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Torcidas organizadas e escolas de samba (III): Independente Tricolor

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Luigi Bisso Quevedo

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A proposta aqui é trazer os relatos orais das lideranças de torcidas organizadas, de modo a entender o processo de transformação desses subgrupos torcedores nas associações recreativas conhecidas como escolas de samba. Foram entrevistadas duas dezenas de líderes dessas associações, entre fundadores, ex-presidentes, lideranças e atuais presidentes de agremiações carnavalescas. À luz dos depoimentos, o objetivo é compreender como a memória coletiva desses subgrupos enquadra e justifica o surgimento dos grêmios associativos, quer seja como bloco quer seja como escola de samba. Para tanto, expomos os discursos nativos e as justificativas apresentadas por líderes de cada uma das torcidas-escolas.

Tricolor Independente no carnaval de 2015. Foto: Rafael Neddermeyer/LIGASP/Fotos Públicas.

A Independente está entre as quatro grandes torcidas organizadas de São Paulo, ao lado de Gaviões, Mancha e Torcida Jovem. Entre estas, foi a torcida que assistiu ao processo mais lento de transição e de enquadramento para o universo carnavalesco. Sendo a maior torcida organizada são-paulina, no carnaval encontra-se atrás da Dragões da Real, segundo grupo de torcedores organizados na hierarquia das torcidas do clube, já estruturada na elite do samba há anos.

O caráter resiliente ou, por assim dizer, retardatário da Independente no carnaval decorre do fato de que foi a torcida que manteve o etos violento e a rivalidade futebolística mais forte na sua transição para escola de samba. Ainda quando era bloco, protagonizou o “ataque de um bonde” a uma torcida-escola rival nos arredores do Anhembi. Depois deste incidente fatal, foi excluída do carnaval pela Liga e pelo Ministério Público.

Mas, a princípio, a agremiação parece ter aprendido a lição: organizou-se novamente, associou-se a uma agremiação de samba de porte pequeno, a GRES Malungos, e reingressou no samba, desta feita não mais como bloco e agora já como escola, emulada pelos títulos, pelo crescimento e pela visibilidade das torcidas rivais no carnaval. Feito isto, a Independente conseguiu ascender ano a ano nas divisões inferiores até que, em 2018, desfilou pela primeira vez na Liga Especial das Escolas de Samba. Por falhas técnicas em um carro-alegórico, foi rebaixada no ano passado e em 2019 disputará a segunda divisão do carnaval. De todo modo, parece determinada a voltar à nata do samba paulistano assim que possível.

Para o texto desta semana, daremos espaço a duas lideranças da Independente: Danilo Zamboni, fundador da torcida em 1972 e um dos principais idealizadores da escola de samba; e Mestre Adamastor, ex-presidente da torcida nos anos 1980 e 1990, vinculado previamente à “cultura” do carnaval paulistano, na condição de ritmista da X9 Paulistana e de antigo mestre de bateria da Rosas de Ouro.

A fim de agregar informações à série, recorremos ainda à história da relação das torcidas são-paulinas com o carnaval da cidade, por meio do depoimento de Hélio Silva, torcedor-símbolo do clube e líder da TUSP nos anos 1960, 1970 e 1980. Iniciamos a seleção de depoimentos com ele, que veio a falecer em 2017, dois anos depois de conceder a entrevista.

Hélio Silva conta que a TUSP foi responsável por organizar o primeiro bloco oriundo de uma torcida organizada a desfilar no carnaval de São Paulo. O bloco iniciou na Tiradentes, passou para a Avenida São João e, posteriormente, teve por palco o Anhembi. Relata que o bloco começou cooperando com a escola de samba Rosas de Ouro, sendo ele o líder responsável pela organização de uma ala nos desfiles.

Hélio Silva. Foto: Museu do Futebol.

Hélio abandona, porém, o carnaval em 1979, quando a Gaviões entra de modo mais sistemático neste meio:

A TUSP foi a primeira a desfilar em bloco, na Tiradentes. Depois que veio os Gaviões, vieram outras torcidas, mas o primeiro fui eu. Foi muito bonito porque, na época, eu e o Pérsio pegamos a parte social do São Paulo, então fizemos os meninos do basquete, do futebol de salão, sair junto com a gente no tema, e quem fez o tema na época, não me lembro a música, foi Geraldo Filme, que Deus o tenha, que fazia para o Gaviões, o carnavalesco, bom compositor. Fez dois anos seguidos para nós, um bom corintiano que fez música para o São Paulo. E na época eu até levei uma coisa inédita que eu nunca mais vi, mesmo toda essa revolução que vem do Rio, eu levei as musas dos patins do São Paulo. Na Tiradentes elas desfilavam de patins, uma coisa tão bonita, diferente. A gente ganhou ponto nisso. Isso foi em 75. A Tusp desfilou, foi o primeiro bloco de torcida. Sempre gostei de carnaval, sempre fui um amante de carnaval. Eu era do Nenê da Vila Matilde, depois a gente ficou muito amigo do Rosas de Ouro, por causa do diretor. Depois veio para a São João, depois da São João é que foi para o Anhembi. Parei em 79, quando veio os Gaviões, aí os Gaviões foram em frente e foram bem sucedidos.

Em sua visão do carnaval nos dias de hoje, Hélio Silva teme que o policiamento seja insuficiente para segurar as tensões entre as torcidas-escolas, caso a Independente e a Torcida Jovem subam para o Grupo Especial. Como se sabe, uma das medidas adotadas pela Liga para contornar possíveis conflitos foi impedir a presença de torcidas no dia da apuração das notas do desfile no Anhembi, normalmente na terça-feira gorda de carnaval.

Hélio diz que está feliz com o desempenho da Independente e da Dragões da Real no samba, mas se posiciona contra a violência. Ressalta que os atos violentos nos estádios se devem à falta de liderança e de disciplina, tendo em vista que o mesmo não ocorre entre as mesmas no ambiente carnavalesco:

Eu fico feliz de ver a Independente crescer, só não concordo, nunca concordei, com a violência, mas o crescimento da torcida são-paulina eu agradeço à Independente, sem sombra de dúvida… Então, olha que beleza. Eu fico feliz porque agora o ano passado mesmo, a Dragões ficou na frente dos Gaviões e da Mancha, então, eu como são paulino fico feliz, vou torcer para eles ganhar, vou torcer para a Independente ganhar, não é verdade? Então para mim, me deixou orgulhoso. Só não gosto da violência, sou contra a violência. Agora, eu pergunto para você, onde tem liderança, por exemplo, vai sair quatro mil na escola de samba dos Gaviões, como eles se comportam direitinho, por que não é estádio? Tem que ser no estádio para brigar? Então ali com quatro mil, tinha que doutrinar eles para o futebol. A escola de samba é escola de samba, futebol é futebol. Agora, não, você vê como as coisas podem dar errado. Hoje está se tornando um perigo, porque daqui a um ano, no mais tardar dois anos, está toda as torcidas no primeiro grupo. A Independente passando agora já vai para o Especial. O Santos vai para a próxima, se ele ganhar… já pensou, quatro torcidas na Avenida, quero ver como eles vão fazer. Onde você vai parar uma briga de quatro mil de um lado e quatro mil do outro? Qual o policiamento que vai conseguir? Eu entendo assim, que na hora que sai uma brigazinha, não adianta que todo mundo briga, todo mundo briga e acaba com a avenida.

O segundo entrevistado, Danilo Zamboni, participou do núcleo de fundação da torcida em 1972, uma dissidência da TUSP de Hélio Silva. Danilo conta que participou ativamente na fundação do bloco, no final dos anos 1980, e da sua conversão em escola de samba, no início dos anos 2000, após um período de proibição. Sua trajetória no carnaval paulista passou de início pela participação na escola de samba Camisa Verde e Branco.

Danilo Zamboni. Foto: Museu do Futebol.

Com o crescimento do bloco da Independente, Zamboni decidiu por abandonar a UESP e aderir à Liga. Optou assim por sair da Camisa Verde e se dedicar exclusivamente à sua escola-torcida:

Sempre gostei de carnaval, por causa da bateria da torcida. Tudo começou com a batucada na arquibancada. Então isso despertou para o carnaval. Fui componente de uma outra escola de samba, campeoníssima daqui de São Paulo, o Camisa Verde e Branco, da Barra Funda, onde fui ritmista e fui da Harmonia lá, e isso é muito importante. Depois, com o advento do crescimento da Independente no carnaval, eu tive que optar, até por uma questão de regulamento. Antes nós fazíamos parte da UESP – União das Escolas de Samba Paulistanas; agora nós fazemos parte da Liga. E aí você tem que escolher: ou uma, ou outra. E aí logicamente que meu coração falou mais alto. Começou com meu pai, há 42 anos atrás. Mas tenho um grande respeito pelo pavilhão da outra escola de samba, que é o Camisa Verde. Isso mostra que lá é uma escola que tem torcedores de todos os clubes. E é isso que nós estamos implantando hoje na nossa Escola de Samba Independente. A predominância é de torcedores do São Paulo, da torcida Independente, mas temos torcedores de todos os clubes lá. E são respeitados.

Zamboni afirma que o espaço da escola é um lugar de convívio familiar e, portanto, contribui para as torcidas ficarem mais distantes das rivalidades do futebol. Chega a dizer que membros das demais torcidas são convidados a participarem das celebrações da escola sem a preocupação de serem agredidos. Para Zamboni, o respeito ao adversário é uma das pedras angulares da sociabilidade do carnaval – enfatiza-se que são coirmãos, não inimigos – e afirma que existem torcedores de outros clubes dentro da escola de samba da Independente:

Nós temos vários associados da época antiga da torcida na escola. Chegando hoje, na atual geração da Torcida Independente, o nosso presidente, o Ricardo Maia, conhecido como Negão; o Henrique Gomes, o Baby, que é o vice-presidente. Temos, ainda, também, um trabalho muito forte não só na torcida como na escola de samba, que o Batata, Alessandro Oliveira Santana, o presidente, faz. A gente gostaria que as famílias, as crianças participassem. Hoje, por exemplo, nos jogos do São Paulo, eu tenho visto muitas famílias, muitas crianças, que é o que a gente faz no carnaval. No carnaval, a gente tem a presença da família. E lá não precisa ser são-paulino. Ele pode torcer para outro clube e ele é bem-vindo. A gente gostaria que no futebol existisse esse respeito.

Danilo, por fim, aborda a divisão jurídica da Independente, como torcida e como escola de samba, o que não impede a unidade do grupo no carnaval e no futebol:

No samba, nós temos um outro endereço comercial, nós temos um CNPJ, uma outra diretoria. Mas torcida organizada é a escola de samba. O grupo, num todo, é praticamente o mesmo, só que ele é divido nas ações do futebol e nas ações do carnaval. E no carnaval, graças a Deus, tem dado muito certo. Nossa escola é de 1987. Nós iniciamos o trabalho com um bloco carnavalesco, ficamos fora do carnaval durante dez anos, retornamos no Grupo 4 e hoje estamos ascendendo já ao Grupo Especial, estamos no Grupo de Acesso.

O terceiro e último depoimento foi concedido por Mestre Adamastor. Ele conta que começou sua trajetória no carnaval ao mesmo tempo em que ingressou na torcida. Afirma que sempre teve paixão pelo samba e desde cedo queria participar da bateria da torcida, mas não sabia tocar nenhum instrumento de percussão. Seu primeiro instrumento foi o chocalho e, conforme foi ganhando experiência e confiança, os músicos da torcida decidiram levá-lo para a escola de samba Rosas de Ouro.

Mestre Adamastor. Foto: Museu do Futebol.

Adamastor explica que em razão de amizades entre membros da Independente com componentes da Rosas de Ouro, alguns membros da torcida acabavam por desfilar nesta tradicional escola paulistana, da Freguesia do Ó. Em seu depoimento, procura realçar como tanto sua trajetória quanto sua vida profissional foram afetadas pelo futebol e pelo carnaval, de maneira simultânea:

Cheguei até a faculdade aos trancos e barrancos, mas quando eu comecei a cursar a faculdade, essa minha paixão por futebol e samba, de fato, não me deixou continuar. Na época que eu entrei na faculdade, eu já era mestre de bateria de escola de samba. O futebol me levou ao samba, ao qual eu cheguei no cargo de mestre de bateria, e por questão de falta de condições, eu tinha que escolher: ou samba ou faculdade. Então, como eu sempre fui apaixonado por tudo que eu fiz na vida, não precisou nem ter força. E eu acredito que o conhecimento que eu tenho hoje de vida, a minha profissão, a minha relação familiar, eu posso falar que eu já fiz umas dez faculdades na vida.

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Eu fui descobrindo a minha atuação em grupos justamente nessa época. Porque eu queria fazer parte de tudo. Quando eu entrei na Independente, eu já era fascinado por bateria de escola de samba. Como era a Independente na época? Tinha uma galera que era o pessoal da bateria, que era um pessoal da escola de samba, eles não eram nem muito ligados à torcida, eles iam lá pela farra da cerveja, tocar. O Ferrão, que era o presidente, tinha ligação com a escola de samba e tinha amizade com esse pessoal. Esse pessoal, por amizade com o Ferrão, vinha tocar de domingo na Independente. E a famosa Molecada, porque tinha nomenclatura de Molecada, eu entrei na torcida e já comecei a fazer parte da Molecada. Bom, eu era fascinado pela bateria, mas eu não sabia tocar nada. Quando dava um intervalo do time, esse pessoal da bateria ia tomar cerveja, e os instrumentos ficavam lá, a gente da Molecada ia lá e começava a tocar. Como eu não me identificava com nada, aí eu comecei a pegar o chocalho, o chocalho era um instrumento desprezado, e eu comecei a tocar com o pessoal da bateria chocalho. Já era ruim no chocalho, e eu aprendi a tocar mesmo de tanta insistência. Minha origem na bateria foi dessa forma. Aí o que acontece é que, com o passar dos anos, esse pessoal, junto com o Ferrão, participava de escola de samba, que era do Rosas de Ouro. Quando eu peguei mais afinidade com os caras, eles me levaram para o Rosas de Outro, aonde eu tive oportunidade de desfilar pela primeira vez.

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Carnaval 2015 – Desfiles das escolas de samba do Grupo Acesso de São Paulo, realizado no Sambódromo do Anhembi. Na foto, desfile da Tricolor Independente. Foto: Marcelo Pereira/LIGASP/Fotos Públicas.

Na verdade, a integração era questão de amizade, que o pessoal da Independente frequentava muito o Rosas de Ouro, por simples circunstância do Ferrão já ter desfilado lá, ter um pessoal que tocava na bateria da torcida também que era do Rosas de Ouro, mas não tinha nenhum elo, não tinha nada associado às instituições, era mais pessoal. Tanto que o Zuka, que na época de 80 foi mestre de bateria do Rosas de Ouro, ele também é são-paulino, e ele também começou a frequentar a Independente por amizade com o Ferrão, então criou esse elo do futebol e samba.

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Nesse momento, eu viro Adamastor. Aonde gerou o apelido, me deram o apelido, e aí por paixão, que eu já tinha desde a época de criança por percussão, lá na Fanfarra, me deparei com bateria de escola de samba, na arquibancada, aí eu tive oportunidade de ser levado através dos amigos para uma escola de samba que era a Rosas de Ouro. Como o Zuka também fazia parte da arquibancada, eu tive a facilidade de entrar. Comecei a tocar caixa, que dizer, aprendi a tocar caixa na torcida e aí fui tocar caixa no Rosas de Ouro. Não faltava a um ensaio. Eu fui um cara que era muito dessa questão fazer bem feito, eu não tinha essa de vou lá de vez em quando, eu era muito determinado. E aí eu não faltava a um ensaio no Rosas de Ouro. Fiquei cinco anos na escola.

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Profissionalmente, eu trabalhava em corretora de valores e paralelamente eu era mestre de bateria. Sempre toquei, mas quando eu tocava em escola de samba eu era office boy, escriturário, cargos de nível baixo em empresas. E nessa corretora, eu comecei a crescer, até que eu fui muito bem sucedido nessa corretora, eu me tornei um líder, me tornei gerente, e em paralelo a isso eu trabalhava na escola de samba como mestre, me casei. Foi outra mudança na minha vida. Uma das diretoras da minha esposa, sabendo que eu era de escola de samba, falou para ela: “Seu marido trabalha em escola de samba, será que ele não fazia um trabalho para mim?” “Eu fui lá na Alemanha e vi um trabalho de percussão que o pessoal aprendia e tocava junto, tal, eu vou falar com ele”. Aí minha esposa veio, eu sou casado pela segunda vez, a minha primeira esposa falou assim: “Minha diretora falou isso, isso, se você topa?” “Eu falei, lógico.” Então, eu falo que eu sou uma exceção, eu sou um privilegiado por Deus de conseguir ter tido sucesso, de ter me tornado um empresário. Hoje eu vivo do samba, só que eu não vivo da escola de samba, eu criei o meu nicho de negócio.

Segundo Adamastor, muitas vezes a violência nas torcidas transfere sua má reputação para o carnaval e traz prejuízos para o desfile. No entanto, ao mesmo tempo, no entendimento do ex-presidente da Independente, as torcidas possuem uma enorme vantagem para se tornarem escolas de samba, pois possuem uma comunidade, isto é, um grande contingente de seguidores.

Assim, Adamastor considera que as torcidas-escolas não atrapalham o carnaval, ao contrário, elas ajudaram a potencializar e a criar uma grande atração para o carnaval paulista:

Posso te falar? Hoje quem é líder de torcida estatutariamente é burro. Espera aí, como eu vou segurar uma bucha social? Olha aonde vai a paixão, pela paixão o cara é líder e ainda se sujeita a tomar… Não querendo defender, mas foram lá os caras da Independente e mataram um cara da Jovem[1]. Os caras que mataram, supostamente da Independente, nem sócios são da torcida. Mas a instituição tomou a culpa, os líderes tiveram risco de ser presos, o carnaval que não tem nada a ver quase foi penalizado por essa briga Santos e São Paulo, Independente e Jovem, por uns caras que nem sócios eram. Então é isso que eu falo, aonde vai chegar isso?

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Olha, uma visão que eu tenho, eu acho que o ponto divisor disso é a visão empreendedora de uma pessoa. O presidente da torcida organizada, obviamente que é o início, ele vê uma possibilidade muito grande no carnaval. Por quê? Por que ele tem na mão algo que as escolas não têm, as escolas que estão crescendo ou estão se formando, que é o contingente. Porque uma escola de comunidade a coisa mais difícil que tem, e hoje até as grandes escolas, muitas vezes sofrem com o contingente.

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Porque, como qualquer escola de samba, hoje o que difere o carnaval de empresas? Antigamente eu até falava que não tinha fins lucrativos, mas hoje a escola de samba tem fins lucrativos, porque tem a questão da sustentabilidade, então tem que ganhar dinheiro. E algumas escolas de samba ganham muito dinheiro porque tem um patrocínio, tem os subsídios, e por aí vai. Então você imagina, se um cara que é empreendedor vê que tem na torcida organizada uma grande possibilidade, obviamente ele vai partir para um novo negócio. Pela porta dos fundos? Não, pela porta da frente. Espera aí, a Liga permite torcida organizada? Tanto permite que está lá, então não é ilegal, então porque ser repreendido? Só porque é torcida, não é sambista?

Independente Tricolor. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Adamastor atribui a ascensão do carnaval paulistano ao crescimento da Gaviões da Fiel e das demais torcidas-escolas, a quem julga responsável por ter elevado o nível de dedicação necessária por parte das agremiações para vencer o carnaval. Adamastor encerra afirmando que o carnaval é hoje uma maneira diferente de apreciar seu time, sem estar ligado ao futebol. O torcedor postula que, se as torcidas do Rio de Janeiro criassem sua própria escola de samba, o mesmo fenômeno que ocorreu em São Paulo poderia se repetir no ambiente carioca:

Ôpa, Dragões da Real está aí em São Paulo, tem vários sucessos, está cotada a ser campeã no carnaval. A Mancha Verde já fez inúmeros belíssimos carnavais, Gaviões da Fiel já foi campeã. Ôpa, espera aí, só porque é torcida não tem seu valor como sambista? A diferença de uma torcida organizada no carnaval é que a ideologia é diferente de uma escola de samba tradicional. As torcidas organizadas têm por sua tendência líderes, e algumas escolas de samba têm por tendência famílias, donas das escolas de samba, se diferenciam demais. E ao mesmo tempo a escola de samba hoje, depois que se fortalece como escola de samba, uma tendência natural, o que é? Se separa. Gaviões sofreu esse processo. Vai falar, Gaviões quando era bloco de carnaval, era o pessoal da torcida, hoje dividiu. A Mancha Verde, ao mesmo tempo, hoje o pessoal da escola de samba tem uma base totalmente só da escola de samba, mas começou com a torcida organizada. A Dragões a mesma coisa, e a Independente também. Espera aí, então a Gaviões, a Mancha, a Dragões não podem apontar o dedo para a Independente e dizer: “vocês são torcida”. “Espera aí, garoto, olha a sua história porque você começou desse jeito”. Então é mais ou menos essa relação. Eu até te confesso que eu andei muito no carnaval de São Paulo como profissional, convidado a fazer trabalhos, participei de inúmeras escolas de samba, e eu vejo que uma tendência natural é eu voltar para um lugar ao qual eu não sou estranho, que é a minha torcida. Por mais que eu crie um carinho, por todas as escolas que eu passei, ao qual eu já chorei por essas escolas, ao qual eu já criei um laço de amizade, inúmeros laços por essas escolas, eu ainda vejo que eu era uma pessoa distante da realidade, da essência dessas escolas que eu passei. Eu vejo como a Independente hoje está no grupo de acesso e pode ir para o grupo especial, tem essa possibilidade, se você me perguntar, eu vejo que tem uma vontade muito grande minha de voltar para casa, de falar, ôpa, aqui eu não sou estranho. Tem uma história. Então é como se fosse assim, ôpa, eu fui dar uma volta, fui fazer um cursinho, deixa eu executar o meu conhecimento aqui dentro. É fácil? Não, não é fácil, mas eu acredito, é um curso natural, se assim for o destino, é eu acabar minha carreira de sambista aonde eu dei início, que foi na torcida organizada.

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Sabe o que é consequência, Bernardo, é que o líder, às vezes, cara, com o passar dos anos naturalmente vai dando outra carga de experiência para os líderes de torcida organizada, e tem uma hora que chega, você não tem a mesma energia, seus próprios objetivos… E o samba faz com que você tenha essa convivência da torcida, mas curtindo de uma outra forma. Deixa eu curtir meu futebol de uma forma diferente, deixa eu curtir minha torcida de uma forma diferente, então é isso que eu vejo que é o lado bom, porque essa essência também tem em escola de samba de torcida. E São Paulo partiu na frente muito mais forte do que Rio de Janeiro. Será que a Raça do Flamengo, será que se a Força Jovem do Vasco tivesse uma escola de samba no Rio não poderia ser uma potência? É que na verdade tem uma barreira muito grande, mas em São Paulo não tem nada de arbitrário, não tem fora da lei; os presidentes tradicionais de escola de samba tiveram uma restrição forte, mas hoje é uma realidade. E falo mais, a mudança do carnaval de São Paulo em torno da sua grandiosidade, na década de 90 foi isso, se deve a uma escola de samba chamada Gaviões da Fiel, porque o carnaval estava totalmente acomodado na sua época, Gaviões da Fiel se tornou escola de samba, foi disputar o Grupo Especial, e veio para a época com um carnaval muito grandioso: alegorias grandes fora do padrão, luxo, acabamento, e isso gerou uma riqueza para o carnaval de São Paulo ao qual se deve a Gaviões da Fiel, isso é história. Então tem um lado positivo nisso também, é o que a gente fala, a arma só se aponta, é muito mais fácil falar das coisas ruins. Mas ao mesmo tempo é uma herança, tem a preocupação, e aí, colocar duas escolas de torcida organizada no mesmo dia, tem a preocupação? Tem, mas tem que ter a consciência. Tudo é um trabalho. É nisso que a gente se preocupa, mas ao mesmo tempo não dá para você remar contra a maré. Para São Paulo, é essa realidade.


[1] Referência a incidente ocorrido em fevereiro de 2014, nas vésperas do início do carnaval daquele ano, após um São Paulo X Santos realizado no Morumbi. Cf. http://globoesporte.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/2014/02/torcedor-do-santos-e-agredido-em-sao-paulo-apos-classico-e-morre.html