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Trabalhadores da bola: uma reverência (e a Afonsinho)

Alexandre Fernandez Vaz

Para Marcus Aurelio Taborda de Oliveira.

Já faz muitos anos. O marido de uma amiga era jogador de futebol. Formado nas categorias de base do Avaí Futebol Clube, em que se destacava como habilidoso atacante, teve pouca sorte ao subir para os profissionais, onde encontrou um time desarrumado e perdedor, além da tremenda pressão da torcida sobre os prata-da-casa. Não havia como dar certo e logo saiu ele a peregrinar pelo interior de Santa Catarina, de clube pequeno para clube pequeno, perdendo chances, às vezes por pouco, de ser testado em uma grande equipe do futebol brasileiro. Vivendo de improviso nas cidades em que atuava e voltando para a casa, em Florianópolis, apenas nos finais de semana para encontrar esposa e filha, as condições não eram boas.

Aos vinte e cinco anos, e sem perspectivas para a curta carreira, o jeito foi reverter o registro de profissional para amador, de maneira a poder aceitar o convite para disputar os campeonatos locais, recebendo uma gratificação por partida disputada mais a vaga promessa de um emprego formal. Como tudo que está ruim pode ainda piorar, eis que o entrave se colocou: o passe era do clube e, para liberar o atleta, a exigência era que ele o comprasse. Ou seja, seria preciso pagar pela liberdade de, já sob condições muito difíceis, mudar de profissão. Sem recursos para a carta de alforria, teve que ser socorrido pela sogra que, depois de tensa negociação, adquiriu o passe do genro pela metade do valor inicialmente estipulado.

Futebol de várzea

Foto: Cassimano.

A situação acima não foi uma excepcionalidade naqueles tempos de compra, venda, empréstimo e aluguel, mecanismos que impediam o jogador de trocar de emprego por vontade própria, mesmo com a conclusão do contrato de trabalho. É certo que o fim desse tipo de vínculo não resolveu o problema da precariedade da profissão de futebolista, situação da qual está livre apenas a pequena minoria que atua nas divisões superiores do futebol brasileiro.

Os bons postos de trabalho são pouquíssimos. Consideremos os elencos das equipes das séries A e B do Campeonato Brasileiro e veremos que são em torno de dois mil, não muito mais que isso. Ademais, as posições dos jogadores são específicas, a circulação mais ampla entre elas não é comum para um atleta profissional. Chama a atenção casos como o de Juliano Belletti, vice-campeão brasileiro pelo Atlético Mineiro como número 10, em 1999, e três anos mais tarde vencedor da Copa do Mundo, na reserva de Cafu, jogando de lateral-direito. Goleiro de futsal na infância, ele estreou na seleção em 1995 como volante. Mas é coisa rara. Pensemos no goleiro, situação-limite porque não se pode atuar como tal de forma improvisada, tampouco é fácil migrar de uma função na linha para a de guarda-metas. Se contarmos cinco arqueiros por clube (dois geralmente são da base ou recém-promovidos), então teremos não mais de duzentos profissionais nas séries A e B. Para cada milhão de brasileiros, um goleiro de elite.

Passe livre filmeDa elite do futebol fez parte aquele que entrou para a história como o jogador que enfrentou os cartolas e ganhou na justiça o próprio passe. Afonsinho, craque do Botafogo, Santos e Flamengo, foi celebrado por Pelé, que em seu último contrato com o Santos teve que se submeter a exigências indesejadas por ele: “Homem livre em futebol? Homem livre só conheço um, o Afonsinho. Este sim, pode dizer, usando suas palavras, que deu o grito de independência ou morte. Ninguém mais. O resto é conversa”. A sentença do Rei está logo no início de Passe livre, documentário dirigido por Oswaldo Caldeira, de 1974.

O “prezado amigo Afonsinho”, como reza a canção de Gilberto Gil, é o eixo do filme, mas nele aparecem ou são referidos outros personagens do futebol de até então. Almir, o Pernambuquinho, surge em fotos, depoimentos de amigos e trechos de suas memórias publicadas pela revista Placar – ao final vemos seu corpo morto sobre uma calçada de Copacabana; o goleiro Barbosa visita as arquibancadas do Maracanã, retomando a fatídica final da Copa de 1950, contra o Uruguai – ele agora é bilheteiro no mesmo estádio em que tanto brilhou; o lamentável João Havelange, como sempre, declara seu apoio ao sistema – ele espera que a Justiça dê ganho de causa para o Botafogo de Futebol e Regatas, em processo pelo passe livre aberto contra o clube pelo ídolo Jairzinho.

Afonsinho seria um “líder negativo”, diz um diretor do mesmo Botafogo, descreditando o jogador porque ele reivindicara que os pagamentos aos atletas fossem feitos em dia. O castigo: é emprestado ao Olaria Atlético Clube, tradicional agremiação da Zona Norte do Rio de Janeiro, time formado por jovens em busca de espaço e veteranos decadentes. O efeito é, no entanto, contrário, já que no subúrbio renasce no meia-esquerda o gosto pelo futebol. Na volta ao Alvinegro, o clima não melhora e o jogador banca o enfrentamento, chegando à obtenção do próprio passe.

Afonsinho

Afonsinho. Foto: Max Rocha.

Moleque que gostava de jogar na chuva, craque que atuou no Botafogo e no Santos em seus grandes momentos, profissional que não gostava de distinções, astro que falava baixo e pausado, estudante de medicina na UERJ. Esse foi, este ainda é Afonsinho. Aquele cujas barbas e cabelos longos foram pretexto para seu afastamento do elenco do Alvinegro carioca. Neste 1º de maio reverencio os trabalhadores da bola, reverencio Afonsinho e com ele compartilho uma esperança. Como podemos escutar de sua voz ao final do belo documentários de Oswaldo Caldeira, “A realidade existe hoje, mas não precisa existir sempre desta forma, ela pode ser transformada”. Craque.

Sob o signo da morte, 1º de maio de 2021.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Trabalhadores da bola: uma reverência (e a Afonsinho). Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 1, 2021.