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Torcidas organizadas e escolas de samba (V): Dragões da Real

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, Luigi Bisso Quevedo

Nota explicativa. Esta série é parte integrante do projeto “Territórios do Torcer – uma análise quantitativa e qualitativa das associações de torcedores de futebol na cidade de São Paulo”, desenvolvida entre os anos de 2014 e 2015, com o apoio da FAPESP. A pesquisa foi realizada em parceria pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e pelo Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), equipamento público vinculado ao Museu do Futebol/Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A proposta aqui é trazer os relatos orais das lideranças de torcidas organizadas, de modo a entender o processo de transformação desses subgrupos torcedores nas associações recreativas conhecidas como escolas de samba. Foram entrevistadas duas dezenas de líderes dessas associações, entre fundadores, ex-presidentes, lideranças e atuais presidentes de agremiações carnavalescas. À luz dos depoimentos, o objetivo é compreender como a memória coletiva desses subgrupos enquadra e justifica o surgimento dos grêmios associativos, quer seja como bloco quer seja como escola de samba. Para tanto, expomos os discursos nativos e as justificativas apresentadas por líderes de cada uma das torcidas-escolas.

Dragões da Real, no desfile das escolas de samba do Grupo Especial de São Paulo, no Sambódromo do Anhembi Foto: Divulgação/Marcelo Pereira/LIGASP/Fotos Públicas.

 

A Escola de Samba Dragões da Real foi fundada em 17 de março de 2000, por iniciativa de associados da torcida que frequentavam outras agremiações carnavalescas. Seu nome oficial é Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba (G.R.C.E.S.) Dragões da Real. Diferente da experiência das demais torcidas-escola, a Dragões não chegou a se constituir primeiramente como um bloco de carnaval, constituindo-se desde o início com o status de escola de samba. Logo em seu primeiro ano, 2001, foi campeã da última divisão – Grupo 4 – do carnaval paulista organizado pela UESP.

Após acumular uma década de desfiles, em 2012, a Dragões da Real ascendeu e fez a sua estreia no Grupo Especial, a elite do carnaval paulistano, evento patrocinado pela Liga, quando, pela primeira vez, concorreu com escolas-torcidas identificadas com equipes rivais, como os Gaviões da Fiel e a Mancha Verde.

Nesses últimos 7 anos, a Dragões destacou-se pelo esmero das fantasias, alegorias e adereços, bem como pela qualidade técnica dos seus desfiles. Pode-se dizer que é a torcida-escola que vem obtendo a melhor média de resultados. Embora ainda não tenha-se sagrado campeã, conquistou um vice-campeonato em 2017 e um terceiro lugar em 2018. Consolidou, com isto, uma posição de destaque e um padrão de excelência junto às escolas de samba tradicionais do carnaval de São Paulo, sendo respeitada pela Vai-Vai, pela Acadêmicos do Tatuapé e pela Unidos do Peruche, entre outras agremiações.

Graças à divisão estatutária interna, tanto a torcida quanto a escola de samba possuem presidentes distintos, embora a presença dos torcedores organizados da Dragões nos ensaios de quadra e nos desfiles do Anhembi seja uma constante. A sede social e a quadra são ambas de propriedade adquirida da torcida, que possui 14 mil associados e 42 subsedes espalhadas no estado de São Paulo, no Brasil e mesmo fora do país.

Seu pavilhão fica localizado na Avenida Embaixador Macedo Soares, Vila Anastácio, zona oeste paulistana, distrito da Lapa. Já a sede social e a loja comercial da torcida localizam-se em um prédio da Avenida Prestes Maia, no centro da cidade, ponto de encontro de seus associados desde o início dos anos 1990.

Para o texto desta semana, entrevistamos o atual presidente da Escola de Samba, Renato Remondini Rodrigues, vulgo Tomate, 45 anos, ex-liderança da torcida da Dragões da Real nos anos 1980 e 1990. Originário do bairro de Indianópolis, cresceu no bairro de Santana, próximo à Parada Inglesa e hoje reside na Casa Verde.

O presidente da Escola de Samba Dragões da Real, Renato Remondini Rodrigues. Foto: Museu do Futebol.

Colhemos também o depoimento de André Azevedo, atual presidente da torcida, à frente do grupo nos últimos três mandatos, uma reconhecida liderança da Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil – ANATORG –, tendo participado de viagens internacionais, como a que ocorreu à Alemanha em 2013, para conhecer a “cultura torcedora” daquele país.

Na gravação com Tomate, perguntamos de início acerca do impacto da chamada “batalha campal no Pacaembu”, conflito que originou a proibição da utilização das faixas nas arquibancadas e que excluiu as torcidas dos estádios, por iniciativa do Ministério Público estadual, em 1995. Trouxemos a ele a questão do processo de transformação de torcidas em escola de samba, em meio a esse processo crítico vivenciado pelas Organizadas no futebol. O propósito era saber se, no caso da Dragões, foi esse o contexto da gestação da agremiação carnavalesca:

Na verdade, no caso da Dragões, uma coisa não tinha nada a ver com outra. Em 2000, eu e outros componentes da Dragões, cada um desfilava numa escola de samba diferente, e outras torcidas já tinham seu carnaval. A gente falou: pô, por que a gente também não tem? Se cada um desfila numa escola, vamos juntar todo nosso povo e vamos desfilar na nossa escola. Porque o campeonato antigamente acabava no final de novembro, comecinho de dezembro e voltava a ter campeonato em fevereiro. Então você ficava dois meses sem nada. Vamos ficar dois meses sem ter atividade nenhuma, esses dois meses vamos cuidar do carnaval. Só que a gente não imaginava que cuidar do carnaval ia tomar nosso ano inteiro. E aí foi uma questão de promover uma integração, uma cultura para nosso povo, daí que surgiu a ideia de fundar a escola de samba em 2000.

A questão seguinte consistiu em saber se a Dragões chegou a participar do desfile de blocos carnavalescos, antes de galgar o status de escola de samba:

Não, nós fundamos uma escola de samba já em 2000, e no ano de 2001 nós desfilamos pela primeira vez no Grupo Quatro, que eles chamam de grupo de espera. Aquele ano nós assistimos o jogo, a final do São Paulo em Barcelona, em 1992, na quadra da Perus. A Perus nos cedeu a quadra para que nós levássemos nosso povo para assistir o jogo. Em 92 nós assistimos na Avenida Paulista, em 93 fizemos um evento da Dragões na quadra da Unidos do Perus. E como esse jogo era em dezembro, nós procuramos isso um pouco antes, e nós fizemos uma parceira com o Perus. Como eu morava no bairro e tocava na bateria, aquela história toda, eles falam: “poxa, vamos fazer uma parceria, vocês colocam uma ala para desfilar conosco e a gente cede a quadra para vocês fazerem a festa”. Aí foi isso. Nós tivemos uma relação mais próxima com a Perus, mas desfilamos na Tom Maior, na X9.

Em seguida, a pergunta versa sobre a participação nas arquibancadas em paralelo ao samba. Queríamos saber se era possível conciliar as duas atividades ou se era necessário optar entre um e outro. Perguntamos também se há influências, por exemplo, no terreno da coreografia, entre aquilo que a Dragões faz no futebol e o que leva para o carnaval, e vice-versa:

Quando a coisa começou a crescer um pouco mais, ficou difícil. Em 2011, quando a escola foi campeã do Grupo de Acesso e foi para o Grupo Especial, aí realmente a gente viu que a coisa era muito grande, que o carnaval é uma coisa gigantesca em São Paulo, é um trabalho de um ano inteiro mesmo. Então aí eu comecei a ter um pouco mais de dificuldade de estar presente nos jogos. Por exemplo, até começo de 2012 eu fui bastante, depois desses anos eu fui tirando um pouco do pé porque é difícil, você trabalha todos os dias. Essa noite, por exemplo, eu cheguei em casa três e meia da manhã porque nós fomos levar um carro alegórico que está pronto já para um outro barracão onde nós guardamos. Oito e meia da manhã eu já estava aqui, então é uma demanda grande, você trabalha de domingo a domingo, sem parar. Não digo que estou afastado, pois eu falo com o André, presidente da torcida, todos os dias, a gente se fala todos os dias. O último jogo que teve agora no Itaquerão eu fui, alguns jogos importantes também, se a torcida precisa, sempre estou lá. Às vezes quando tem necessidade do pessoal mais velho estar por alguma situação ou a gente marcar para bater um papo todo mundo no jogo, eu sempre que possível estou presente. Não com a mesma frequência de antes, mas sempre que possível, estou presente.

*

Não, da arquibancada não há influência para o desfile, não, acho que a gente leva enquanto Dragões da arquibancada para o desfile é essa vontade de ser campeão. Que a Dragões sempre foi uma torcida muito aguerrida, uma torcida marcada por ter um canto muito forte, então essa força, essa questão, eu acho que a gente trouxe para a escola de samba. E o que leva da escola para a torcida, hoje eu vejo muita família indo na Dragões. Então o cara vem, simpatiza com a escola, e aí ele é são-paulino também, ele vai e leva a família, leva a mulher, leva o povo dele, aí a gente faz umas esculturas aqui que eles levam para a arquibancada. Esse ano eles estão criando o samba, o samba que nós vamos cantar em 2015 já foi escolhido, eles adaptaram o samba para cantar música na arquibancada. Eu acho que é uma troca de conhecimentos, de ideias, que é muito sadia.

Tomate discorre a seguir sobre o estatuto jurídico da torcida, vis-à-vis sua escola de samba:

São duas entidades constituídas. Não por termos econômicos, acho que por todos os termos: ideológicos, econômicos e administrativos. Porque a gente fala muito isso e vai continuar falando, a Dragões é uma torcida que na arquibancada torce, e é uma escola de samba que no Anhembi canta, dança, é diferente. Então são universos diferentes. Vai para o Morumbi para torcer para nossos times, e vamos para o Anhembi para desfilar para nossa escola, fazer cultura. Nós não tratamos o Anhembi como uma arquibancada de futebol, da mesma forma que não tratamos o Morumbi como desfile de carnaval. Então são momentos distintos, onde lá no futebol nós vamos torcer, extravasar, vamos gritar, vamos xingar, vamos pular, e lá no Anhembi nós vamos fazer festa, vamos dançar, cantar e fazer cultura, é diferente.

*

Acho que o modelo da Mancha é o mesmo modelo da Dragões, a Dragões tem o mesmo modelo da Mancha, vice-versa. São entidades separadas juridicamente. O Gaviões me parece que não. Mas aí é uma opção de cada um, cada um tem a sua forma de trabalho, tem a sua forma de doutrina, de ideologia, e aí cada um realmente faz da forma que acha melhor para a sua entidade.

A indagação que se coloca na esteira da anterior diz respeito à presença das torcidas-escolas no carnaval paulistano. Renato apresenta sua visão acerca das torcidas no carnaval e pondera quanto a eventuais diferenças entre a Gaviões e a Mancha como escolas de samba e as agremiações tradicionais, a exemplo da Peruche e da Vai-Vai:

A relação da Dragões com a Liga das escolas de samba é ótima. A Dragões em três anos de Grupo Especial teve resultados que qualquer outra escola dificilmente teve na história do carnaval. Nos dois últimos anos, nós estávamos dentro do desfile das campeãs, e por muito pouco nós não ganhamos o campeonato. Nunca teve separação, sempre foi tudo desfile de escola de samba. Mas no instante que aconteceu de duas torcidas organizadas, as escolas desfilarem, a Liga criou a revisão de Escolas Desportivas. Não gostamos disso. É o que eu comentei, são mundos diferentes. Eu estou falando pela minha escola. A minha escola enquanto escola de samba é uma escola de samba, ponto. Então é isso, escola de samba é escola de samba. Escola de samba não é uma torcida organizada. A nossa torcida organizada é uma torcida organizada, vai torcer, defender o São Paulo, vai lutar. É claro que a nossa escola de samba carrega a bandeira do São Paulo, então sem dúvida alguma a nossa origem é o São Paulo, mas enquanto carnaval… não estou defendendo o São Paulo, estou defendendo a Dragões, que é uma entidade que defende o São Paulo, é isso. 

A questão posta na sequência trata da migração do tipo de rivalidade existente entre as torcidas organizadas no futebol para o carnaval, com a ascensão sucessiva do número de torcidas-escolas ao Grupo Especial. A resposta é negativa, pois, segundo ajuíza Tomate:

Na minha opinião, e constatando os fatos que nós já vimos, isso não vai acontecer. Por quê? Porque em 2011, no desfile das campeãs, desfilou no mesmo dia a Dragões, a Mancha e a Gaviões, no mesmo dia, as escolas desfilaram juntas. Então não teve uma discussão, não teve nada. Em 2012, a Dragões desfilou no mesmo dia que Gaviões, no mesmo dia, não aconteceu absolutamente nada. Em 2013, nós desfilamos no mesmo dia que a Mancha, absolutamente nenhum problema. Sinceramente, eu acho que quem tem responsabilidade e liderança dentro da sua escola de samba, até porque está previsto no estatuto da Liga, do regulamento, qualquer escola de samba, seja ligada à torcida ou não ligada à torcida, se promover atos de vandalismo ou violência etc., essa escola vai ser banida do carnaval. E eu acho que tem que ser banida do carnaval mesmo, seja quem for. A partir do momento que você tem a sua família, tem o turista, um monte de gente que está indo lá, pagando um valor caro para assistir um espetáculo, não quer ficar ouvindo xingamento, vendo briga, discussão nada disso. Então eu acho que a cabeça dos dirigentes das escolas de samba ligadas a torcidas é exatamente esse pensamento. Dificilmente vai acontecer algum fato de violência. Espero que não aconteça. Como já aconteceu fato de violência em escolas que não tinham nada a ver com torcida.

Perguntamos ainda se os torcedores organizados da Dragões aderiram ao projeto da torcida para o carnaval e se a frequência é a mesma, ou por outra, se se trata de públicos distintos:

Hoje eu posso dizer, até porque como a Dragões é uma escola que desfila com 3.500 componentes, nós temos na escola de samba hoje uma maioria de pessoas que não são da torcida, até pelo contingente. Nós temos 3.500 desfilantes, fora as pessoas que passam aqui para visita, para curtir o ensaio, para festa, e nem desfilar no carnaval desfilam. A Dragões é uma escola de samba que está muito pulverizada. Nós temos alas e pessoas que vêm da cidade inteira e temos muita gente que veio do interior e do litoral, muita gente, do Vale do Paraíba, por exemplo. Nós temos ala em Itatiba, ala em São José dos Campos, muita gente da Baixada Santista. Nós estamos num bairro, nós estamos estabelecidos nesse bairro aqui, que é um bairro de muito comércio durante a semana, bairro de muitas transportadoras e empresas que trabalham durante a semana. É um bairro zero em entretenimento, absolutamente nada de entretenimento. Talvez 70% dele é comercial. Caminha para uma outra realidade porque os prédios estão tomando conta do bairro, os prédios que estão sendo construídos, mas o povo do bairro frequenta também bastante a escola, a gente recebe pessoas da cidade inteira.

Questionamos Renato se ele considera que esse perfil “pulverizado” ajuda a manter a tranquilidade nos desfiles, permitindo que Gaviões e Mancha desfilem no mesmo dia, por exemplo. De acordo com o presidente da Dragões:

Repito o que eu falei, eu acho que se você não tem competência, não tem capacidade de gerir a sua entidade, você não tem que se estabelecer. As três escolas já mostraram que tem essa possibilidade, é possível sim, até porque já fizemos. Em 2007 nós desfilamos no mesmo dia: Dragões, Camisa 12, Gaviões da Fiel, problema algum. Eu espero que assim continue, cada vez melhore isso para as pessoas poderem ter certeza que o Anhembi é local de festa.

Uma curiosidade levantada no decorrer da entrevista disse respeito à existência de contato da Dragões com as escolas de samba do Rio de Janeiro, conhecidas pelo know-how na arte e na indústria dos desfiles carnavalescos:

A gente tem contato, por exemplo, meu diretor de carnaval aqui é diretor de carnaval da Mangueira, é a mesma pessoa, é diretor das duas escolas. Meu integrante da comissão de carnaval, que é o desenhista da escola inteira, ele desenha e é integrante da Vila Isabel. No caso, mais que afinidade, eles são contratados, mas a gente tem contato com o pessoal de lá, temos alguns amigos em algumas escolas. O contato é mais profissional, esse nosso diretor de carnaval já é diretor de carnaval da escola há quatro anos, então ele é um amigo antes de ser o diretor de carnaval, na verdade.

Perguntamos também pelo tema e pelo enredo do carnaval em 2015 e quisemos saber ademais se, entre os componentes da Dragões, existe uma preponderância de são-paulinos:

“Acredite se puder” é o enredo. Vamos desfilar com 3 mil e 200 pessoas. Na sexta-feira, é a quarta escola a desfilar. A pessoa pode vir escolher a fantasia, pode ir no site, escolher pelo site também, comprar pelo site. Nós temos um público que é muito nosso. Do mapeamento que nós fizemos, 85% são pessoas que desfilam a pelo menos dois, três anos na escola. Então a gente tem essa média muito boa. A gente tem uma faixa na nossa quadra, que depois vocês podem ler, a gente escreve que aqui é um lugar de gente feliz, então a gente procura cativar as pessoas que aqui adentram, para a pessoa realmente se sentir bem, ver que está num lugar bacana. E com isso você consegue manter essa pessoa e consegue que essa pessoa traga mais pessoas aqui para dentro. Vou dizer para você que deve ser 70% de são-paulinos e outros devem torcer para outros clubes, porem aqui dentro todo mundo respeita que é uma escola ligada ao São Paulo. Então obviamente que ninguém vem com camiseta de outro clube ou outra torcida, para evitar algum tipo de problema que é desnecessário. “Ah, mas nunca vai poder…” não sei, quem sabe no futuro. Hoje ainda a gente prefere que não, até que a gente consiga conscientizar a todos que aqui é um local que funciona dessa forma.

Trazemos ainda a questão delicada da presença da torcida são-paulina Independente Tricolor, a maior torcida organizada do São Paulo, nos desfiles. Nosso intuito era saber se isso provocava o acirramento da rivalidade interna entre os adeptos do clube:

Eles frequentam nossa quadra. O que eu falei, hoje os líderes da Independente são grandes amigos meus, alguns eu conheço há dez anos, outro eu conheço há 20, 25 anos de torcida. Então, pelo contrário, frequentam nossa quadra, vem aqui nas nossas festas, nos convidam para ir nas festas, já fomos tocar na quadra da Independente. E eles estão fazendo um trabalho muito sério também, acho que logo logo eles conseguem a vaga deles também lá em cima, se Deus quiser, com certeza. 

Depois da entrevista com Renato, ouvimos o atual presidente da torcida organizada Dragões da Real, André Azevedo. Este afirma que a criação da escola de samba Dragões ocorreu em 1999, junto à retomada da torcida, que havia sido proibida após a “batalha campal” do Pacaembu. Informa, corroborando Tomate, que a escola de samba foi fundada efetivamente em 2000, com o intuito de participar dos desfiles do carnaval paulista, assim como fazia a Gaviões da Fiel, campeã do carnaval em 1995.

Presidente da torcida organizada Dragões da Real, André Azevedo. Foto: Museu do Futebol.

Azevedo compartilha a informação de que muitas das escolas de samba ligadas a torcidas, como a Mancha Alviverde, foram criadas devido à proibição da participação dessas torcidas nos estádios, mas este procedimento não vale para a Dragões. Segundo a liderança, foi a partir de uma conversa informal que surgiu a ideia de criar a escola de samba. A maior parte dos líderes da torcida, no entanto, já apreciavam o samba. A escola foi criada em separado da torcida, de maneira que possui um estatuto, um CNPJ e uma diretoria à parte:

A escola de samba é de 2000. Primeiro veio a torcida, o regresso da torcida veio em final de 99 para o ano 2000, já na construção da torcida… Eu não fiz parte da fundação da escola, mas as pessoas próximas a mim, muitos deles gostavam de samba, e quando eles voltaram para a Dragões, um ia para uma escola, o outro ia para Rosa de Ouro, outro para Pérola Negra, aí eles se juntaram e falaram: poxa, já que a gente gosta de samba, por que a gente não faz a nossa escola? Mais ou menos numa conversa informal, numa brincadeira que acabou saindo uma escola que hoje, que está há três anos no Grupo Especial e dois anos seguidos no Desfile das Campeãs.

*

O que pesou mais foi uma grande parte da diretoria gostar de samba e cada um seguindo um caminho diferente no mundo do carnaval. Tinha um cara que entendia de bateria, um cara que entendia de alegoria, só que um ia para uma, outro ia para outra. Acho que o que mais pesou na realidade foi isso. A Dragões, por mais que a gente faça torcida para outra torcida, e faz, porque a gente quer mostrar nossas qualidades para outra também, não só para a sua própria torcida, pelo que eu converso com os meninos, não teve uma influência determinada torcida ter uma escola, não foi o fator determinante para a gente criar a nossa, não. Foi mais a questão de juntar mais e unir mais nosso povo da torcida em escola.

Durante a entrevista, toca-se no assunto do apoio financeiro do governo e de instituições privadas ao desfile das escolas de samba. Azevedo afirma que foi notória a diferença de incentivos e de oportunidades de acordo que a escola de samba recebeu, se comparado à discriminação que sofre a torcida perante a sociedade e os patrocinadores.

Isso porque a posição social da torcida organizada é segundo Azevedo “marginalizada”, ao passo que a escola de samba, associada ao imaginário da “cultura brasileira”, é aceita sem preconceitos. O presidente afirma que as diretorias de ambas as entidades, a Dragões-torcida e a Dragões-escola de samba, tentam organizar o máximo de eventos em conjunto, mas isto às vezes é complicado, em função das diferenças de universo entre as duas.

… era um desnível, um abismo enorme. Na realidade, a gente até brinca, você sendo uma escola de samba, grandes instituições te procuram, e você sendo torcida eles fecham a porta. Por mais que o nome seja o mesmo, o universo é o mesmo, as diretorias das duas têm uma interlocução entre elas, o pessoal que é diretor da escola de samba são diretores da torcida e vice-versa, a gente faz um release, quando a gente tem tempo, sobre a torcida, e eles sobre a escola, a gente caminha junto. Só que, mesmo tendo o mesmo nome, o universo é bem diferente. A torcida organizada é uma coisa muito marginalizada, e a escola de samba tem uma exposição muito grande como cultura no nosso país. Então, além do apoio financeiro público, da própria televisão, vários outros segmentos querem patrocinar, ou para colocar a marca dela lá, ou para falar alguma coisa no enredo, por vários motivos sempre procuram. Torcida, geralmente, a gente vai no restaurante, o cara já te olha meio torto. Graças a Deus a Dragões, no cenário de torcida, ela tem uma concepção, não o tanto que eu queria, mas uma concepção um pouco diferente da sociedade do são-paulino, e das outras torcidas também. Então, a gente está mais ou menos entre a escola de samba e as torcidas organizadas, a Dragões está ali no meio. A gente não é tão marginalizado quanto às outras torcidas organizadas, mas a gente acha que ainda não é o suficiente o que oferecem para nós, mesmo não sendo tão marginalizada quanto as outras, estamos no meio.

No encerramento da entrevista, Azevedo afirma que seu desejo é que a Dragões seja campeã do carnaval paulista. Sonha ainda que, futuramente, a torcida passe a ser tão respeitada quanto a escola de samba, pois o torcedor é o mesmo para ambas:

É óbvio que a gente sempre tem que querer mais, é o que motiva a gente dormir e acordar o dia seguinte. Sempre ter um motivo para viver e para buscar alguma coisa. Mas eu agradeço a Deus em alguns pontos, eu acho que os resultados que a escola de samba, por exemplo, já atingiu, me satisfaz, é óbvio que a gente quer ser campeão, mas já fazer parte do universo especial, já ter isso para o desfile das campeãs, a torcida da mesma forma. A visão que hoje outras torcidas, a sociedade, já tem com a torcida, já me agrada muito. Mas aqueles dois pontos que eu citei lá atrás é uma coisa que é meu caminho hoje, que me motiva, que é a quebra dessa marginalização de torcida, tirar um pouco disso como Dragões, mas como torcedor organizado num todo, eu acho que é uma das coisas que mais me motiva, mais me deixa querendo fazer um trabalho aqui na Dragões para mostrar para o são-paulino e para quem está fora, não só dentro da arquibancada, mas fora, que a gente pode ser diferente. Vou até mencionar isso, que já está acabando a entrevista, eu assumi a vice-presidência de uma ONG aqui na zona norte de São Paulo, chama Estrela da Manhã, cuida de 200 crianças e eu sou o vice-presidente delas sendo um torcedor organizado, entendeu?

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