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Um cachorro invadiu o gramado

Leandro Marçal

Um cachorro raramente olha para os dois lados antes de atravessar a rua. Ele não sabe o que é mão dupla, desconhece o significado das cores do semáforo, ignora a faixa de pedestres e sai de uma calçada para chegar à outra controlado pelo instinto animal.

Não são raros os casos de atropelamento nas grandes avenidas, é claro. Mas para toda regra de um dom de seguir o faro da hora certa para desviar de um carro, ouvir uma buzina e colocar as patas no meio-fio diante da preocupação humana com quem não tem plano de saúde, é necessário haver exceções.

Nem falo dos animais abandonados em rodovias por donos covardes e sem coração. Nesse caso, foram jogados no meio de um roleta-russa e há mais de uma bala no canhão para levá-los a algum céu de ossos, restos de churrasco e donos lhes fazendo carinho o tempo todo – pois, se houver algum inferno, duvido que há cachorros por lá.

Um cão vê a avenida a ser atravessada com tédio. Também vê um jogo enfadonho, quase sempre um zero a zero, como a oportunidade de protagonismo em uma partida da Libertadores ou outras competições sul-americanas.

Porque é raríssimo um animal invadir o gramado em uma competição europeia, quase impossível vê-los desfilando acima do Trópico de Capricórnio. E difícil lembrar um cachorro tomando uma bolada por invadir um campo de futebol.

Cachorro na arquibancada. Foto: Fábio Soares/Futebol de Campo.

Repare que em todas as partidas com cães perto da grande área – sua ética os impede de se aproximar do meio de campo logo de cara –, além da peleja ser de baixíssimo nível técnico, ninguém falará em golaços, grandes lances ou mesmo invencionices táticas para serem discutidas nas mesas redondas das TVs por assinatura.

Manchetes estampam o cachorro fugindo de jogadores e seguranças – aqui, evitei o uso do verbo “driblar” por considerar um trocadilho barato, tanto quanto esses excessos de travessões para explicar isso ou aquilo e deixar a crônica meio truncada –, narradores, comentaristas e repórteres riem. Vão atrás do nome do cão, do dono, quase sempre uma criança, por muitas vezes pobre e sem esperança. Só ela será capaz de domá-lo, tirá-lo dali.

Pode ser que fique famoso, dê entrevistas para falar de como cuida do cachorro, onde o conheceu antes de adotá-lo. Quem sabe não pinta um convite para esses programas sedentos por pobres para dar prêmios como esmolas, fazendo-o passar por uma prova humilhante em rede nacional que lhe renda algum benefício financeiro.

Tudo por causa de um cachorro invadindo o gramado. Por vezes, os animais são um alento em meio a tanta desumanidade.