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Um alerta para os Jogos Olímpicos – Rio 2016 no campo da educação

Amarildo da Silva Araujo

No dia 8 de outubro foi realizado na Unicamp o Fórum Jogos Olímpicos em debate: um olhar das ciências humanas, e contou com o apoio do portal Ludopédio. Esse evento me levou a pensar na Copa 2014 e sua relação com a educação e oportunamente nos Jogos olímpicos que irão ocorrer no próximo ano e as possíveis oportunidades de envolvimento com o meio escolar.

Recorri a minha dissertação defendida no ano passado “O MEGAEVENTO COPA DO MUNDO FIFA 2014: relações entre futebol, educação e lazer em uma escola estadual de Belo Horizonte – MG”. Neste texto, procuro discorrer sobre parte da pesquisa realizada nos documentos oficiais e algumas conclusões referentes à educação, que podem ser úteis para pensar sobre os Jogos Olímpicos.

Para a realização de uma Copa do Mundo de Futebol a FIFA precisa firmar parcerias, dentre elas, com o país-sede e, por conseguinte, com os Estados e os Municípios onde ocorrerão os jogos, sendo condição “sine qua non” para que o país  realize o evento. No Brasil gerou a Lei Geral da Copa (LGC), que fez uma única referência à educação escolar, no seu no art. 64: “Em 2014, os sistemas de ensino deverão ajustar os calendários escolares de forma que as férias escolares decorrentes do encerramento das atividades letivas do primeiro semestre do ano, nos estabelecimentos de ensino das redes pública e privada, abranjam todo o período entre a abertura e o encerramento da Copa do Mundo FIFA 2014 de Futebol”.

Este artigo não feriu a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) com relação ao calendário escolar, porém, a LDB quando propôs a flexibilidade do calendário, certamente considerou as atividades de ciclos produtivos e/ou fatores culturais e naturais que não coincidem com o ano civil e não o ajustamento para adequar milhares de pessoas para atender ao interesse de uma empresa privada estrangeira. Penso que a abertura acertada na LDB ficou enrijecida pelos governos federal, estadual e municipal sem considerar os possíveis prejuízos educacionais ao se transformar em modelo único, levando a educação a um estado de subserviência face às exigências que não foram demandas pela própria educação brasileira.

Considerando a Copa 2014 como uma oportunidade para os estudantes apropriarem dos saberes produzidos pelo evento, seu conteúdo deveria ser tratado de maneira mais educativa. Contudo, o aproveitamento pedagógico associado à vivência contextualizada dos alunos no período de realização da Copa de 2014, foi desperdiçado devido ao recesso que levou os alunos a não terem aulas, haja vista que houve uma pluralidade de acontecimentos que ocorreram durante o evento, que poderiam servir de temas/conteúdos para serem trabalhados nas escolas.

Portanto, levando a seguinte questão. O que seria mais proveitoso e rico para a educação; ter ou não aulas nesse período? Acredito que as aulas poderiam ser benéficas, pois a repercussão desse megaevento certamente alcançaria as escolas e então esse tema poderia ser trabalhado de diferentes maneiras durante a Copa, o que resultou numa perda de oportunidades para ações educativas.

No caso dos Jogos Olímpicos o risco desse modo de intervenção na educação em todo território nacional parece está descartado, pois certamente não haverá uma lei geral que atinja a educação no período dos jogos.

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Jogo com representantes das seleções da Copa 2014. Foto: Amarildo da Silva Araujo.

Seguindo a LGC a Secretaria de Estado de Educação SEE-MG, por meio da Resolução nº 2.368, normatizou o calendário escolar 2014 quando estabeleceu como “recesso escolar comum” os dias referentes ao período previsto para a Copa. Ressalto que não houve registro de diretriz educativa por parte desta Secretaria orientando as escolas para o desenvolvimento de projetos/atividades referente ao megaevento.

O Governo Federal também procurou descentralizar as ações para preparar as cidades-sedes com vistas para a Copa 2014. Em Minas Gerais o Governo Estadual e a Prefeitura de Belo Horizonte elaboraram em conjunto o Planejamento Estratégico Integrado (PEI). Esse documento corresponde a um modelo de gestão que considera uma estrutura de governança cooperada que representa a integração entre essas instituições. A carteira de projetos apresentou a elaboração de 54 propostas e nenhuma delas foram assinadas pela SEE-MG ou Secretaria Municipal de Educação SMED-BH. No PEI o vocábulo – educação apareceu somente na lista em que elenca as secretarias citadas como participantes desse documento, mas sem a elaboração de projetos, demonstrando que estes órgãos dirigentes da educação não exploraram o potencial educativo da Copa.

Diferente da SEE-MG entendo que a Copa 2014 potencializou o futebol com ampla possibilidade de desenvolvimento de projetos pedagógicos, favorecido pelo caráter intercultural característico desse esporte, pela mobilização política para a realização megaevento e pelos investimentos na infraestrutura, construção e reforma dos estádios para atender as exigências da FIFA. Além disso, temos que pensar no antes, durante e depois do evento, ou seja, no legado.

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Jogo com representantes das seleções da Copa 2014. Foto: Amarildo da Silva Araujo.

Não menos importante que a Copa 2014, os Jogos Olímpicos são também um evento de dimensões planetárias, mas que requerem apenas uma cidade-sede para a sua realização (podendo contar também com outras localidades) e não necessitam da mobilização de um país. Além disso, as exigências em termos de infraestrutura determinadas pela organização dos Jogos são menores que as da FIFA.

O trabalho analisa outros documentos e desenvolve a pesquisa empírica. Como resultado mostrou que a ausência de diretriz(es) pelos órgãos responsáveis pela educação fragilizou as possibilidades de intervenção pedagógica, demonstrando que o potencial educativo do evento foi pouco explorado pelas disciplinas curriculares. Parece ter ocorrido um efeito em cadeia, de uma ponta a outra, ou seja, não houve diretriz do órgão superior, o mesmo ocorreu na escola, que refletiu nos projetos/atividades educacionais dos professores e que levou o evento a ser sub explorado no trabalho com os alunos.

O estudo também conclui que em breve o Brasil realizará os Jogos Olímpicos e o potencial pedagógico desse megaevento pode ser explorado pelas instituições escolares, para contribuir com a formação dos estudantes. Porém, caso não haja diretrizes das secretarias estaduais e municipais, o potencial educativo dos Jogos pode ser subaproveitado como ocorreu na Copa 2014. Por fim, orienta os gestores públicos a repensarem as diretrizes na área da educação para os Jogos Olímpicos e destaca a necessidade de compartilhar as decisões com a comunidade escolar para um melhor aproveitamento pedagógico do mesmo.

Como citar

ARAUJO, Amarildo da Silva. Um alerta para os Jogos Olímpicos – Rio 2016 no campo da educação. Ludopédio, São Paulo, v. 77, n. 4, 2015.