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Tostão: lembranças e digressões acerca dos 5 títulos mundiais brasileiros

Matheus Marinho, Elcio Loureiro Cornelsen

Introdução

Atleta, médico, professor, colunista e comentarista. Eduardo Gonçalves de Andrade nasceu nas alterosas mineiras em 1947, e hoje, aos 71 anos, é conhecido e respeitado mundialmente. Um desses poucos personagens históricos que conseguiram a excelência e a admiração em todos os campos profissionais em que atuaram. No campo futebolístico, Tostão, como é conhecido, participou de memoráveis esquadrões do Cruzeiro Esporte Clube e da Seleção Brasileira. No campo do jornalismo esportivo, destacou-se como uma referência aos seus pares.

Não ficou devendo no campo literário, onde em sua obra mais recente, Tempos vividos, sonhados e perdidos: um olhar sobre o futebol (2016), condensa toda sua experiência e maestria ao analisar e relembrar períodos de destaque do futebol brasileiro.

Na obra supracitada, Tostão deixa claro, logo na introdução, que não se trata de um livro autobiográfico e nem de um livro de memórias. Na ficha catalográfica, a obra consta como “crônicas brasileiras”. Talvez seja um pouco de tudo isto, recheado de relatos pessoais, lembranças, análises e digressões sobre a evolução do futebol brasileiro nas últimas seis décadas, tendo como pontos de referência as Copas do Mundo disputadas neste período pelo Brasil.

Falar de Tostão é falar do futebol brasileiro, é também falar sobre os tempos áureos da Seleção que encantou o mundo, é também falar sobre a história do Mineirão e da projeção do Cruzeiro Esporte Clube como potência nacional. É também, por que não, falar do mais alto nível da crônica esportiva brasileira em todos os tempos. Personagem privilegiado de todos estes períodos e campos, em que sua história pessoal se mescla à História do futebol brasileiro, seria muita pretensão classificar seu livro em um único gênero literário. Nem Messi, nem Cristiano Ronaldo, Tostão é o mais completo futebolista vivo.

1958 e de 1962: as primeiras lembranças da camisa canarinho

No dia 29 de junho de 1958, com onze anos de idade, eu estava no bar do conjunto habitacional onde morava, o IAPI, no bairro da Lagoinha, em Belo Horizonte, espremido no meio de uma multidão para escutar pelo rádio a grande final entre Brasil e Suécia. Eu era o único garoto. Daí, por ser muito pequeno, sempre o menor da turma, nasceu o apelido Tostão – na época, um tostão era a menor parte da moeda, equivalente a um centavo. (TOSTÃO, 2016, p.14).

No relato pessoal citado acima, o garoto Eduardo conta as origens de seu apelido eternizado. Como qualquer um de nós, apaixonados pelo futebol, ele só estava lá para sentir, no meio da multidão, o prazer de acompanhar uma final de Copa do Mundo. O esquadrão de 58, para o Tostão de hoje, possivelmente em termos individuais, foi melhor que a Seleção de 70. Gilmar, Didi, Garrincha, Pelé, Nilton Santos, Bellini, Djalma Santos, Zagallo, Zito e outros ícones compunham o memorável escrete. Segundo Tostão, naquela época ele já jogava e se destacava pela equipe de seu bairro, posteriormente na base do América-MG e depois, aos dezesseis anos, no profissional do Cruzeiro. Forjado nas arquibancadas do Estádio Raimundo Sampaio, o popular Independência, o garoto gostava de assistir aos jogos o mais perto possível do campo, para vislumbrar a emoção nos rostos dos jogadores. Foi no Independência, ao lado de seu pai e seus irmãos, que presenciou in loco as jogadas dos craques do selecionado brasileiro, seus ídolos da infância e de adolescência, sem imaginar que logo seriam seus colegas de passes e arremates.

Em 1962, aos 15 anos, Tostão estava a um ano de sua estreia no profissional do Cruzeiro. A Copa do Mundo disputada naquele ano no Chile trazia quase o mesmo elenco recheado de craques campeões em 1958. Tostão assistia a todos os jogos pelo videoteipe.

Vi Didi comandar o jogo, como fez em 1958. Vi Nilton Santos, contra a Espanha, fazer um pênalti e dar um passo à frente […] Vi Pelé fazer um gol magistral […] depois se contundir e ser muito bem substituído, nos jogos restantes, pelo possesso Amarildo. Vi Garrincha fazer de tudo, gols de todos os jeitos. (TOSTÃO, 2016, p.15).

Em frase bastante popular, de autoria incerta, um pensador dizia que “se eu consegui enxergar mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes”. Talvez, sobre essa mesma ideia, Eduardo tenha se transformado em Tostão: “Os craques de 1958, que repetiram o título em 1962, foram meus primeiros heróis.” (TOSTÃO, 2016, p.15).

1970: a consagração e o sonho realizado

Figurinha do Tostão no álbum da Copa de 1970. Foto: Reprodução.

O caminho do jovem promissor do Cruzeiro rumo à glória mundial é marcado por um ponto capital. A inauguração do Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, em 1965. Ali, no jogo de inauguração do estádio, Seleção Mineira 1 x 0 River Plate, Tostão, aos 18 anos, almejou a amarelinha e sentiu que era possível, foi uma espécie de rito de passagem: “Pela primeira vez, joguei em um grande estádio, lotado, com mais de 100 mil pessoas. Senti-me um atleta de verdade, quem sabe um futuro craque da Seleção brasileira.” (TOSTÃO, 2016, p.24).

A turbulência dos anos de 1965 e 1966 forjaram o atleta Tostão, que se destacara no cenário nacional. O fracasso da Seleção em 1966 foi um tropeço que agregou experiência ao currículo do craque, ao mesmo tempo em que a conquista da Taça Brasil daquele ano pelo Cruzeiro sobre o Santos de Pelé, com direito ao emblemático 6 x 2 no Mineirão, colocou Tostão e outros jovens promissores do time mineiro sobre os holofotes. De 1965 a 1969, Tostão, ao lado de Dirceu Lopes e companhia, tornou-se pentacampeão mineiro, em uma época de destaque dos campeonatos estaduais, o que consagrou uma geração e projetou a equipe celeste para o Brasil.

Na seletiva dos 22 convocados para a Copa de 1966, houve um episódio curioso, onde um jornalista perguntou a Tostão sobre o peso da camisa da Seleção: “Peguei uma [camisa], coloquei na balança e disse que pesava igual à do Cruzeiro. Sou uma mistura de tímido e atrevido.” (TOSTÃO, 2016, p.27).

Após uma série de convocações, mudanças de técnicos e desconfiança da imprensa, o selecionado brasileiro fez uma excelente Eliminatória Sul-Americana sob o comando de João Saldanha em 1969. Tostão, agora ao lado de Pelé, longe da polêmica de que não poderiam atuar juntos, foi o artilheiro da competição. Tudo corria bem até a grave lesão no olho sofrida por Tostão em uma partida entre Cruzeiro e Corinthians em setembro de 1969. O deslocamento da retina e a consequente emergência cirúrgica quase tiraram o craque da Copa no ano seguinte. Nos meses que se seguiram a recuperação, a apreensão tomou conta do jogador: “Pensava muito sobre meu futuro. Tinha 22 anos e era muito jovem para encerrar a carreira. Tinha confiança que continuaria jogando.” (TOSTÃO, 2016, p.48).

Após as polêmicas e lendas a respeito da saída de Saldanha do comando da Seleção, o escrete canarinho voou para o México em plena forma física e contando com o otimismo por parte da imprensa. O bicampeão do mundo Zagallo estava no comando, e, por uma oferta generosa de craques ou polêmicas nunca provadas de bastidores, não levou Dirceu Lopes, Zé Carlos, Ademir da Guia, entre outros. A preparação da comissão técnica se precavendo em uma concentração na altitude da cidade de Guanajuato e a perspicácia tática de Zagallo fizeram a diferença no mundial. Segundo Tostão: “[…] impressionaram-me os conhecimentos técnicos e táticos de Zagallo. […] comandava muitos treinos táticos, o que eu nunca tinha visto.” (TOSTÃO, 2016, p.52). A equipe, quando ameaçada, recuava e marcava em seu campo, proporcionando, assim, o bloqueio dos intentos adversários e a saída em bloco no contra golpe. Diversos gols durante a Copa saíram de contra-ataques fulminantes. Uma equipe fundadora do estilo moderno de se jogar, bem preparada fisicamente, mas sem abrir mão da excelência brasileiríssima da técnica, do improviso e da arte.

Na Copa, após bater a Tchecoslováquia, a Inglaterra e a Romênia na fase de grupos, o Brasil enfrentou nas quartas de final o Peru, sob o comando técnico do bicampeão do mundo Didi, e, posteriormente o Uruguai pelas semifinais. 4 x 2 e 3 x 1, respectivamente. As melhores atuações de Tostão naquele torneio. Contra o Peru, Tostão marcou duas vezes e contra o Uruguai deu duas majestosas assistências, consideradas por ele os melhores passes de sua carreira. A brilhante atuação serviu para carimbar a passagem do Brasil rumo à Cidade do México na tão esperada final. Pela frente, a azurra, o tradicional selecionado italiano.

No chocolate brasileiro em cima dos italianos por 4 a 1, Tostão narra na obra os detalhes táticos, as curiosidades do dia do tri e suas ansiedades. Entre estes dados; Gérson fumando no vestiário, a camisa da final e a medalha entregue ao doutor responsável pelo acompanhamento de sua cirurgia ocular, o grito de Tostão para Pelé informando sobre a passagem emblemática de Carlos Alberto no quarto gol brasileiro, o sonho de Dario contado em público antes da final no qual fazia 3 gols seguido de uma enorme gargalhada coletiva e em um leve tom de nostalgia, Tostão relata o seguinte:

“Gostaria de voltar ao dia 21 de julho de 1970, com a idade e a visão do futebol e do mundo que tenho hoje, para observar e entender melhor os detalhes do dia em que o Brasil foi campeão do mundo pela terceira vez.” (TOSTÃO, 2016, p.68).

Sobre o uso político da Seleção pelo regime ditatorial, Tostão deixa claro que sua posição foi sempre crítica e de oposição, porém, é enfático quanto às críticas que os tricampeões recebem a este respeito:

Alguns extremistas criticam os jogadores por não terem se rebelado contra a ditadura, como se fôssemos ativistas políticos e tivéssemos que abandonar a Seleção. Éramos todos jovens, sonhadores, ambiciosos, compromissados com a nossa carreira e loucos para ser campeões do mundo. Nada mais humano. (TOSTÃO, 2016, p.50).

1994 e 2002: o futebol pragmático aos olhos do jornalista

Tostão

Desde cedo, Tostão vislumbrava uma carreira acadêmica e tinha “sonhos intelectuais”. Na concentração do Cruzeiro, destacava-se por levar muitos livros e discos. Para sua surpresa, tais sonhos “vieram a se realizar antes do esperado, aos 26 anos, quando fui obrigado a parar de jogar por causa de problemas graves no olho esquerdo.” (TOSTÃO, 2016, p.25).

Provavelmente, a Seleção e o Vasco da Gama (time pelo qual Tostão encerrou a carreira) perderam alguns títulos, mas, em compensação, o Brasil ganhou um novo médico, psicanalista e professor de 1974 a 1997. Já a crônica esportiva ganhou um privilegiado (por sua experiência como jogador e pela formação cultural e educacional) intelectual a partir da Copa de 1994 e depois, com exclusividade a partir de 1997.

A convite de Luciano do Valle, Tostão comentou os jogos da Copa do Mundo de 1994. Logo percebeu que os jogadores não gostam de ouvir críticas de ex-colegas de profissão. Posteriormente, teve intempéries com Ronaldo e Rivaldo. Tostão interrompe a narrativa sobre os comentários dos jogos para uma digressão sobre o protagonista do tetra: “Romário está entre os maiores centroavantes da história do futebol mundial. Foi o mais genial.” (TOSTÃO, 2016, p.105). Apesar do baixinho diferenciado comandando o ataque e eleito o melhor do mundo na época, com precisão, Tostão explica por que a Seleção de 1994 “não encantou”:

A Seleção ganhou a Copa depois de 24 anos, e mesmo assim foi criticada. A razão principal é que o time jogou, pela primeira vez na história do futebol brasileiro, da maneira como jogavam os europeus, com duas linhas de quatro e dois atacantes. Era um time que não dava show, mas extremamente eficiente. (TOSTÃO, 2016, pgs.106 e 107).

Com o esquadrão do futebol-arte vencendo em 1970 e o posterior suspiro final do romantismo no futebol brasileiro em 1982, o dilema futebol-força e futebol-arte parece ter minguado na vitória do primeiro. A “Era Dunga” veio para ficar, e a simbólica final 0 x 0 entre Brasil e Itália no mundial dos Estados Unidos foi o principal alerta do pragmatismo incipiente.

Em 2001, após a recusa ao cargo de diretor técnico da Seleção, Tostão seguiu com as análises jornalísticas. Meses após uma entrevista bem sucedida com o recém-chegado técnico Felipão ao selecionado brasileiro, Tostão o criticou pelos maus resultados nas eliminatórias para a Copa. Assim como Rivaldo e Ronaldo, Felipão não recebeu bem as críticas. Tal fato explica a pouca aparição pública de Tostão nos eventos de homenagens do Cruzeiro e da Seleção, além de sua opção de distanciamento profissional: “Esse fato solidificou ainda mais minha convicção de evitar aproximações com quem critico ou elogio. Perco a informação mas não perco a independência.” (TOSTÃO, 2016, p.128).

Tostão também relembrava os tempos de medicina quando, por diversas ocasiões, auxiliou profissionais da imprensa que se adoentaram durante a cobertura das Copas. Sobre o futebol desempenhado pela seleção, Tostão diz que não empolgou coletivamente, mas com a mudança de Kleberson no lugar de Juninho Paulista após a fase de grupos, a equipe melhorou. A narrativa da “Família Scolari” é repetida pela imprensa até hoje, ao citar os méritos do treinador pentacampeão do mundo em termos de união dos grupos que comanda. Tostão, sempre analisando critérios mais objetivos, discorda: “O maior mérito de Felipão na Copa de 2002 não foi a criação da Família Scolari, e sim o fato de ter escalado Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, juntos.” (TOSTÃO, 2016, p.132).

Em suma, o penta está no hall do futebol pragmático, eficiente, mas sem a empolgação e encantamento de outrora. O futebol mudou, para o bem ou para o mal. Nós, brasileiros, parecemos sempre presos ao mito do futebol poético, fundador da nossa identidade futebolística.

Considerações Finais

Os saudosistas falam que o Brasil precisa recuperar a essência e voltar a jogar como nos anos de 1960 e 1970. O futebol mudou. Temos que olhar e aprender com o passado, mas sem repeti-lo. É preciso separar a nostalgia, a saudade, um delicioso sentimento, do saudosismo de achar que tudo no passado era melhor. Os saudosistas possuem o hábito de idealizar um passado que nunca existiu. […] não existem mais as diferenças marcantes de estilo que havia antes. […] Precisamos recuperar a imaginação e a fantasia, mas com planejamento, organização e disciplina. (TOSTÃO, 2016, p.193).

Eduardo sonhador e torcedor, Tostão protagonista, Tostão-Eduardo médico, professor, comentarista e cronista. Três fases de uma história pessoal imbricada a história do futebol brasileiro. Recomendo, veementemente, a leitura completa da obra, que obviamente é muito mais rica e não se restringe às Copas conquistadas pelo Brasil. Neste recente golaço, Tostão fala de tática, de contextos históricos, de mudanças, de reflexões e da vida, com a mesma genialidade e naturalidade em que tabelava com Pelé. Suas tabelas literárias na obra foram realizadas com nada mais e nada menos que José Miguel Wisnik, Guimarães Rosa, Freud, Stefan Zweig, Hermann Hesse, entre outros. Como disse em uma passagem no início do livro, “O craque é. O que é, é.”

Referências

TOSTÃO. Tempos vividos, sonhados e perdidos: um olhar dobre o futebol. Tostão – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2016