os caras, estão com um pensamento totalmente diferente. Então o pensamento deles é esse de novo. É o mesmo das outras. Empresarial, é o lado comercial, é ganhar, se manter ali na elite até para poder receber mais. Então não acredito. A visão da torcida ainda é aquela visão de que a gente tem que ter força, a gente tem que ser forte e a gente tem que mandar no pedaço. A gente tenta mudar, a gente tenta fazer algo diferente e já conseguiu bons resultados… De todo tempo da Mancha, que eu costumo dizer que não foi em vão, foram as pessoas que se formaram e que começaram a lutar. Você sabe que pelo menos a vida de algumas pessoas você conseguiu mudar. Mas ainda falta muito para a gente conseguir fazer a torcida que eu acho ideal hoje.