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Um Barça menos catalão

Victor de Leonardo Figols

A história do FC Barcelona se confunde facilmente com a história da Catalunha, mas nos últimos anos a diretoria do clube vem se afastando dessa identidade catalã, e assumindo uma postura muito mais global.

Na década de 1960, o FC Barcelona entrou na sua etapa mais catalanista de sua história, mesmo sob o regime de Francisco Franco. Primeiro veio a gestão de Enric Llaudet, que proporcionou a conclusão do Camp Nou, o estádio era um dos poucos lugares públicos que se podia falar catalão sem ser perseguido pelo governo; depois veio a gestão de Narcís de Carreras, na qual frase Barça, més que un club foi proferida, quando assumiu a presidência do clube. Essa frase era uma forma de dizer que o FC Barcelona ultrapassava o terreno futebolístico, atingindo o âmbito sócio-político, além de rememorar todo um passado de identificação com a região e de luta pela Catalunha. A frase era uma forma de explicar que o clube se identificava e a assumia o papel de representante da Catalunha. Foi nesse mesmo período, que o clube se tornou um importante opositor do governo de Franco, e principalmente, um vetor do nacionalista na Catalunha.

Carreras ficou à frente do clube até 1969, quando Agustí Montal assumiu o clube, já com o regime franquista enfraquecido. Nos anos 1970, o clube recuperou seu nome grafado em catalão, bem como a bandeira da Catalunha em seu escudo. Foi também nessa década que o FC Barcelona contratou o jogador Johan Cruyff, uma figura importante para renovar os laços entre o clube e o catalanismo, sobretudo graças as conquistas de títulos e as vitórias memoráveis sobre o rival Real Madrid.

No final dos anos 1970, Josep Lluís Núñez foi eleito presidente do clube. Com objetivo de colocar o clube catalão dentro do mercado mundial do futebol, Núñez criou um projeto esportivo que visava títulos de repercussão continental. As décadas de 1980 e 1990 foi o período em que o clube catalão passou a integrar o mercado mundial da bola, e o projeto de conquistar a Europa foi finalmente concretizado em 1992, com o título da Copa dos Campeões da Europa.

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Torcedor do Barcelona e a bandeira da Catalunha. Foto: Visual Hunt (CC0 1.0 Universal – Public Domain Dedication).

Nos anos 1990, o clube entrou definitivamente no mercado global. Assinou acordos televisivos, até com empresas do Japão, passou a ter a Nike como responsável pelo material esportivo, contratou os melhores jogadores daquela década, e viu os seus laços com a Catalunha se afrouxarem. A frase de Carreras virou o slogan do clube, e o catalanismo presente nela esvaziado, servindo apenas para explicitar a dimensão mundial que o clube havia atingido. Núñez ficou à frente do FC Barcelona de 1978 a 2000, quando passou a ter suas decisões questionadas pelos sócios.

Em 2003, Joan Laporta assumiu o cargo, e foi fundamental para reatar os laços entre o clube e a Catalunha. Laporta foi um crítico ferrenho da gestão de Núñez, principalmente nas decisões econômicas, que colocavam em atrito o caráter local do clube. Os investimentos nesse período foram voltados paras as categorias de base, principalmente na formação de jogadores, inclusive aqueles nascidos na Catalunha. Laporta também apostou no jovem técnico catalão, Josep Guardiola, que fora jogador do clube no final dos anos 1990 e que tinha forte identificação com a Catalunha. Foi também na gestão de Laporta que jogadores catalães como Puyol e Xavi ganharam destaque também fora de campo com declarações constantes em favor da Catalunha. O período mais vitorioso do clube coincidiu com o retorno ao catalanismo promovido por Laporta, e serviu para reforçar os laços com a torcida.

Laporta deixou a presidência do FC Barcelona para ser deputado do Parlamento da Catalunha pelo partido Solidaritat Catalana per la Independència. O seu sucessor foi Sandro Rosell, um homem que fora representante da Nike e um dos responsáveis pelos acordos da marca de material esportivo americana com o clube catalão. Aliás, antes de assumir o FC Barcelona, Rosell trabalhou como representante da Nike junto a Confederação Brasileira de Futebol, do então presidente Ricardo Teixeira, seu amigo pessoal. Os acordos entre Rosell e Texeira renderam uma investigação na Espanha, que culminou com a prisão do catalão por corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. Para além disso, as suas ações como presidente afastou o clube de sua identificação com a Catalunha: os patrocínios de diversas empresas, inclusive com uma do Qatar que estampou a camiseta de jogo e a falta de transparência na contração de jogadores (vide o caso Neymar), são exemplos disso.

Se durante toda a sua gestão, Laporta fazia enorme questão de destacar o papel do clube na promoção da Catalunha, Rosell não fazia grandes esforços em se pronunciar sobre a questão da Catalunha. As investigações sobre sonegação e lavagem de dinheiro levaram Rosell a renunciar à presidência do clube, deixando o comando para o seu vice, Josep Maria Bartomeu, que por muitos era visto como uma marionete de Rosell.

Em janeiro de 2014, Bartomeu assumiu o clube, quando a discussão sobre a votação de uma possível independência da Catalunha já havia tomando forma. Tanto que em novembro daquele ano foi realizado a consulta pública, que ficou conhecida como o 9N. Na ocasião, o clube não fez grandes manifestações sobre as votações, cabendo ao jogador Piqué, ainda que de maneira contida, falar em prol da região.

Esse distanciamento ficaria ainda mais evidente nas votações do dia 1 de outubro deste ano, quando a Catalunha foi às unas decidir o seu futuro. Enquanto a população era duramente reprimida pela polícia espanhola, o FC Barcelona entrou em campo contra o Las Palmas. O clube catalão fechou os portões do Camp Nou, e forçou os jogadores a entrarem em campo para disputar a partida. Durante o jogo, não houve nenhuma manifestação por parte dos jogadores em favor da votação e/ou da Catalunha. Do outro lado, o Las Palmas entrou em campo com uma bandeira da Espanha estampada na camisa.

Após a vitória por 3 a 0, Bartomeu, em nome da diretoria, se pronunciou por meio de uma nota dizendo que a população tinha direito de decidir e que não poderia abrir mão de disputar a partida, e que estava apenas seguindo uma recomendação da Federação Espanhola de Futebol, que determinava que as equipes deveriam entrar em campo. Por parte dos jogadores, Piqué deu uma entrevista em uma coletiva de imprensa vestindo o uniforme da Seleção Espanhola, em que repudiou a ação policial, e defendeu o direito da população da catalã em decidir o seu futuro.

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Sandro Rosell quando era presidente do Barcelona. Foto: Global Sports Forum.

Após a decisão das urnas, onde os independentistas venceram com 90% dos votos, o governo espanhol dissolveu o Parlamento da Catalunha e convocou novas eleições, que foram realizadas no último dia 21 de dezembro. O novo Parlamento foi formado por uma maioria de independentistas. Ao todo, os partidos pró-Catalunha conquistaram 70 cadeiras, de um total de 135, evidenciando, assim, os resultados da votação de outubro.

Dois dias depois, o FC Barcelona foi até a capital espanhola enfrentar o Real Madrid. O clássico, que é conhecido e reconhecido por haver diversas questões políticas envolvendo os dois clubes, não contou com nenhuma manifestação do clube ou de nenhum jogador a favor da Catalunha, nem mesmo após a vitória por 3 a 0.

Olhando esse passado recente do FC Barcelona, vemos que a identificação do clube com a Catalunha passou por diversos momentos, ora se afastando, ora se aproximando, entretanto, as duas últimas gestões vêm se esforçando para desvincular o clube da região. Por outro lado, jogadores como Piqué, e principalmente a torcida, assumem um papel importante, pois são responsáveis por alimentar essa identificação entre clube e região.

Se no comando institucional o clube está se afastando de seus laços históricos com a Catalunha, é nas arquibancadas que ainda se escuta o grito de INDEPENDÈNCIA! e que a frase més que un club ainda tem algum sentindo.