123.24

Torneio de Futevôlei para Amputados: esporte, ludicidade, inclusão

Wagner Xavier de Camargo

Em alguma madrugada qualquer, enquanto eu rolava a barra de meu feed de notícias no Facebook, passei rapidamente os olhos por um anúncio simples, curto, porém que me atraiu a atenção de imediato: no dia 07 de setembro ocorreria o I Torneio de Futevôlei para Amputados, no bairro Guará, dentro do distrito de Barão Geraldo, Campinas. Aparecia, então, a oportunidade de aprender mais sobre uma modalidade esportiva, aplicada a um público diferente. Dias depois entrei em contato com Leonardo, nome que estava na chamada, e mediante suas informações, organizei-me para presenciar tal evento.

O futevôlei é um esporte relativamente recente, que mistura o futebol e o voleibol, duas modalidades muito populares no Brasil. Ocorre num espaço demarcado na areia (de uma praia ou de um clube que monta uma quadra com areia em seu espaço), nas mesmas dimensões do vôlei (18 m de comprimento por 9 m de largura). Consta que teve suas origens nas praias cariocas, ainda nos anos 1960. Hoje é praticado em muitos países da Europa, nos Estados Unidos e Canadá, e inclusive em alguns asiáticos.

I Torneio de Futevôlei para Amputados, no bairro Guará, distrito de Barão Geraldo, Campinas. Foto: Arquivo pessoal do autor.

O interessante do torneio proposto para amputados foi mostrar, para um público amplo, a possibilidade de uma prática diferenciada. Leonardo Grego e seu sócio Bruno Rached foram os idealizadores do evento e se propuseram a organizá-lo principalmente apostando na ludicidade da modalidade e nos jogadores com amputação, que há três meses frequentam seus treinos. Ambos são professores/instrutores no espaço de socialização esportiva, localizado no bairro Guará. “Leo”, como carinhosamente é chamado por todos, é proprietário deste espaço e quem, a todo momento, preocupava-se em me oferecer informações, mesmo estando super atarefado entre jogos e arbitragem.

As regras do futevôlei são simples. Ele pode ser jogado em sistemas de duplas, de trios ou mesmo em quartetos, tanto nas categorias masculina e feminina, quanto na mista (homens e mulheres). Assim como no futebol, não é possível usar as mãos, braços ou antebraços para rebater a bola. Excetuando-se isso, a bola pode ser tocada com qualquer parte do corpo. No futevôlei para amputados, Leo e Bruno adaptaram essas regras, deixando liberado para que os jogadores escolhessem que partes do corpo gostariam de usar para rebater a bola, excetuando-se o uso das muletas para essa finalidade.

No caso ainda das regras adaptadas, como me explicou Leo, foi pensado a formação de três contra três, compostos cada um destes grupos por duas pessoas amputadas de perna e/ou braço, e uma pessoa sem amputação (ele e Bruno se revezavam jogando nas equipes). A meu ver, a presença do professor junto aos jogadores amputados conferia segurança e mesmo promovia dinamismo às jogadas. Quando conversei com alguns deles, percebi que a referência à figura do professor era central, mesmo porque muitas vezes a mobilidade é prejudicada pela areia fofa, na qual as muletas se afundam. O professor confere dinamicidade ao jogo e oportuniza melhores posições para os atletas.

No futevôlei para amputados, as regras foram adaptadas, com a formação de três contra três, compostos cada um destes grupos por duas pessoas amputadas de perna e/ou braço, e uma pessoa sem amputação. Foto: Arquivo pessoal do autor.

Em tempos tristes de um país que foge das rédeas da democracia, num dia de suposta comemoração da independência, jamais imaginaria que eu vivenciaria uma experiência tão entusiasmante quanto essa do torneio de futevôlei. Algumas partidas eram extremamente acirradas, com a bola no ar por alguns minutos, algo que arrancava gritos surpresos da plateia. Em termos de placar e pontuação, o jogo é disputado como na modalidade voleibol, ou seja, por disputas de sets (de 18 pontos), e são marcados pontos quando a bola cai na areia (do lado adversário), atinge um jogador que não consegue rebatê-la para o outro lado, ou vai para fora das linhas. Bruno e Leo fizeram um esquema de marcação no chão, com uma fita vermelha, combinando zonas de movimentação de atletas e deles próprios, uma estratégia bastante inteligente e que pensava no deslocamento dos corpos com muletas.

Os jogadores, por sua vez, são atletas de futebol e recebem suporte para treinamentos por parte da Ponte Preta, de Campinas. Vários deles usavam shorts pretos com o brasão da equipe campineira. Eles moram em lugares distantes do local de treino, em algumas cidades da região metropolitana de Campinas ou outras mais longínquas (como Jundiaí), porém se deslocam todas as quartas para o treino da noite. Segundo Diego, com quem tive o prazer de tirar uma foto, “o treino das quartas-feiras é sagrado”. Quando me disse que não falta “nem se estiver doente”, nós dois rimos da espontaneidade da observação.

Diego ajeita a bola e prepara-se para sacar. Foto: Arquivo pessoal do autor.

Dirigi-me ao espaço do torneio com um amigo da universidade. Enquanto assistíamos aos jogos, conversávamos sobre o quanto havia de diversidade naquele local, que talvez as pessoas ali presentes nem se dessem conta. Havia pessoas brancas, pardas e negras; universitários (pelo menos os/as que conhecíamos); pessoas ricas, de classe média, e talvez pobres. Indivíduos com instrução e alta escolaridade e outros sem tais qualificações. Havia idosos, jovens e crianças; havia pessoas heterossexuais e outras não alinhadas com a heteronorma. Vi uma diversidade de corpos, cores, sorrisos e intencionalidades. Tudo girava na órbita mágica, criada pelo torneio de futevôlei.

Talvez nem Leonardo ou Bruno imaginaram o que fizeram acontecer naquele simpático sábado à tarde. Muitas das representações do esporte convencional caíram por terra, quando vi aqueles hábeis esportistas rebatendo a bola com partes de seus corpos e se deslocando agilmente na areia com muletas. Outras (e novas) representações do lúdico ali vivenciei – e tenho certeza de que o mesmo se passou para àquelas pessoas lá presentes.

Que a intencionalidade da inclusão de Leonardo e Bruno transborde as expectativas! Que novos e outros torneios aconteçam; que outros jogadores (e jogadoras, por que não?) com amputação tenham a chance de participar e jogar; e que todos nós possamos aprender mais com aquilo que nos é alheio e que, inúmeras vezes, não prestamos atenção.