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Um “conto maravilhoso” sobre futebol e seus traços estereotipados – Mas Carlos consegue marcar gols

Elcio Loureiro Cornelsen

Ao longo da segunda metade do século XX, sobretudo com as conquistas nas Copas de 1958, 1962 e 1970, consolidou-se o mito do Brasil como o “país do futebol”. Não obstante várias transformações nessa modalidade esportiva desde então, com a globalização e a mercantilização, ou mesmo não obstante o vexame histórico na Copa de 2014, para olhar estrangeiro, o Brasil permanece sendo um dos principais celeiros de craques do planeta.

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Carlos kann doch Tore schießen.

Andreas Venzke escritor alemão de livros infantis e infanto-juvenis, parece imbuído desse olhar no conto Carlos kann doch Tore schießen (1999; Mas Carlos consegue marcar gols). De acordo com informações que constam no site da Editora Arena, de Würzburg, Andreas Venzke nasceu em 1961 na cidade de Berlim e vive atualmente na cidade de Freiburg em Breisgau, no sudoeste da Alemanha. Desde que se formou, Venzke atua como escritor, tradutor e jornalista. O escritor ganhou projeção literária com a publicação de biografias adaptadas para o público infantil, por exemplo, de Alexander von Humboldt, e dos escritores Friedrich Schiller e Johann Wolfgang von Goethe, dois nomes no panteão literário alemão. Além disso, recebeu vários prêmios por seus livros de literatura infantil e infanto-juvenil, dentre os quais constam os seguintes títulos: Carlos kann doch Tore schießen (1999; Mas Carlos consegue marcar gols), Johannes Gutenberg – Der Erfinder des Buchdrucks und seine Zeit (2000; Johannes Gutenberg – o inventor da imprensa e seu tempo), Der Entdecker Amerikas – Aufstieg und Fall des Christoph Kolumbus (2006; O descobridor da América – ascensão e queda de Cristovão Colombo), Pioniere des Himmels – Die Brüder Wright (2002; Pioneiros do céu – os Irmãos Wright), Berlin, Berlin. Geschichte einer Nation (2011; Berlim, Berlim. História de uma nação).[1]

Basicamente, o conto Mas Carlos consegue marcar gols narra a história de seu protagonista, um garoto chamado Carlos, que mora em “Onigo”, localidade fictícia próxima da megalópole São Paulo: “Não é fácil de encontrar Onigo. O nome não aparece em nenhuma placa de rua. Onigo não está em nenhum mapa, e nem mesmo numa planta da cidade. Pois ninguém desejava o lugar, pelo menos nenhum daqueles que, numa cidade como São Paulo, tudo planejam, ordenam e regulamentam”.[2] Segundo o narrador, “em Onigo só moram pessoas pobres”.[3]

Assim, prefigura-se em Carlos a imagem estereotipada – quer dizer, cristalizada – que se tem do futebol brasileiro: um garoto negro, que mora num bolsão de pobreza junto a uma das maiores cidades do planeta, e que tem um sonho: ser jogador de futebol. Carlos joga num time de garotos, na equipe dos “Jabutis de Onigo”, que conta com o treinador Dom Dunga, caracterizado pelo narrador como “um homem severo, que quer subir de divisão com os Jabutis”.[4]

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No conto existe uma imagem cristalizada do tipo de jogador brasileiro. Foto: William Lucas/inovafoto.

O conto de Andreas Venzke traz alguns elementos que nos lembram aquela fórmula postulada pelo estudioso russo Vladimir Propp na obra Morfologia do conto maravilhoso (1928), que propõe categorias gerais como as de “doador” e “objeto mágico”, ou ainda as de “sanção” e de “recompensa” como traços característicos de contos maravilhosos ou “contos de fadas”.[5] Em Mas Carlos consegue marcar gols há uma situação inicial desfavorável. Para além da própria situação social de pobreza no “jogo da vida”, momentaneamente, Carlos também encontra dificuldades no “jogo da bola”: o garoto já não marca gols há algum tempo. Tal situação, ao longo do conto, deve ser superada através da ação de um “doador” – o avô de Carlos, Ruben – e de um “objeto mágico” – o cadarço arrebentado de uma das chuteiras de Pelé.

De início, Carlos se sente pressionado pelo treinador: “− E, Carlos, vê se, hoje, marca gols de novo!”[6] Mas o garoto tenta compensar o sentimento de pressão com a habilidade que demonstra ter com a bola nos pés. O narrador onisciente estabelece uma relação entre o modo como Carlos dribla e a sua atuação como “lavador de pára-brisa” no semáforo para ganhar uns trocados, aliás, mais um traço da imagem estereotipada do garoto: “Mais tarde, de novo um domingo: Carlos joga futebol como se fosse apenas trabalhar no semáforo. Em ziguezague, ele atravessa correndo por entre os jogadores, como se estes fossem automóveis que ficam parados. E a bola fica tão colada em seus pés, como se fosse a esponja em suas mãos. Às vezes, ele chega a pensar que deveria carregar a bola até a meta, do mesmo modo que carrega o balde d’água até os carros.”[7]

Por sua habilidade, pois faz até embaixadinhas com uma lata de cerveja, Carlos atrai a atenção de olheiros. Um deles vai até sua casa e é recepcionado por Ruben, avô do garoto, com a seguinte frase: “− Carlos será o melhor jogador do Brasil ou, pelo menos, o segundo melhor, depois de Pelé.”[8] E, assim, Carlos é levado pelo olheiro para treinar na equipe infanto-juvenil do Santos Futebol Clube, refazendo a trajetória do próprio “Rei do Futebol”.

Todavia esse “happy end” para a história de Carlos – a “recompensa” de que fala Vladimir Propp –, só foi possível porque o garoto voltara a marcar gols. Ruben, uma espécie de ancião e sábio, que esculpe figuras de madeira que Carlos vende a turistas, contou ao neto que, certa vez, encontrara Pelé pessoalmente. Isso havia ocorrido em jogos do Santos, quando o avô trabalhava retirando o lixo no estádio. E um fato inusitado é narrado por Ruben, bem no tom fabular: “− Certa vez, arrebentou-lhe [i.e., de Pelé] um cadarço e ele o trocou. Eu ainda me lembro com precisão da cena, porque algo assim é raro. E você sabe de uma coisa? Depois disso, ele não conseguiu marcar mais nenhum gol naquele jogo. Talvez isso se devesse ao cadarço novo. Não deve ter-lhe trazido sorte. De todo modo, eu observei exatamente o que se sucedeu com o cadarço velho. Pelé simplesmente deixou-o ali, à margem do campo. Provavelmente, ele não se preocupava mais com chuteiras e seus acessórios. Quando criança, ele fora engraxate, e talvez não quisesse mais pensar nisso. De todo modo, eu guardei esse cadarço e o conservei até o dia de hoje.”[9]

Desse modo, Ruben se torna o “doador” segundo as categorias propostas por Vladimir Propp, que apresenta a Carlos o “objeto mágico”: o cadarço arrebentado de Pelé. E é com esse cadarço em uma de suas chuteiras que o neto voltará a fazer gols, sendo decisivo para a equipe dos Jabutis: “[…] E, então, Carlos arrisca tudo. Como a meta lhe parece grande, ele atira com mais de vinte metros de distância. Na verdade, ele ainda é pequeno demais pra um chute desses. Mas a bola passa voando por sobre a linha do gol feito um pássaro. Carlos se admira como pode ser fácil marcar gols.”[10]

Por assim dizer, Andreas Venzke transmite em seu conto uma imagem estereotipada do futebol brasileiro e de um determinado modo de jogar futebol, que se originaria em áreas pobres, nas periferias das grandes cidades do país. O protagonista praticamente refaz a trajetória de Pelé, que saiu de Bauru, município do interior do Estado de São Paulo, para jogar no Santos Futebol Clube e iniciar sua carreira promissora. Assim, o futebol surge, no caso de Carlos, igualmente como uma “máquina de socialização”,[11] como diria Roberto DaMatta.

Referência

DaMatta, Roberto. Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro. In: DaMatta, Roberto et. al. (org.). Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982, p. 19-41.

Propp, Vladimir. Las transformaciones de los cuentos maravillosos. In: Todorov, Tzvetan (org.) Teoria de la literatura de los formalistas rusos. 10. ed., Buenos Aires: Siglo XXI Editores, 2002, p. 177-198.

Venzke, Andreas. Carlos kann doch Tore schießen. Würzburg: Beltz & Gelberg, 2009.

[1] Informações sobre o escritor Andreas Venzke estão disponíveis em: http://www.arena-verlag.de/helden/andreas-venzke. Acesso em: 05 abr. 2013.

[2] Venzke, Andreas. Carlos kann doch Tore schießen. Würzburg: Beltz & Gelberg, 2009, p. 5. No original em alemão:

Man findet Onigo nicht so leicht. Der Name taucht auf keinem Straßenschild auf. Onigo steht auf keiner Landkarte und noch nicht einmal auf einem Stadtplan. Denn den Ort hat keiner gewollt, zumindest keiner von denen, die in einer Stadt wie São Paulo alles planen und ordnen und regeln. Todas as traduções são de nossa autoria.

[3] Venzke. Carlos kann doch Tore schießen, p. 5. No original em alemão: […] in Onigo wohnen nur arme Leute.

[4] Venzke. Carlos kann doch Tore schießen, p. 9. No original em alemão:

Er ist ein strenger Mann, der mit den Jabutis aufsteigen will.

[5] Propp, Vladimir. Las transformaciones de los cuentos maravillosos. In: Todorov, Tzvetan (org.) Teoria de la literatura de los formalistas rusos. 10. ed., Buenos Aires: Siglo XXI Editores, 2002, p. 177-198.

[6] Venzke. Carlos kann doch Tore schießen, p. 10. No original em alemão:

„Und Carlos, heute musst du endlich wieder Tore schießen!“

[7] Venzke. Carlos kann doch Tore schießen, p. 55. No original em alemão:

Wieder einen Sonntag später: Carlos spielt Fußball, als würde er nur an seiner Kreuzung arbeiten. Im Zickzack läuft er zwischen den Spielern hindurch, als wären sie Autos, die stellstehen. Und der Ball bleibt ihm dabei so nah am Fuß, als wäre er der Schwamm in seiner Hand. Manchmal denkt er fast, er müsste den Ball nur zum Tor tragen, so wie er seinen Wassereimer zu den Autos trägt.

[8] Venzke. Carlos kann doch Tore schießen, p. 66. No original em alemão:

„Carlos wird der beste Fußballspieler, jedenfalls der zweitbeste, nach Pelé.“

[9] Venzke. Carlos kann doch Tore schießen, p. 28-29. No original em alemão:

„[…] Einmal ist ihm ein Schnürsenkel gerissen und er hat ihn ausgetauscht. Ich erinnere mich noch ganz genau daran, weil so etwas ja nur selten vorkommt. Und weißt du was? Danach hat er in diesem Spiel kein Tor mehr  geschossen. Vielleicht lag das ja an dem neuen Schnürsenkel. Der hat ihm wohl kein Glück gebracht. Jedenfalls habe ich mir genau gemerkt, was mit dem alten Schnürsenkel geschah. Pelé hat ihn einfach am Spielfeldrand liegen gelassen. Wahrscheinlich hat er sich um Schuhe und was dazugehört nicht mehr so gekümmert. As kind war er doch Schuhputzer und vielleicht wollte er daran gar nicht mehr denken. Diesen Schnürsenkel habe ich jedenfalls eingesteckt und bis auf dem heutigen Tag aufgehoben.“

[10] Venzke. Carlos kann doch Tore schießen, p. 53. No original em alemão:

Und dann wagt Carlos alles. Weil ihm das Tor so groß vorkommt, zieht er aus über zwanzig Metern Entfernung ab. Eigentlich ist er für solch einen Schuss noch zu klein. Doch der Ball fliegt über die Torlinie wie ein Vogel. Carlos wundert sich, wie leicht man doch Tore schießen kann.

[11] DaMatta, Roberto. Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro. In: DaMatta, Roberto et. al. (org.). Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982. p. 40.