106.17

Turminha do Lionel x Clubinho do Cristiano

Leandro Marçal

Na reunião de pais, Luciana pediu para não ser chamada de tia. Não era irmã da mãe nem do pai de ninguém, mas professora de filhos e filhas, que deveriam tratá-la assim. Mesmo recém-chegada àquela escola, se impunha com firmeza. Falava sem alterar a voz, mas demonstrando preocupação com o jardim de infância.

– Senhores pais, precisamos conversar sobre problemas sérios. Seus filhos estão dando trabalho.

– Ai, não acredito. Até meu Enzo Gabriel?

– Você é a mãe do Enzo Gabriel?

– Sim!

– Tá sim, mas não é nada específico, é geral. A sala está dividida, as crianças andam discutindo aos gritos. Já tive até que apartar um começo de briga entre elas. Tudo por causa das atividades recreativas. Quem são os responsáveis por Lionel e Cristiano?

Duas mães levantaram as mãos. Tímidas, aparentavam medo pela opinião dos presentes. Um senhor de meia-idade batia os pés e não parava de olhar para o relógio. Uma moça elegante esticava o pescoço e, pomposa, olhava para Luciana de cima para baixo.

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Lionel e Cristiano. Foto: Too V-i (CC BY 2.0).

– Pois é, mães. O problema são os filhos de vocês. Eles são os donos dos times da recreação. Não dá para negar que eles têm talento para a bola. Mas, eles criaram dois grupos insuportáveis. Uns não aceitam nenhuma crítica ao Lionel, chegam a dizer que é o maior aluno da história dessa escola, não cansam de repetir. Ele fica caladão, tem uma timidez gigante e só aparece na hora dos joguinhos. Em compensação, o clubinho do Cristiano o louva como um deus, ficam reparando na barriguinha dele e seu ego está cada vez mais inflado. Os dois não se falam já há algum tempo e não sei mais o que fazer. Ninguém do colégio consegue conviver com a gritaria da criançada do Lionel e a histeria dos bebezões do Cristiano.

As palavras da tia, (ops!), Luciana, monopolizaram as atenções e o silêncio pairava no ar a cada pausa. As mães de Lionel e Cristiano tentavam disfarçar o choro de constrangimento. A responsável pelo Enzo Gabriel não ousava abrir a boca. O pai da Ester Valentina só pensava em ir embora, mas não sem antes buscar uma solução para o desentendimento da turminha bagunceira.

– Tia… digo, professora. Entendo tudo isso e lamento pela minha filha. Nem quero saber de qual lado ela está, mas o que podemos fazer para evitar isso?

– Pai, o ideal é disciplinar em casa. Mostrar que chorar, gritar e bater o pé não levam a nada. É bom que eles entendam desde cedo que não é saudável tanta infantilidade em volta do Lionel e do Cristiano. Eles precisam crescer e o restante da sala não ajuda. Por favor, conversem com seus filhos, eu não aguento mais, a diretora já não sabe o que fazer. Enfim, por hoje é isso. Peço apenas que as mães do Lionel e do Cristiano fiquem para uma conversa particular.

Os sons das cadeiras arrastadas se misturaram aos pedidos de licença. Pais apressados foram trabalhar, mães conhecidas repercutiam a reunião polêmica. As despedidas foram discretas. Dentro da sala, as mães de Lionel e Cristiano olhavam para a professora e evitavam se encarar.